O DIÂMETRO DE UM ANZOL E A SUA CAPACIDADE DE FERRAGEM - CAP II

No número anterior analisámos com algum detalhe questões que se prendem com o diâmetro do arame de que são feitos os anzóis, e as limitações que esse diâmetro nos traz à nossa pesca. É consensual que arames grossos são menos eficazes.
Sabendo isto, os clientes procuram avidamente por anzóis mais finos, mais penetrantes, com melhores taxas de eficácia.
Mas é aqui que as coisas se ...complicam. Os anzóis de arame mais fino têm maior probabilidade de entortar, de abrir, durante a luta com o peixe.
A carga que suportam, para nós europeus só entendível se expressa em quilos de pressão, está mencionada em quase todas as embalagens de fabrico japonês.
Anzóis de maior abertura, com uma distância maior entre a haste principal e o bico são mais susceptíveis a ceder, a abrir. Quanto maior e mais ampla a sua curvatura mais frágil será a sua capacidade de persistir intacto aos esforços do peixe.
Aquilo que podemos procurar é então o melhor equilíbrio entre a boa penetração e a resistência à tração, o melhor de dois mundos.
Mas como conseguir isso?


A maior parte dos anzóis que utilizamos funcionam bem, embora alguns sejam mais indicados para este ou aquele tipo de boca.
Quando analisamos o tipo de anzóis que melhor funcionam em pesca vertical, verificamos que são substancialmente diferentes dos anzóis de jigging. E estes por sua vez pouco têm a ver com os anzóis dos triplos que equipam as amostras.
Os detalhes podem ser mínimos, mas numa peça tão pequena, qualquer ângulo, qualquer distância maior ou menor pode fazer diferença.
Temos pois que existem anzóis de retenção, mais curvos, e anzóis de primeiro contacto, mais direitos, mais rápidos.
Também podemos observar que em alguns modelos a distância da ponta à farpa é relativamente curta, as farpas em si são menores, mais baixas, do que em muitos outros modelos.
Grosso modo, o que fazemos é tentar adequar a forma do anzol ao tipo de pesca que fazemos. Para zonas com prisões, encalhes, um anzol mais curvo tem menos tendência para agarrar, mas esse mesmo anzol não será indicado para pescar com amostras, onde se pretende uma retenção ao menor toque.


Um anzol será sempre e apenas isso, e no geral, as taxas de ferragem parecem ser todas excelentes. Mas quando focamos mais de perto, e reparamos na taxa de desferragens, as coisas mudam de figura.
Para determinados tipos de curvatura, as percentagens de insucesso sobem drasticamente.
Poderá o meu caro leitor não perceber de imediato as razões que levam os fabricantes a ter tantos modelos de anzóis.
As bocas dos peixes não são todas iguais. Nem sequer as circunstâncias em que podemos pescar um peixe, o que nos pode obrigar a mudar os tamanhos dos anzóis.
Deixo-vos um pequeno detalhe para que meditem sobre ele:
Se um pescador fizer pesca numa zona de águas calmas, o peixe tem mais tempo para analisar a isca. Vai tentar “aspirá-la” devagar, sem pressas, observando demoradamente a isca.
Aí, a linha de pesca, o tamanho e cor do anzol podem ser percebidos, e se algo não parece bem ao peixe, rejeitado. Há tempo para tudo isso.
Agora imaginemos que o mesmo pescador passa a pescar numa zona de fortes correntes. O peixe está à procura de alimento, eventualmente a mesma espécie de peixe e com o mesmo tamanho e peso, mas aqui com um factor extra que é o tempo de decisão.
A passagem rápida da isca obriga o peixe a “pegar ou largar”, a comer de imediato ou a deixar ir essa potencial refeição embora no fluxo de água.
Nesses casos é mais fácil enganar o peixe, e embora o peixe e o anzol seja o mesmo, apenas adicionámos à pesca um pouco mais de pressão.


Eu, que pesco em zonas de areia com muitas bicas, (a minha querida esposa valoriza muito as lulas e elas estão quase sempre juntas), e porque este tipo de espárido tem uma defesa muito irregular, muito desequilibrada a partir do momento da ferragem, sinto que a barbela me ajuda. Pescar sem barbela far-me-ia perder imensos peixes.
Para outros tipos de peixe nem tanto, sobretudo aqueles que são dotados de bocas muito duras. O que há a considerar é o tipo de defesa que o peixe faz, a dureza da sua boca, o tipo de ferragem a que esse peixe nos obriga.
Verdade que o tipo de cana influencia decisivamente o tamanho e tipo de anzol a utilizar. Com canas mais macias podemos usar anzóis mais pequenos, com canas mais rápidas, mais duras, o anzol tem de ser um pouco maior.
Devem entender este assunto dos anzóis como sendo parte integrante de um sistema de pesca, um todo ao qual o anzol pertence. Quero com isto dizer que não faz sentido pescar com um anzol de arame fino se estamos a pescar numa zona de safios, onde o factor decisivo não é a penetração, mas sim a resistência ao esforço bruto que um peixe desses faz. Nestes casos, a barbela mais ou menos exposta não fará diferença nenhuma já que o momento de ferragem é decidido por nós.
Na maior parte dos casos, nós resolvemos estas questões de formas meio “alternativas”, abrindo o drag, cedendo um pouco mais de linha, dando tempo ao peixe, evitando uma confrontação directa entre a força do peixe e a resistência da linha.


A razão pela qual é importante escolher o anzol correcto é que isso pode ter um efeito drástico nas taxas de ferragem e captura. Bem sei que poucos pescadores nacionais prestam atenção a esta coisa das “percentagens” de concretizações de pesca ou desferragens mas há gente que faz isso assiduamente e daí consegue tirar conclusões úteis.
É pena que as pessoas não queiram saber do tipo de anzol com que pescam, se o vão utilizar em amostras duras ou amostras macias, do tipo vinis, por exemplo.
Este é um tipo de trabalho que eu faço há anos, e das minhas conclusões dou conta aos fabricantes. É com esse tipo de informação que eles trabalham, produzindo melhor, afinando, chegando a melhores desempenhos.

Não podemos ter em atenção apenas o baixo diâmetro do arame de que é feito o nosso anzol, mesmo sabendo que ele irá espetar melhor que um anzol mais pesado, feito com arame mais grosso.
Há que ter em conta a questão da resistência à tracção, se o anzol vai abrir ou não quando puxado por um peixe com peso.
Por outro lado, os anzóis cobertos a níquel aplicados nas amostras também nos trazem um problema acrescido: há pessoas que não os lavam com água doce depois de os utilizarem.
Isso quer dizer que vão enferrujar e passar a sua ferrugem a outros que estejam dentro da mesma caixa.
O revestimento de níquel é muito mais propenso à corrosão, principalmente quando são arranhados, desgastados, pelos dentes dos peixes e a seguir são guardados na caixa de pesca sem que a água salgada seja removida.


Quando nós passamos a informação aos fabricantes, eles procuram soluções. E neste caso, em vez do vulgar niquelamento, os anzóis das amostras ou jigs passaram a ser revestidos com zinco eletro depositado.
É verdade que este revestimento era muito resistente à corrosão, mas não era tão liso e brilhante quanto o níquel preto. Penetravam pior....
A solução perfeita? Não, ainda nem por isso.
Estes novos anzóis tinham um revestimento menos liso e deslizante, e por isso eles não penetravam tão fundo quando o pescador ferrava, logo as perdas de peixe eram significativas.
Porventura nunca teremos a solução ideal, ao anzol milagroso que nos dá tudo, mas podemos trabalhar nisso, podemos caminhar nesse sentido.
A GO Fishing Portugal fez uma parceria com uma empresa japonesa produtora de anzóis, a FUDO Japan, com centenas de anos de experiência nesta área.
Conseguiu importar directamente da fábrica anzóis de extrema qualidade, a preços baixos, por total ausência de intermediários.
E sabem qual foi o resultado? 

Uma perfeita decepção: porque foram colocados à venda muito baratos, na ordem dos 1.5 a 1.60 euros por saqueta, as pessoas pensaram que não eram bons....
Por serem muito baratos, demasiado baratos, apenas são adquiridos regularmente todos por aqueles que já os testaram e verificaram a sua extrema qualidade. Custassem mais caro e já seriam dados como sendo muito bons...


As contingências a que um fabricante de anzóis tem de responder são inúmeras.
Disse-vos neste artigo que duplicar o diâmetro do arame de que que um anzol é feito significa ter de imprimir quatro vezes mais força para obter o mesmo grau de penetração.
Quando se pesca o dito “pica-pica”, é o pescador que decide quando ferra, e por isso pode aumentar a força com que o faz.
Porém, os pescadores de iscas artificiais não sabem quando o peixe irá tocar na amostra. Para além disso, a utilização de linhas muito finas não permite aumentar a força da ferragem sem romper a linha principal, o trançado, ou a baixada.
Se queremos lançar uma amostra muito longe, ou se queremos que o nosso jig desça muito rápido, não podemos utilizar linhas multifilamento grossas, certo?
Assim sendo, anzóis feitos em arame grosso baixam-nos as possibilidades de ferragem em 50%. 
Por isto mesmo, a tendência da evolução técnica procurada pelos fabricantes vai no sentido de conseguir misturas de aço carbono ou tratamentos químicos que permitam fazer anzóis mais leves, mais finos, mas ...o mais resistentes possível.


Vítor Ganchinho


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