REFLEXÃO ACERCA DA PENETRAÇÃO DOS ANZÓIS - CAP I

Não lhes atribuímos a devida importância.
Pese embora sejam a peça que nos prende ao peixe, talvez pelo seu baixo custo, a sua aparente simplicidade, a forma fácil como os podemos obter, o serem absolutamente descartáveis, por tudo isso não lhes concedemos mais que alguns segundos de atenção. E todavia...
A boa penetração do anzol é um dos aspectos mais importantes da pesca e provavelmente um dos menos compreendidos.
A afiação, o comprimento e o perfil da ponta determinam a profundidade com que a ponta do anzol penetrará na carne e osso dentro da boca do peixe.
Abordámos ao de leve esta temática no último workshop realizado na loja GO Fishing em Almada, com enfoque sobre o afiamento de um anzol.
Vamos ver hoje aqui no blog mais alguns dados úteis.

Os vinis são a forma mais fácil de conseguir ferrar robalos.

Desde sempre, o maior desafio para os fabricantes japoneses de anzóis sempre foi o de produzir pontas afiadas e duráveis.
Este é e será sempre um problema técnico já que encerra em si mesmo uma grande contradição: quanto mais afiada e fina for uma ponta de anzol mais frágil ela será a um impacto.
Repetimos: uma ponta mais fina, mais afiada, dobra si própria ou entorta mais facilmente quando em contacto com algo duro, por exemplo os dentes da boca de um peixe, ou uma pedra do fundo.
É lógico que assim seja, conseguimos entender isto.
E este assunto sempre foi um dilema insolúvel para quem tem a responsabilidade de fabricar os nossos anzóis: afiar muito sim, mas a troco de quê?...

Alguns anzóis têm formas pouco evidentes, e chegam a parecer estranhos, mas todos têm um fim em vista.

Existem anzóis há milhares de anos e a tecnologia de afiação de anzóis sempre foi rudimentar e inconsistente. Sempre foi feita ...”mais ou menos”....
Por “excesso” de peixe isso nunca foi um problema mas, à medida que este começou a rarear, a questão da eficácia de cada ferragem colocou-se.
Vai daí os fabricantes de anzóis investiram muito em pesquisa e desenvolvimento para melhorar a afiação da ponta sendo que a primeira melhoria verdadeiramente significativa foi a afiação química, a qual ocorreu no início da década de 1950.
A década dos anos 60 já viu avanços significativos nos processos de polimento, mas foi somente na década de 90 que anzóis com pontas mais afiadas e duráveis começaram a dominar o cenário da pesca desportiva.
O perfil da ponta foi a área de foco para os fabricantes de anzóis e tem sido a principal área de inovação nos últimos tempos.
A nível global, os anzóis são agora fabricados de acordo com dois princípios distintos: ponta prensada ou ponta agulha.
Se a primeira é batida e cortada sobre a haste do anzol, a segunda não passa de um afiamento cónico, sendo esta última a mais usual.
Para um pescador, se o seu anzol penetra bem, é indiferente um ou outro método de obter uma ponta aguçada.

Aqui um perfeito exagero de anzol, este é para um marlin...

Temos ainda a considerar a farpa, ou barbela.
A farpa é a projeção que se estende para trás a partir da ponta e que foi originalmente projetada para tentar reduzir a probabilidade de o peixe se soltar durante a luta.
A ideia em si é boa.
O perfil da ponta e o seu comprimento permitem a penetração inicial, mas é a farpa, e especialmente o seu ângulo e elevação, que irá influenciar, em última análise, a penetração total e a capacidade de retenção do anzol.
Uma barbela mais alta, mais pronunciada, retém, ou trava a sua saída, mais que um anzol sem barbela, mas isso não significa necessariamente que se pesque mais facilmente um peixe. Isto parece estranho, mas pode até acontecer que seja precisamente a barbela do anzol a prejudicar sobremaneira a sua boa penetração.
A elevação e o design da farpa também mudaram drasticamente ao longo das décadas e hoje a visão predominante do que constitui "certo ou errado" quando se trata do design da barbela é significativamente diferente do que já foi.
Recordo-me de eu próprio comprar anzóis olhando não à sua ponta em agulha mais sim ao relevo da barbela. Erro crasso....para certos tipos de pesca, e de técnicas de pesca, a barbela pode prejudicar e até ser dispensável.
Como resultado daquilo que se sabe hoje, há uma tendência crescente na preferência do consumidor por barbelas cada vez menores, dado que em certas técnicas isso melhora bastante a penetração do anzol.


Anzóis com microfarpas ou sem farpas são agora empregados numa ampla gama de estilos de anzóis, especialmente aqueles usados para pesca leve e ultraleve.
Se tratamos de peixes de baixo peso e tamanho, sobretudo quando nos referimos a light rock fishing em que a quantidade de peixe disponível no pesqueiro é imensa, e porque o peixe pescado é de novo lançado ao mar, não precisamos de barbelas.
Barbelas maiores são agora reservadas a anzóis para peixes grandes, e falamos de Big Game, peixes alvo de situações difíceis e desafiadoras, peixes que saltam fora de água, actuam por intermitências, distendem e encurtam continuamente a tensão da linha.
Nesses casos sim, uma barbela mais alta pode ser decisiva e faz falta.

Para anzóis de ponta fina (cónica), a profundidade de penetração do bico do anzol (quando nós aplicamos a nossa força), é determinada por:

  • Diâmetro do arame usado na construção do anzol.
  • O polimento da superfície do metal perto da ponta, ou seja a sua capacidade de “escorregar” para dentro do osso ou carne do peixe.
  • O formato da ponta, particularmente o ângulo do seu cone, que em muitos modelos é curvo, para promover a fixação e retenção.
  • O tamanho e o ângulo de ataque da farpa, bem como a distância da ponta até à sua curvatura.

Alguns anzóis têm de cumprir vários requisitos: na modalidade kohga ser aguçados e ao mesmo tempo ultra-resistentes.

Entre estes factores, o diâmetro do arame de que é feito o anzol é decisivo. É ele que tem o maior efeito sobre a profundidade de penetração do anzol.
Está demonstrado que quanto mais fino o calibre do arame, mais longe a ponta do anzol penetrará, e a relação entre a distância de penetração e o diâmetro do anzol já foi quantificada matematicamente.
Em termos simples, se o diâmetro do anzol for dobrado, será necessária quatro vezes mais força para obter a mesma penetração da sua ponta.
Visto de outra forma, reduzir o diâmetro do arame do anzol para metade permite que a ponta penetre a mesma distância com apenas um quarto de força.
Porque sabemos da importância de um primeiro contacto de ferragem eficaz, sobretudo em pescas como o spinning ou o jigging, modalidades em que o peixe faz grande parte do trabalho, podemos perceber o quanto é importante saber isto. Se em pesca vertical de fundo com isco orgânico é o pescador que decide o momento em que quer ferrar, já em modalidades de contacto, de iniciativa por parte do peixe, é este que decide quando e com que força ataca a amostra.

Vamos continuar este assunto no próximo número do blog.


Vítor Ganchinho


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