A GRANDE MIGRAÇÃO DAS DOURADAS

Aos primeiros sinais de instabilidade no tempo, as douradas iniciam a sua movimentação para as zonas de desova.
As gónadas ainda estão pequenas, a maior parte delas só as terá desenvolvidas lá para inícios de Novembro, mas a corrida aos locais de postura inicia-se muitas semanas antes. Concretamente agora.
O facto das noites estarem já mais frias, aparecerem os primeiros sinais de entrada do Outono, motiva estes espáridas a uma migração que acontece todos os anos por esta altura.
Bem sei que a maior parte de vós só as vai começar a pescar no final de Outubro, mas este momento já marca a junção em cardumes densos deste peixe. E os locais de passagem são conhecidos por quem faz do mar a sua segunda casa. Já há douradas para pescar.


Cardume de douradas a dirigir-se para os locais de desova. Desliguei o motor e assisti durante mais de 20 minutos à sua passagem ao lado do barco.


São peixes que regularmente vivem em pequenos grupos, no máximo de seis a dez peixes, em zonas mistas de areia e a inevitável pedra, onde mariscam, e que nesta época do ano se reagrupam em cardumes compactos.
Ao longo dos anos, tenho-as encontrado nesta fase de deslocação em número elevado, de mais de 100 peixes, entocadas em buracos escuros, quase sempre misturadas com sargos.
Trata-se de um peixe muito fácil de capturar à caça submarina, quando dentro de frestas e buracos escuros. Muito mais fáceis que sargos, por exemplo. Em contrapartida, quando fora, assumem uma atitude de desconfiança que as protege daqueles caçadores sub que têm uma apneia algo minguada. Aproximam-se e afastam-se de novo, levando os menos experientes ao desespero e ao esgotamento do ar dos pulmões, nunca entrando facilmente na zona de alcance das armas de elásticos.
Descansam nos rasgos de pedras mais estreitos, normalmente com fundo de areia e tecto a não mais de 30 cm de altura desta. Ficam à espera da próxima maré favorável, que as irá empurrar mais alguns quilómetros nesse dia.
Seguem um trajecto ancestral, que outras fizeram antes de si, e que, na zona onde pesco as irá conduzir às águas do rio Sado.
O percurso está perfeitamente definido, e será alterado em função de determinadas circunstâncias. Uma delas pode não chegar a concretizar-se este ano, por ausência de chuvas: a abertura das comportas dos campos de arroz.
A plantação deste cereal foi diminuta, os agricultores não lançaram as suas sementes por falta de água, e isso irá provocar alterações directas nos timmings de desova das douradas. Francamente não sei até que ponto isso irá mudar o circuito normal de vida deste peixe. Em termos de calendário regular, ele é feito nestes termos:

1 - Chegada das douradas ao rio Sado, por volta do início do mês de Setembro (há muitas douradas que chegam antes, mesmo em Julho, mas o grosso da coluna só irá aparecer agora).

2 - Primeiras chuvas e temporais a meio/ final de Setembro (vamos ver este ano como vai ser…).

3 - Monda do arroz nas planícies de Alcácer do Sal, com a inevitável abertura das comportas, para secagem dos terrenos. As ceifeiras entram apenas com o terreno mais seco, e para isso, faz-se a drenagem dos campos agrícolas.

4 - A água destas zonas alagadas, enviada para a vala real que começa na Barragem de Sta Susana e sai à Comporta, traz consigo para o rio os herbicidas da monda química dada ao arroz.

5 - Isso é detectado pelas douradas, que percebem o perigo de desovarem em zona carregada de pesticidas, e saem do rio. Estes peixes são muito sensíveis a químicos.

6 - Juntam-se em meados de Outubro nas pedras mais próximas do estuário do Sado, o Terreiroso, as Casinhas, Mar Negro, o Zimbral, etc. Também as douradas saem das águas baixas do estuário do Tejo para fora, mas impelidas por uma outra razão: o frio.

7 - Arrefecimento nocturno mais acentuado para meio/ final de Outubro. O arrefecimento da primeira camada de água afecta os peixes, que descem dos 20/ 30/ 40 metros de profundidade para os 60/70/ 80 metros, e acabam por se concentrar na Pedra da Vereda, a famosa pedra também conhecida pelos antigos como a “Vereda dos Pargos”, ligeiramente a sul da praia da Comporta. O grupo de douradas saído do Tejo procura alimento nas paredes do Cabo Espichel, e reúne sobretudo em frente a este. Alguns cardumes ficarão um pouco mais a norte, mais adentrados na baía.
À medida que as noites arrefecem, irão deslocar-se de forma a encontrar o conforto que estes peixes necessitam por serem bichinhos de sangue frio e dependerem directamente da temperatura da água. Concretamente reproduzem desde que a água esteja estabilizada acima dos 13ºC.
Falamos pois de termoclinas, as diferentes faixas de temperatura de água dispostas por camadas, por patamares. Sabemos que no Verão é mais quente à superfície e mais fria nos fundões, e que no Inverno inverte estes dados. As douradas conhecem bem o processo.


Isto são pequenas estrelas do mar. Os nossos bichinhos chamam alimento a muito mais que aquilo que nós conhecemos.


Ao longo do percurso, vamos assistindo a situações pontuais em que as douradas param aqui e ali, para se alimentarem. As pedras acumularam ao longo de muitos meses uma quantidade de alimento que agora será muito útil a estes viajantes com destino certo.
A proximidade da desova obriga-as a comer desenfreadamente, no sentido de ganharem peso, massa muscular e reservas de gordura, em suma energia para a fase difícil que aí vem.
A postura é algo que mobiliza por completo as douradas, deixando-as indefesas perante ameaças que, de outra forma, saberiam e conseguiriam enfrentar. Morrem muitos peixes vitimas deste processo de reprodução.
A ânsia de chegar ao destino de desova, numa primeira instância os estuários dos rios, onde os alevins recém nascidos podem encontrar melhores condições de sobrevivência, leva-as a bater nas redes, adversários silenciosos e implacáveis que actuam sobretudo durante a noite.
Vamos ver como chega este ano. De que forma a ausência persistente de chuva irá afectar este ciclo é algo que iremos ver. Confesso ter algum receio que a permanência das douradas dentro dos rios possa levá-las a uma armadilha fatal.
As águas rasas dos estuários são zonas que facilmente são pescadas com redes de emalhar, e isso pode vir a trazer consequências nefastas para estes incríveis peixes.
No estado em que estão os stocks de douradas, se acontece uma desova falhada, se os reprodutores são capturados aos milhares, …podemos vir a lamentar muito este ano seco.

Vejam isto que filmei no início de Setembro:

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Na sua quase generalidade estas douradas que podem ver nas imagens que captei não ultrapassam nos maiores exemplares o quilo de peso, e isso é um sinal de que já estamos a pedir-lhes demasiado.
Os stocks de douradas têm sido impiedosamente delapidados e este ano isso irá de novo acontecer, certamente.
Ano após ano, iremos ficando mais pobres, porque o tamanho legal de captura, 19cm, permite tudo. Na minha opinião, deveríamos, enquanto é tempo, mudar o suficiente para que as douradas possam ter alguma paz. Há meios legais para isso. Quer limitando o número de capturas, quer aumentando substancialmente o tamanho mínimo de posse e retenção para algo parecido com 1 kg.
Estaríamos então a pescar peixes com 3 anos de idade, e isso significa pelo menos duas desovas. A forma de voltarmos a ter douradas de 6 a 7 kgs na nossa costa passa por conseguirmos preservar os maiores exemplares, aqueles que libertam milhões de ovas.
Lembro que uma dourada produz 2 milhões de ovas por cada quilo de peso! Mais que isso, sabemos que após uma fase muito crítica, enquanto o alevim é pequeno é facilmente atacado, mas quando chegam ao fim do primeiro ano, já se protegem bem, e são mesmo muito mais resistentes que outros peixes na mesma faixa etária.
As douradas pequenas, que entram em processo de reprodução por não haver outras, (as douradas são hermafroditas, mudam de sexo, se necessário, para equilibrar o número de reprodutores, e em definitivo após os dois anos. Nascem machos, e fazem o câmbio para fêmeas, após amadurecimento da gónada feminina), são peixes que não têm capacidade de efectuar posturas significativas. Em Setúbal, Sines, Sesimbra, pescam-se douradas com 350/ 400 gramas, peixes juvenis de 2 anos, e com muito fraca capacidade de reprodução. Caso não sejam impostas limitações de capturas, a natureza irá mostrar-nos que as suas leis são bem mais duras que as dos homens, …obrigando à “não pesca” por falta de peixes para pescar.

A opção é nossa, ainda: ou paramos e as deixamos recuperar por alguns anos, ou iremos parar de as pescar por muitos anos, por …não haver mais.



Vítor Ganchinho



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