TAMBÉM PODEMOS PESCAR BEM DE INVERNO? - CAP II

A intenção é a de passarmos os olhos por questões relacionadas com a menor disponibilidade dos peixes em atacarem as nossas amostras no período de águas mais frias.
Resumindo um pouco o artigo anterior: como o metabolismo e a função muscular dos peixes reduzem durante o inverno, o desejo de se alimentarem e perseguirem presas também diminui.
Isso explica a menor incidência de atividade visível dos peixes e os períodos mais curtos em que eles se alimentam activamente.
Os eventuais peixes ainda presentes nos seus locais de caça, aqueles que ainda não afundaram à procura das termoclinas, tornam-se mais oportunistas no seu comportamento alimentar.
Desvantagem nossa que os vamos ter muito ....”inibidos” de comer, muito lentos. A natureza é assim, e não há que a tentar mudar, há sim que adaptar a nossa estratégia ao que temos de enfrentar.
No fundo e se quisermos ser sérios, podemos entender esta redução de actividade invernal como uma resposta compreensível às necessidades de sobrevivência dos nossos peixes.
Grosso modo, o verão é a sua época de alimentação, o outono de desova, o inverno de conservação de energia e a primavera o seu período de recuperação física.
Em traços gerais é isto. Vamos ver mais detalhes abaixo.

Carlos Campos num dia em que o nevoeiro estava a levantar junto à costa.

Claramente, a temperatura é um factor importante, independentemente da estação do ano; ou, para ser mais preciso, do ponto de vista da pesca, a temperatura relativa.
Se a água subir de 14°C para 16°C, os peixes irão iniciar um ciclo de alimentação significativo, mesmo que estejamos no inverno. Se cair de 16°C para 14°C, eles irão ficar lentos, letárgicos.
São apenas dois graus, mas é uma questão de temperatura relativa à qual eles respondem criando uma tendência fisiológica: comer muito para captar reservas ou não correr atrás de presas para poupar energia em corridas inúteis.
É sempre a temperatura da água que determina qual das opções é mais válida no momento.
Das observações que tenho vindo a fazer, aquilo que me parece é que os nossos peixes funcionam muito por ciclos alimentares. Isso explica a razão de se “entupirem” em comida, muito para além do que seria necessário para um dado momento, ou para ignorarem por completo o factor alimentar, deixando-nos desesperados. Há dias em que nada parece resultar e isso acontece com mais frequência quando as águas estão geladas. É um facto.
Vento norte persistente, geadas, são sinais muito negativos para a pesca, sobretudo a pesca costeira.
Nesses dias, quem pode optar por sair de barco para um ou outro local, deve escolher pesqueiros fundos, abaixo das cotas de pesca mais utilizadas. Se o meu leitor não dispõe de uma embarcação, então a melhor alternativa é mesmo apostar em pescar nas horas em que o sol está mais alto, quando as águas rasas aquecem um pouco mais. Nessas circunstâncias, a temperatura relativa da água sobe lentamente durante a manhã, o que é favorável.

A pescar jigging numa manhã bem fria de Janeiro.

Um outro factor que me parece importante referir para quem pesca de terra é o seguinte: quando há diferenças na pressão atmosférica, por exemplo quando o vento se mantém norte durante alguns dias e num espaço de tempo curto passa a sul, gera-se um incremento na actividade dos peixes que beneficia aqueles que pescam mais junto à costa. Aquilo que tínhamos antes com vento norte, gelado, e peixe no pesqueiro mas de “boca fechada”, passa a ser peixe activo, com fome, com vontade de se alimentar.
Esta mudança de ventos provoca um aumento significativo da temperatura das águas, o metabolismo dos peixes aumenta e com isso a actividade sobe de forma significativa.
Nesses períodos, é pegar nas canas e sair ao mar.
Nunca por nunca desesperar quando não temos picadas nos primeiros lances.
E mais que isso, não atribuir culpas ao material, a luta que travamos nada tem a ver com a qualidade do nosso equipamento, mas sim com a forma como o utilizamos.

Os materiais de pesca hoje em dia são quase todos bons, o que faz a diferença é mesmo a técnica, a forma de utilização.

Também os podemos “ajudar” a morder as nossas iscas.
Continuo a ver muita gente a actuar de inverno da mesma forma que o faria de verão. É um erro crasso, os peixes não conseguem responder a esses estímulos rápidos.
Como o metabolismo dos peixes diminui, é muito importante diminuir a velocidade com que a isca é trabalhada. Se recolhermos a amostra muito rapidamente, não só esse ritmo parecerá artificial, desenquadrado daquilo que os peixes miúdos fazem, como também exigirá muita energia por parte do predador para perseguir o “peixe”, a nossa amostra. Tudo tem de parecer lógico, para que resulte.
Relativamente às amostras a utilizar, parece-me evidente que o modelo a utilizar deverá ser algo que venha a rocegar o fundo, de forma lenta, e não uma amostra de superfície, por exemplo um popper, algo inútil quando o peixe se concentra no fundo.
Serão sempre estes pequenos detalhes que nos irão, ou não, dar o peixe bom do dia.
Se tivermos de pescar em condições de temperaturas baixas, desfavoráveis para a pesca, podemos fazê-lo, assim saibamos respeitar os ritmos de vida e actividade dos peixes que procuramos.
É e será sempre uma questão de abordagem, de saber fazer, e não são os peixes que têm de se adaptar...


Vítor Ganchinho


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