VALE A PENA PESCAR DE INVERNO? - CAP I

Tenho amigos de Setúbal que ...”hibernam”.
Quando acaba o outono, guardam os seus equipamentos de pesca e esperam que a primavera chegue.
Outros pescam com muito menos frequência, a ponto de estarem praticamente inactivos.
E porquê?! Posso cogitar que se trate de gente friorenta, sem casacos quentes para ir ao mar. 
Será só isso ou será que existe algo mais?


De facto, as condições atmosféricas invernais são frequentemente mais desconfortáveis.
Mas aquilo que os desmobiliza não é isso, é acreditarem que não há peixe em dias nublados, frios, com vento, com chuva, ...
A ser assim, teríamos pois que os nossos peixes se evaporam e só voltam a condensar lá para a primavera, certo? Desaparecem como que por magia, para voltar mais tarde...

Pois não, não é nada disso e hoje aqui no blog vamos ver algumas das razões que levam a que de inverno se pesque de forma diferente daquilo que se faz no verão. Mas ...pesca-se!



Falamos de metabolismo basal, e de necessidade de comer.
Os peixes são seres exotérmicos e isso significa que a sua temperatura corporal é sensivelmente a mesma, mais ou menos 0.5ºC, da água circundante.
Eles de facto baixam a sua actividade física, focam toda a sua energia em manterem o corpo quente através da queima de gorduras armazenadas, e por isso é natural que estejam menos activos, menos receptivos a atacar violentamente as nossas amostras. 
Ainda assim, mesmo sabendo que os peixes não se alimentam com tanta frequência aquando da presença de águas frias, não deixam de o fazer. Eles comem. 
O que não nos convém mesmo nada a nós pescadores é saber que o período de atividade alimentar passa a ser geralmente muito mais curto. Mas é!


A pesca em estuário nesta altura do ano pode ser muito produtiva.
Sabem qual é a minha opinião sobre este assunto: eu não pesco em estuários, da mesma forma que não aceito trazer para casa peixes juvenis, miniaturas, projectos de futuros peixes.
São questões de princípios e deles não abdico, mas posso dizer-vos que muitos dos peixes que adentram os estuários no início do inverno têm tamanho e força.
Muitas espécies de peixes migram para os estuários no outono e vivem lá durante todo o inverno.
O rio Sado tem robalos gigantescos, acima dos 10 kgs de peso, e em sítios perfeitamente insuspeitos. Peixes que seriam o troféu da vida de muita gente passam o inverno nos portos rasos, em poucos metros de água.
Alguns desses peixes são solitários, caçam sozinhos e podem ter proporções impressionantes, a ponto de engolirem tainhas vivas de 1 kg inteiras.....
Mas a sua actividade diária pode restringir-se a poucos minutos / dia.
Se alguém quiser tentar, é munir-se de algumas amostras um pouco mais encorpadas e ir tentar fazer alguns lançamentos. Esses peixes caçam sobretudo à noite, a coberto da escuridão, protegidos pela sua invisibilidade.
O segredo para os pescar é descobrir quando e onde os peixes estarão a alimentar-se e focar a pesca especificamente nesses períodos.

Eu sei um pouco mais que isto, e vocês sabem que sim, mas prefiro saber que esses grandes robalos fêmeas estarão disponíveis para proceder a desovas massivas quando chegar o seu dia.
Sei onde é mas não digo...
Sou pelo património natural de todos, pela reprodução de peixes para todos e não pela captura de um peixe que só serve a uma única pessoa.


Porque este é um blog de pesca, é meu dever tentar ajudar aqueles que querem pescar e não desincentivar ninguém. Mas procuro fazê-lo de uma forma construtiva, didáctica tanto quanto posso, e por isso espero que nunca procurem aqui formas de dizimar peixes. 
Essas coisas de pescar com bombas, e com venenos e lançar redes de cerco, não é aqui....
Vamos ver o que acontece ao metabolismo dos peixes quando a temperatura da água arrefece durante o inverno e usar essas informações para ver se há algo que possa ser feito para aumentar as vossas taxas de captura.
Mas façam isso de forma honesta, séria, ética. Por favor.
Hoje em dia há muita informação disponível e ninguém se pode queixar de não saber porque não pode.

Há alturas para pescar, e outras para dar algum tempo ao peixe...

A temperatura ambiente da atmosfera e a temperatura da água do mar influenciam decisivamente vários processos que estão direta ou indiretamente relacionados à procura de alimentos.
Essa actividade alimentar é aquilo que nos permite a nós pescadores conseguir alguns peixes.
À medida que a temperatura diminui, os peixes ficam mais lentos de movimentos e alimentam-se menos vezes.
Isso decorre como resultado do abaixamento do seu metabolismo basal. Assim temos que:
A baixa temperatura da água diminui o metabolismo, reduzindo o impulso para se alimentarem (ou seja, o impulso para obter energia).
A função muscular, a “contração” muscular, fica mais lenta em condições de águas mais frias, logo menos ideais, de modo que os peixes não conseguem nadar tão rápido. Tornam-se mais lentos. 
Se insistirmos em recuperar amostras tal como o fazemos no verão, eles não tocam, não conseguem, não têm tempo nem disponibilidade física para chegar à amostra. 

Vamos ver de que forma isso afecta a nossa forma de pescar.
No próximo número continuamos com este assunto.
Até lá.

Vítor Ganchinho


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