A NECESSIDADE DE CONSEGUIRMOS LANÇAR AMOSTRAS LONGE

Recebi um convite de um amigo para ir com ele, no seu barco, ver de uns atuns que andavam a caçar cavala e carapau, numa zona próxima a Setúbal.
Porque conheço a zona, predispus-me a ajudar, indicando a área onde poderíamos vir a encontrar esses grandes viajantes do azul. Por aquilo que vi nos dias anteriores, seriam peixes entre os 80 e os 100 kgs.
Estive com turistas no meu barco a não mais de uma centena de metros de distância de uma “passareira”, onde haveria umas dezenas de peixes a atacar um cardume de cavala, à superfície. Os dorsos dos peixes saiam da água e faziam espuma, as cavalas saltavam desesperadas para tentar escapar vivas daquele inferno de goelas abertas. Os atuns grandes em acção de caça são verdadeiramente imponentes!
Por não ter na altura comigo equipamento adequado, abstive-me sequer de tentar ferrar um. As possibilidades de sucesso com equipamentos correntes são francamente reduzidas e por isso entendo que podemos ver, podemos vibrar com o espectáculo que a natureza nos oferece, mas não tocar.
Nunca sabemos quando voltaremos a estar em condições de repetir aquela fantástica visão. São bichos que maior parte dos casos se tornam quase imprevisíveis, pois tanto saem a comer aqui como ali, sendo este “ali” dezenas de quilómetros ao lado.


A foz do Sado atrai a si muitas toneladas de peixe forragem, e os predadores não deixam de rondar estas águas.


Mas há querenças, locais onde eles são mais expectáveis.
Há canhões de entrada com paredes verticais, em locais muito profundos, que são um verdadeiro atractivo para eles. Para além de garantirem segurança, por difícil acesso aos pescadores de redes, são locais de chegada fácil junto à costa.
Em poucos minutos estes colossos estão na zona dos 20/ 30 metros de fundo, e é aí que eles encontram comida facilmente. A nossa costa é um manancial de possibilidades de obter alimento, temos toneladas de isca para quem tem peso e boca grande.
E os atuns estavam lá nesse dia, bem perto da praia. O desassossego das cavalas a saltar à superfície assim o indicava. Cardumes infinitos de cavalinhas miúdas procuravam escapar, subindo na coluna de água, até ao limite máximo, a superfície.
Do barco, percebi que podia ser dia para conseguirmos ferrar um bicho daqueles. E fui ver qual o equipamento disponível.
Foi aí que começaram os problemas. A cana preconizada para a função, vim a saber, era uma cana de 1.70 mts de comprimento. Ao ver aquilo, fiquei frio.
Lançar uma amostra com semelhante artefacto é virtualmente impossível.
Eu não tinha comigo qualquer material de pesca, em termos teóricos estaria ali apenas para conduzir as operações de encontrar os atuns, e zelar tecnicamente para que a captura se concretizasse.
Acresce que a pessoa em questão pretendia ferrar o peixe utilizando uma cana de spinning. E até aí, eu não poderia estar mais de acordo com a pessoa, lançar uma amostra e ter uma picada de um colosso azul é uma sensação única.
Mas fazê-lo a partir de uma cana de 1,70 mt….? Evidentemente os lançamentos saíam a pouco mais de 15 metros, e não conseguimos um só toque.
E se havia atuns na zona...


Algures no azul, um cardume de atuns faz tempo para voltar a atacar os cardumes de carapau e cavala da costa.


Recordo-me de uma saída que fiz com clientes noruegueses. A dada altura, estávamos a pescar pargos de bom tamanho, com jigs.
Havia peixe grosso junto à costa, a não mais de 20 metros de fundo. Os resultados eram bons, não havia a intenção imediata de sair do local, mas eis que a dada altura percebo uma agitação enorme nas gaivotas e alcatrazes que sobrevoavam a zona. Confluíam para um ponto muito preciso.
Pedi aos meus colegas de pesca para levantarem as linhas e acelerei o barco o que foi possível.
Chegados ao local, vi que a razão de tamanho alvoroço era algo que não é muito frequente acontecer à superfície: uma passareira de …robalos!
Eram peixes entre 3 e 4 kgs, adivinhava-se uma centena deles, e estavam a dar uma tareia forte nas cavalas.
Nunca são episódios de longa duração, porque a dada altura as cavalas dispersam, perdidas de medo. Ao fim de algumas dezenas de segundos afundam, para se livrarem daquele martírio.
Irão reagrupar o cardume assim que possam, deixando todavía muitas delas perdidas para sempre, na boca dos predadores.
Mais uma vez não fomos capazes de aproveitar a oportunidade, porque a falta de equipamento não o permitiu.
As canas e carretos de jigging são extremamente eficientes para a função que foram desenhados, mas imprestáveis para lançar longe. E ali, a única possibilidade seria lançar bem longe.


Uma simpática tintureira a passar junto ao barco.


Uma das razões pelas quais a maior parte das pessoas, mesmo quando devidamente equipada com verdadeiras canas de spinning (entre 2,70 e 3 mts) acaba por falhar as oportunidades de que dispõe, têm a ver com dois erros clássicos:

1- O diâmetro da linha utilizada, normalmente demasiado grossa para a função de lançar uma amostra a longa distância. É muito importante que a linha esteja equilibrada com o peixe alvo.
Afinal de contas, de que serve ter uma linha super resistente, grossa, se o peixe que procuramos são….robalos? Quando se pesca a este peixe, um PE 1,5 chega e sobra.
A facilidade de lançamento obtida com esta linha, permite chegar onde está o peixe, sem o assustar, sem lhe…fechar a boca.
A solução não é colocar amostras mais pesadas, é aligeirar a linha. Uma amostra com excesso de peso, afunda rapidamente, e sai da zona de “stryke”, o spot onde o peixe está a comer. Ao afundar, sai da vista dos predadores, concentrados naquilo que estão a fazer à superfície. Por isso, amostras normais, mas linhas mais finas, as quais permitem lançamentos de 50-60 metros, isso sim.

2- A aproximação do barco ao local onde decorre a “passareira”. É uma lástima que as pessoas incorram neste erro, porque têm tudo nas mãos, e deitam a perder uma excelente oportunidade de fazer um bom peixe, porque querem encostar o barco mesmo em cima do local onde os peixes estão a comer.
Mais uma vez a limitação da linha, comentada acima, e a ânsia de verem de perto algo que deve ser deduzido de uma distância um pouco mais larga. Sabemos aquilo que está a acontecer quando os pássaros estão focados na água e nas possibilidades de conseguirem comida, quando os peixinhos saltam desesperados em todas as direcções, e quando se elevam da linha de superfície dorsos escuros, grandes. Não temos de estar lá em cima!
Deixar uma margem de segurança aos peixes permite-lhes continuar o seu trabalho, que começou muito antes, reunindo o cardume, obrigando-o a formar uma bola compacta, a subir à superfície, e finalmente a ter de dar o flanco, até que os predadores se sintam saciados. As presas estão preparadas para esta carnificina, a sua reprodução é feita aos milhões, não às dezenas, e por isso, não correm risco algum de extinção.

Pensem nisto na vossa próxima saída de barco, ou mesmo de terra: a distância de lançamento é importante.



Vítor Ganchinho



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