ÁGUAS OXIGENADAS - PARAÍSO DOS ROBALOS

Se queremos estar estáveis, com os pés bem firmes, sem sentir o barco abanar com a agitação marítima, ... ficamos em casa.
Sair ao mar dá-nos paz de espírito, descontrai-nos, e para quem trabalha dentro de quatro paredes, não tenho a menor dúvida de que faz muito bem à saúde.
O tempo que passamos a baloiçar ao sabor das ondas é, para além da pesca em si, um tempo de reflexão, de bem estar.
Estar mar nunca foi um problema, Portugal é um país de marinheiros, de gente dura, que aguenta, que se sente confortável quando as vagas sobem.


A batida de mar contra as rochas promove a mistura de elementos, e torna as águas bem mais oxigenadas.


Sentimo-nos seguros no nosso barco, em locais agitados, onde outros menos marinheiros porventura não gostariam de estar.
Sendo as questões de segurança inegociáveis, ainda assim há uma margem de utilização do mar que vai muito apara além daquilo que eventualmente pessoas de outros países ousariam arriscar. Recordo-me de estar nas Maldivas, ter tudo preparado para ir à pesca, e, à última da hora, o barqueiro ligar a dizer que lhe seria impossível comparecer no ponto de encontro porque estava um mar horrível. Estava um dia sem vento e ondas de 40 cm!


É aqui na espuma que o robalo se sente rei!


Os nossos peixes no entanto adoram dias de mar revolto. Diria que precisam desesperadamente desses dias para poderem sobreviver.
Alguns porque essas são as condições ideais para poderem caçar com mais facilidade. Os robalos estão no topo da cadeia alimentar do mar alteroso, mas outros o fazem, e estou a lembrar-me das anchovas, que adoram esse ambiente.
Os sargos vivem grande parte da sua vida na espuma branca, naquele tambor de “máquina de lavar” que lhes permite chegar aos tão ansiados perceves e mexilhões.
O mar revolto agrada à quase generalidade dos peixes por um motivo muito simples: a agitação marítima traz-lhes algo de muito precioso: a oxigenação das águas.
Nós humanos, que temos oxigénio disponível para respirar na quantidade necessária, não valorizamos demasiado esse factor. Outros bichinhos não consideram isso tão supérfluo assim.
Há situações em que os peixes morrem por asfixia, por défice de oxigénio diluído na água. A temperatura ambiente joga sempre um papel importante.
O calor é um factor decisivo na presença, ou não, do oxigénio.


Milhões de peixes mortos...


O oxigénio cria vida e a sua ausência mata-a.
Se um dia tiverem a oportunidade de conseguir mergulhar a cabeça numa zona portuária, vão reparar que a quantidade de vida não é muita, existe mas não vibra, não se movimenta da mesma forma que o faz em zonas de mar batido. É um espaço para peixes que vivem melhor na noite escura, que dependem mais da sua capacidade de detectar presas pelo odor, pelo tacto, pela sua visão de alta sensibilidade, que pelas suas capacidades atléticas. É um espaço para a emboscada, para a necrofagia, não um espaço para a perseguição.
Se há espécies que nada têm a ver com ondas e correntes, e necessitam de mares calmos, parados, outras e diríamos que bem mais nobres, vivem umbilicalmente ligadas a factores de turbulência marítima. Os robalos são um bom exemplo de um nadador exímio, que pontualmente adentra os estuários onde inevitavelmente encontra águas paradas, com pouca movimentação que não seja a naturalmente provocada pelas marés, mas que se sente vivo e activo a nadar na espuma, onde o mar bate forte.
Se vão aos rios e estuários, isso deve-se à sua propensão para caçar os cardumes de peixe miúdo que aí abundam. Mas, mesmo sendo peixes eurialinos, suportando bem as misturas de água doce com água salgada, não é aí que eles nos deixam ver a melhor versão de si.
É na rebentação que as suas faculdades físicas se expressam na sua plenitude, é aí que o robalo faz a diferença para os outros peixes.
Caçar na ressaca das ondas é-lhe tão natural que as possibilidades de um pequeno peixe poder escapar serão remotas. Um é mais rápido e nada melhor que outro, logo…vantagem do predador.


Dentro dos portos, a agitação marítima tende para zero, apenas as marés movem estas enormes massas de água.


Os peixes selecionam de uma forma muito precisa as zonas de caça, atendendo às suas conveniências. Procuram locais que a natureza dotou de determinadas características e que para eles, são melhores que todos os outros.
Se uma determinada espécie consegue tirar partido das suas capacidades natatórias, vai estar onde as suas presas sintam mais dificuldades em se movimentarem.
Ser portador de uma vantagem significa explorar esse factor até ao limite.
Se um robalo tem uma boa acuidade visual, melhor que o peixe rei, a sardinha, um choco, então vai dar-lhes caça no momento em que essas presas estão mais indefesas.
E não esqueçam isto: eles têm tempo para esperar.
Se as condições não lhes são momentaneamente favoráveis, …esperam que o sejam.
Um predador como o robalo sente poucas dificuldades em encontrar comida. Comem um pouco de tudo. Um peixe sim, mas também uma lula, um caranguejo, um choco, tudo lhes serve.
Isso explica o seu êxito enquanto espécie. Não fora o facto de ser um peixe apreciado na gastronomia portuguesa, e europeia, e por isso mesmo sofrer uma brutal pressão de pesca diária, e haveria muitos mais. Porventura tantos quanto as tainhas, que por não serem vendáveis, ninguém apoquenta...


Fiz esta foto com dois bons amigos e companheiros de pesca a meu lado: Carlos Campos e Fernando Santos. Cabo Espichel, Novembro 2022.


Queremos saber onde estão os robalos. Sabemos que passam parte da sua vida dentro dos estuários, outra em zonas baixas junto à costa, e outra, menos conhecida, em profundidades que podem ultrapassar os 100 metros.
Devem entender estas questões de localização dos robalos como uma resultante de vários factores, todos interligados entre si: oxigenação, presença de alimento, segurança, escapatórias possíveis em caso de perigo, e inclusive profundidade. Sim, porque muitas vezes, sobretudo no Verão e Outono, podemos vê-los a caçar em zonas baixas, tão baixas que ficam a seco na maré vazia.
Onde houver alimento e um palmo de água, pode estar um robalo.
Devemos prospectar cada recanto, sem subestimar qualquer zona, por pensarmos que não é um local agradável para um robalo viver. Porque eles não vivam lá! Eles vão lá.
Podemos saber quando lá estão, se olharmos para uma tabela de marés. As últimas horas de enchente e as primeiras de vazante permitem que esteja.
São os coeficientes de maré, sempre indicados nas tabelas, que determinam de quando até quando os nossos peixes podem ser procurados nos baixios.
Quando a água estiver demasiado baixa, eles estarão por perto, e seguramente haverá outros postos que podem e devem ser explorados.
Nunca esqueçam que procuramos robalos activos, porque muitos deles terão tido sorte nas suas tentativas de procurar alimento e estarão encostados num qualquer recanto mais fundo a digerir a sua refeição.
Esses, iremos tentá-los, mas noutro dia.


Bonita foto feita na ponta do Cabo Espichel. Nunca esquecer que se trata de uma zona Reserva, logo, não pode ser pescada.


A lógica de procurarmos os peixes nos momentos mais fortes das marés, em plena corrente, têm a ver com o momento em que os robalos estarão mais propensos a aceitar morder as nossas amostras. Em águas paradas, mortas, o tempo é de repouso. É tempo para os mais pequenos se alimentarem, para terem o seu direito à vida. Porque sabem que os predadores estão em repouso. Mas quando a água começa a mover-se, esses “direitos” cessam e tudo muda.
Fixem isto: a movimentação da água põe em marcha o período de caça dos robalos. E de todos os outros predadores que fazem da corrente o seu campo de batalha.




Vamos continuar a trabalhar neste assunto, porque há muito para dizer.



Vítor Ganchinho



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