Para um pescador de linha que consegue um peixe à razão de uma infinidade de lançamentos, resulta incompreensível que se pense em fazer toneladas de peixes de um só lance. São milhares de vidas ceifadas de um só golpe, um massacre de cada vez que as redes descem ao fundo.
Porém, essa é precisamente a forma de pensar de quem é mestre de uma embarcação de pesca profissional: fazer um “bom” lance que renda toneladas!
Os melhores mestres, aqueles que são idolatrados, são os que conseguem encher os porões mais depressa.
Todo o esforço desenvolvido por uma extensa equipa de trabalho aponta nesse sentido, fazer mais em menos tempo, com menos custos.
O mar é só um e aquilo que se retira deixa de lá estar. Fica o vazio.
Para quem pesca à linha, o importante é que haja vida. Necessitamos de peixe miúdo, forragem, para podermos ambicionar a pescar os peixes de grande porte, os predadores que tanto sonhamos.
Se eles não têm alimento, vão embora, vão procurá-lo para outras paragens.
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| Lance após lance, um pescador tenta conseguir contacto. Quando o consegue, tem um peixe. |
Estamos umbilicalmente dependentes das condições de mar. Se não estão reunidas as condições, o peixe não entra.
A chegada das cavalas este ano foi tardia, por força das condições de mar: do excesso de chuva, houve durante meses muita água doce misturada, das temperaturas demasiado baixas, no fundo da ausência de condições ideais para que esses pelágicos filtradores se tenham instalado mais cedo na costa. Entretanto já chegaram.
Sabemos que são os peixes miúdos, a cavala, o carapau, a sardinha, o biqueirão, etc, aqueles que mais influenciam a permanência de predadores próximo de nós.
Se não há alimento, ...não há peixe grande para pescarmos.
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| As arribadas de cavala trazem com elas tudo aquilo que ...as come. |
A questão é que no momento da sua chegada a águas costeiras, elas procuram alimento muito próximo da superfície.
Porventura demasiado próximo.
Quando mostram o dorso na linha de água, na sua ânsia de encontrarem ovas pelágicas de outros peixes a flutuar, as cavalas deixam-se ver.
E esse é o ponto de partida para um massacre desapiedado: as redes, com centenas de metros de pano, são lançadas à água....e cercam-nas.
Milhares de cavalas vão dessa forma encontrar a sua morte, em poucos minutos.
É inglório pensar que a sua esmagadora maioria não será consumida por humanos, mas sim por animais de engorda, sob a forma de rações para gado.
Que desperdício, que pena que assim seja, mas a indústria pesqueira não se compadece de “penas”.
Trabalha-se para garantir resultados, dinheiro nas mãos.
Os nossos barcos de pesca profissional abastecem as fábricas de conservas, e dão trabalho a milhares de pessoas em Portugal.
Reparo que hoje em dia a mão de obra tende a ser contratada no estrangeiro, emigrantes vindos de países asiáticos, sul-americanos, etc, aparecem para poderem colmatar as vagas não ocupadas pelos jovens nacionais, desinteressados de uma vida dura e correntemente mal paga.
Aquilo que nos aperta o coração é pensar que ficamos todos mais pobres de cada vez que as redes baixam ao fundo.
O ecossistema natural não consegue responder a tão severa punição. A reprodução das cavalas, e de tantos outros peixes forragem, é feita em função da “demanda” natural, das perdas de efectivos que acontecem por causas naturais, leia-se morte e predação.
Quando uma rede com centenas de metros entra na equação, a perda é total, peixes velhos, feridos, mas também reprodutores jovens e no activo.
Todos perdemos...
Ainda assim, as pessoas têm de viver, as razões do outro lado são entendíveis, e pouco se pode fazer para obviar a que façam a sua vida.
Com regras bem definidas, respeitando as quotas de extração possíveis, talvez seja possível uma coexistência pacífica.
A ideia é que ambas as partes se respeitem, que sejam capazes de entender o que cada um precisa para si.
Que nos dói o coração de ver desaparecer cardumes inteiros num só lance, disso ninguém tenha dúvida.
Eu, porque vou muitos dias ao mar e vejo como as coisas acontecem, sou mais massacrado do que quem vai apenas ocasionalmente pescar.
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| Há aqui muito alimento para os nossos predadores... |
Vejam isto, que mais não é do que a realidade de todos os dias na nossa costa.
Filmei numa das minhas idas a sul de Sines, onde fui pescar com jigs. Um peixe de cada vez.
Ter o senso de pensar que estas pessoas não estão a fazer mais que o seu trabalho, ajuda a engolir a pastilha....
Embora nos custe, não as podemos criticar porque esta gente também tem filhos na escola, também precisa de pagar medicamentos e apresentar pão em cima da mesa.
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Desde que fique algo, os peixes serão capazes de se alimentar.
As traineiras deixam de ir ao mar quando os fundos já estão tão rapados que as capturas já não pagam os custos com o combustível e o pessoal.
Não deixa de ser uma perspectiva amarga, e dura de aceitar.
Entendem pois a questão acima referida de...”engolir a pastilha”...
Vítor Ganchinho
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