TEXTOS DE PESCA - Pargo com laranja

Vocês não desistam de mim!

Chamo-me Vítor Ganchinho e estou perfeitamente convicto de que ainda posso vir a ser um elemento útil à sociedade. Deixei-me por completo daquela coisa de assaltar Multibancos com botijas de gás. À noite arrefece muito e eu andava a apanhar carraspanas seguidas. Tinha sempre o nariz vermelho, pingando ranho, e não ganhava para os Anti-Gripines. As bilhas do gás pesam a valer e eu já não vou para novo. Os fósforos muitas vezes ganham humidade, e eu levava horas para conseguir riscá-los e rebentar com as máquinas do dinheiro. Além disso a rapaziada das lojas já me franzia o sobrolho quando eu tentava pagar com notas tingidas de cor-de-rosa. Até ver, dessas cenas estou limpo. Também o meu programa de metadona está quase a acabar, e pese embora as coisas não estarem a decorrer exactamente como era esperado, por vezes a sorte muda. A esperança é a última a morrer e eu tenho uma outra ideia que também rende muito dinheiro: escrever um artigo sobre pesca à linha. 

Já sei que não fui bem sucedido com os textos anteriores, mas desta vez vou tentar surpreender-vos favoravelmente com algo meio estranho, mas que garanto nada ter a ver com efeitos do LSD, ou outros psicotrópicos. Trata-se de pescar pargos com laranja.

Nem precisam de me torturar, eu digo-vos tudo, e não guardo segredos. Aí vai alho:

As faixas de boas vindas à entrada do restaurante.

Não se trata de pato com laranja, nada disso. Falamos de pescar pargos com laranja, aquilo que todos os meus queridos dois leitores acham que não é possível. Afinal de contas, levamos a vida a ouvir dizer que as laranjas só valem se forem comidas depois da pescaria acabar. E que em caso de contacto acidental com citrinos, devem lavar-se muito bem as mãos antes de voltar a iscar. Os peixes não mordem no anzol, blá, blá, blá. Pois bem, …está errado! Tudo mentira! Dou-vos o enquadramento: 

Nakayhama, Japão, 20 de Janeiro de 2018. Eu e o Pedro Rosa fomos metidos num táxi, sem venda nos olhos, sem algemas nas mãos, e sem os pés atados com muita corda. Para além disso, viajámos no banco de trás, e não no escuro da bagageira. O meu amigo Fuminobu seguia junto ao condutor, gesticulando muito com os braços e fazendo vénias em japonês. Pelo nome, terão pensado que ele, a exemplo do Pedro Rosa, era do Pinhal Novo. Errado: ele é do Japão, e vive perto de Osaka.

Detalhe dos cardumes de peixe. Pesca-se à volta do barco.

Chegámos a um lugar meio escuro, uma rua estreita e acatitada, sem vivalma. O táxi parou. Coloquei um pé fora, no asfalto frio. Olhei para cima, e não vi atiradores furtivos, pelo que deduzi que os snipers estavam escondidos. A entrada do restaurante é discreta, e tem as inevitáveis faixas vermelhas à porta. Uns dizem que é para dar sorte, mas eu fiquei a pensar que seria para enrolar os corpos e não se verem as manchas do nosso sangue. Lá dentro, um cheiro a maresia indicava não estarmos muito longe da costa. Mas estávamos efectivamente a muitos quilómetros do mar. A meio do restaurante, um barco de madeira assentava em água do mar, um enorme reservatório, com cerca de 1,5 mt de profundidade. Os peixes circulam por todo o perímetro, sendo que num dos lados existem gaiolas com mariscos que podem ser colhidos à colherada. Existem por todo o lado tabuletas com o nome dos peixes e o preço de cada um. O consumo é feito de acordo com a carteira e entusiasmo pela pesca de cada cliente. Todos os dias camiões cisterna trazem mais exemplares vivos e estima-se que os peixes não fiquem por lá mais de 3 dias, em média.

Detalhe das tabelas de preços.

Julguei de início que nos iriam abater com balas. A ideia deles afinal não era bem essa. Queriam acabar connosco, mas à força de comer muito. Leva muito mais tempo, e fiquei a pensar se não seria a opção errada. Por mim, escusavam de estar com despesas, uma bala chegava muito bem. 
Começaram por nos trazer umas entradinhas de sushi em taças pequenas, acompanhadas de molho de soja. Comida envenenada, pensei. Apertei o nariz e mandei tudo goelas abaixo. Adeus canas e carretos da Daiwa, adeus família, adeus malta amiga do ginásio. Adeus amostras de vinil e adeus fios entrançados de 0.06mm. Adeus Pedro Rosa, és um fixe!



A coisa passou sem acidentes de maior. De olhos abertos, bebi um copinho de saqué, que pressupus para me anestesiarem. A seguir, disseram-me: agora vais pescar um pargo para o teu jantar! Com cubinhos de laranja!

Poucas vezes alguém já pescou com tantas garrafas de saquê por perto. Reparar na isca dentro da caixa: laranja.

Quando chegou a esse ponto, percebi que já nada havia a fazer pela vida de nós os dois. Seguramente essa era prova que nunca iriamos superar, e daí até à morte seria um passinho. 
Deram-me uma cana de pesca com cerca de 1 metro, com 80 cm de linha e um anzol grande e meio ferrugento. Colocaram-me junto a uma caixa com cubos de laranja e disseram-me que ou pescava, ou não jantava. Era evidente que não queriam que eu pescasse nada. Não havia facas à vista e pareceu-me despropositado tentar cortar os pulsos com o par de pauzinhos. O meu cérebro trabalhava a duzentos à hora, na tentativa de encontrar uma saída. Pensei em enfiar os pauzinhos pelo nariz e provocar uma morte rápida. Ocorreu-me que, com a quantidade de malta que anda com piercings no nariz, e argolas e bugigangas dessas, talvez a morte não fosse assim tão repentina. Foquei-me então na possibilidade de adiar o inevitável e tentar pescar.

Com uma cana de 1 metro, com 80 cm de linha de nylon, e um anzol com um cubo de laranja...

Na verdade, já apanhei dias de pesca com muito menos peixe, e com ele a picar pior. O sistema funciona da seguinte forma: os peixes não são alimentados, e há muitos. Quase tantos pargos como no meu pesqueiro 21, a norte de Sines. A pôrra de não ter nem sardinha fresca, nem lula, nem ganso coreano, nem sequer ao menos um filete de cavala ou uma Rapala, afligia-me. Iam a vinham, olhavam para a laranja e faziam-me um manguito. Retirei a laranja da água e provei: autêntica laranja da baía, mas salgada. Retirei da caixa das iscas mais um cubinho de laranja, isquei bem, com o anzol todo escondido e coloquei a isca bem à frente dos olhos de um dos pargos. Ou porque o animal era estrábico, ou porque o “apetite” o impeliu a isso, a verdade é que picou!

Aí está o bicho! Pargo com laranja. 


Veja o filme:




Afiambrei-me a ele como quem se agarra à vida. Trabalhei o animal com cuidado, como os desgraçados que fazem concursos de pesca de costa do Pinheiro da Cruz à praia da Aberta-a-Nova se agarram à picada de um pequeno peixe-aranha. Veio de lá um dos japoneses de olhos em bico e meteu-lhe o xalavar por baixo. Era nosso! Pensei nas minhas filhas, na família, no meu sogro, e achei que tantos anos a dar luta às sarguetas belicosas, às cabronas das choupas de 9cm, aos piços, esses velhacos de boca pequenina e apetite grande e descomunal, afinal tinham surtido efeito. Na verdade, quem consegue pescar as miudezas que pululam na baía de Setúbal, consegue pescar tudo!

Muitos risos, uma curta canção, pelos vistos um hábito daquele lugar, e todos os clientes a baterem palmas. Senti que talvez não nos quisessem abater, ou pelo menos que teríamos ganho a possibilidade de escolher uma morte mais honrosa, por exemplo fazendo um hara-kiri depois de experimentarmos uma das japonesas de perna branquinha e roliça que havia no local.

Simpática japonesa com um lavagante…anzolado.

Dada a quantidade de gente que pescava, pensei não estar muito longe da Pedra de S. Luís, em Setúbal. Não havia chocos, mas havia solhas, carapaus, lagostas, lavagantes, pargos, etc. Os ajudantes não davam mãos a medir, acudindo com os xalavares, levando os exemplares para a cozinha, onde eram preparados em minutos, sempre com a inegável perícia japonesa para tudo o que é trabalho em peixe. Minutos depois já tínhamos o meu pargo todo alinhado em finíssimos filetes, prontos a comer com um banho de molhos estranhos e de gosto diverso. Não tenho a menor dúvida de que, molhando bem na soja e com filetes daqueles tão bem feitos, sem qualquer ponta de espinha, no tamanho certo, e com uma irrepreensível apresentação, eu seria capaz de comer o meu par de peúgas sujas.

O meu pargo feito em sushi em seis minutos. Zero espinhas…extraordinário trabalho!

Fizemos amizade com uma família de japoneses cujas filhas, de 7 e 12 anos, estavam de olhos em bico e perdidas de riso a pescar carapaus, utilizando para o efeito uma fateixa tripla.

Como pode ser melhor? O avô ensina, o neto, atento, ….aprende.

A técnica é simples, era puxar e puxar até ferrar um pela barriga. Após comer a carapauzada, voltavam à carga, a pescar mais um, sempre com a diligente mãe a olhar por elas. Tal como eu faço com a rapaziada que sai comigo no barco Go Fishing: sempre de olho para evitar tentativas de suicídio dos clientes. 



Abraço!


Vítor Ganchinho



Comentários

  1. Pargo com laranja! Quem diria... Numa oportunidade vou pescar com banana... quem sabe?
    Obrigado por mais este delicioso texto,

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    1. Boa tarde Pedro. Eu nunca pensei conseguir pescar um peixe com um cubo de laranja. Já fiz pampos com caroço de pêro, com chouriço, inclusive Black Bass com pratas de maços de tabaco e com malquereres, mas pargos nem sabia ser possível. Nós aprendemos até morrer. Dado que gostou do artigo, vou pedir ao Hugo Pimenta, a pessoa responsável pela gestão do blog, para publicar alguns dos artigos de pesca que escrevi aquando das minhas viagens ao Japão. Eu tenho muita dificuldade para escrever a sério, porque para mim, é contra a corrente. Vai ver que vai gostar! Abraço!

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  2. Espetacular! Dá (ainda mais) vontade de ir até ao Japão. Obrigado por partilhar

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