TEXTOS DE PESCA - Alguns tópicos sobre a pesca profissional em África

Entendam aquilo que vão ler como sendo algo que é assim porque …tem de ser assim! A não existência de uma boa rede de frio, de um mercado coberto, de condições de higiene como as que podemos encontrar na Europa, faz com que a capacidade de adaptação do ser humano seja levada a um extremo. Aquilo que pensamos ser mau nos nossos mercados, seria considerado um luxo em terras de África. Tudo é relativo. 

Este peixe, pargo luciano, poderá ter 5 dias de ter sido pescado. Tem um cheiro nauseabundo. Acreditem ou não, conforme está, é considerado peixe fresco em algumas zonas de África. Isto come-se!


Em muitas zonas remotas de Àfrica, a única possibilidade de conseguir proteína é a de comer peixe sêco. 
Porventura um negócio de molas de roupa poderia ser bem sucedido, mas não para pendurar roupa, essa não é lavada durante meses, mas para apertar o nariz. 

No Senegal, cada homem pode casar com 4 mulheres. Eu que tenho dias que nem posso com a minha, nem imagino o que isso seja. Mas reconheço que pode ser útil, enquanto uma trata das crianças, que outras se ocupem da venda de peixe. Na terceira fila de bandejas, de notar que se tratam de protecções de ventoínhas…


Aspecto geral do mercado ao ar livre de Soumbedioune. Vende-se peixe muito fresco, peixe fresco, e peixe menos fresco, ou seja, com 2 dias, 4 dias e 6 dias de estar ao sol. De notar que o peixe, quando chega a este mercado já fez um viagem de um ou dois dias dentro da piroga. Os marinheiros dormem dentro das embarcações, até a encher de peixe, para rentabilizar o combustível. 


Já vos falei da Pedra Kounke. Trata-se de um afloramento rochoso que vem de uma profundidade de 400 metros, sobe aos 27 mts na zona mais alta. Tem inúmeras grutas ao longo da pedra, a uma cota de 45 metros, o que oferece aos grandes pargos e meros alguma protecção dos pescadores e grandes tubarões que visitam a zona. O Kounke foi descoberto por uma piroga senegalesa que saía de Sali, a norte da Gâmbia, com direcção à Guiné Bissau, para pescar à rede nos baixios dos Bijagós. Aí, a riqueza de peixe é tremenda e as pirogas enchem muito rapidamente. Não pode ser pescada de forma industrial pelos grandes barcos-fábrica, porque o calado dos navios não permite que operem em zons baixas. Por isso, a solução encontrada por estes barcos foi a de pagarem em dinheiro e álcool o peixe capturado pelas pequenas pirogas que, baixas e manobráveis, conseguem pescar. A fazer essa travessia em linha recta, essa piroga viu uma mancha vermelha que se estendia sobre centenas de metros na superficie da água. Aproximaram-se e viram que a mancha que observaram de longe eram….PARGOS. Eram milhares de pargos à superfície em acto de reprodução. Digo-vos como se processa: as fémeas de pargo luciano juntam-se em enormes cardumes, que vi inúmeras vezes com os meus olhos, e fazem algo parecido com um tubo, desde o fundo até à  superfície. Os machos, maiores, juntam-se a este tubo, e à libertação dos óvulos, lançam o seu esperma, fecundando os ovos em todas as camadas de água. Trata-se de um acasalamento colectivo, conforme fazem muitas outras espécies. A piroga encheu na sua capacidade máxima e retornou a terra. 
Como sempre, os bons locais são muito rapidamente conhecidos. O processo é simples e assassino: “ Se me deres 100 euros, dou-te as coordenadas de um sitio onde podes ir buscar 1.000 euros de pargos em poucas horas. Hoje”….
Funciona assim. Em África vive-se o dia de hoje. Amanhã é algo muito distante, ….logo se vê. Por isso, hoje aquele local, que conheci ainda com peixe, está cada vez mais deserto. 

A chegada das traineiras é aguardada por todos na praia. As vendedoras, normalmente mulheres dos pescadores, tratam de fazer a venda para particulares, restaurantes, hoteis, em suma, a todos aqueles que podem comprar. O peixe vai decrescendo de preço, à medida que os dias passam.


Vítor Ganchinho



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