TEXTOS DE PESCA - Escrito nas estrelas: Às 6:41h, os peixes picam

Depois de voar num velho avião bi-plano, um quatro asas com buracos de balas da segunda guerra mundial, entre a Guiné Bissau e os Bijagós, já acho todos os aviões seguros. Desta vez, voltei a um voo num avião a hélices, mas bem mais moderno, embora lento. Duas horas para fazer meia dúzia de quilómetros. Ao sair do aeroporto valenciano, quase à meia-noite, “escolhi” um táxi que estava inquinado de cheiro a haxixe. O motorista, um jovem paquistanês com ar alucinado, olhos inchados e raiados de sangue, mediu-me de alto a baixo. Dado ter já a mala “confiscada” no porta-bagagens, entrei. Se soubesse o que iria acontecer, teria perdido o amor à roupa e ao material de pesca, e fugia a sete pés. 
Arrancou em cavalinho, fazendo chiar as rodas, e depois de duas centenas de metros já me conduzia a 190 km/h nas ruas de Valência. Procurei meter conversa: 
_Que qualidade! Sabes que darias um bom piloto de competição?!
Resolveu brindar-me com uma colecção de truques, de acelerações, de guinadas bruscas e travagens no limite que quase me fizeram saltar os olhos das órbitas. No meio de todo aquele almareio, ouvi-o dizer algo como: “ Eu já sou condutor de táxis há quase dois meses, e nunca bati!”…
A seguir, resolveu testar os meus nervos, os quais eu gostaria que naquele momento fossem quase de aço: começou a escrever uma mensagem no telemóvel, sem olhar para a estrada. Perguntei-lhe se lhe daria eventualmente jeito que eu guiasse o carro com a ponta do pé esquerdo, a partir do banco de trás. Que não: “ Eu consigo fazer muitas coisas ao mesmo tempo, isto ainda não é nada.” Na impossibilidade de me atirar pela janela, por receio de me despentear todo, aguentei firme, fechando os olhos. Não se livrou de, recorrendo a todas as minhas forças, lhe fazer uma série de buracos com as unhas nos estofos do carro. No fim resolvi dar-lhe uma gorjeta monumental. É meritório encostar-me a orelha ao asfalto, fazendo curvas a 180 à hora, sem capotar. 
A espanhola da recepção do hotel não me deixou “hablar” com ela em condições: dona de um par de peitos altamente volumétricos e empinados, uma coisa de fazer faltar o ar, obrigou-me a recuar uns metros para a ver toda ao mesmo tempo. Tinha uma anilha ou algo brilhante no nariz, … acho eu….o decote não deixava ver bem a cara. 
Perguntou-me o que fazia ali. Disse-lhe que estava em missão de pesca: “como sabe, sou o 2º melhor pescador do mundo. O primeiro é Deus, com aquela faena do milagre dos peixes, claro, mas é preciso ver que ele e o apóstolo Pedro, estavam a trabalhar com redes, e eu, a minha arte é a anzol. Venho para pescar com o António Pradillo e o Raúl Gil”.

A mensagem no telemóvel não mentia: a saída era às 5.10 da manhã. E lá estavam os artistas do “darting”, a inovadora técnica com vinis minúsculos, ou a pesca com jigs que mal se vêem, e linhas trançadas que começam no 0.03mm e acabam no 0.08mm, os nylons que oscilam entre o 0.14 e o 0.18mm. Canas com acção de 1-7 gramas, por aí, cabeçotes de 3 gramas, ou pouco mais. Tudo é fácil e simples, a vê-los executar. A hipotética simplicidade esvai-se quando tentamos fazê-lo nós mesmos. É aí que começa o “cabo de trabalhos”. Ponto prévio: as condições de mar têm de ser razoáveis, diria boas. E tem de haver algum peixe, e no Mediterrâneo não há muito peixe. E depois disso, tem de estar em actividade. E esta é a primeira pedra de toque, um dos segredos bem guardados pelos meus amigos, o momento em que o peixe está em actividade. Fiquei estupefacto quando me disse que tínhamos de estar a pescar, sem falta, às 6.41h da manhã. A língua afiada e viperina que tenho descambou para um chorrilho de piadas e gozo que nunca mais acabavam. Porque não às 6.40h, ou às 6.42h?...ria eu, de lágrimas nos olhos. 
De facto, e como sempre, o valenciano tinha razão. A verdade é que há um momento exacto em que a quantidade de luz é a ideal. E percebi isso logo de seguida. Saímos do ancoradouro onde guarda um pequeno barco de fibra, e passados 30 segundos, chegámos ao pesqueiro! Foi apenas sair da doca, e já estávamos no “melhor ponto para fazermos o tipo de pesca que te quero mostrar”…
Entendi depois a razão pela qual o funcionário da bomba de gasolina lhe perguntava: “ queres o costume, ou mais um pouco?”. O costume eram 5 euros. No fundo estava a perguntar-lhe se eram 5 ou 6 euros, isto é, se ia para o molhe sul ou molhe norte. Tudo se passa ali em frente às dezenas de pescadores de costa que fazem o mesmo: pescam durante meia hora e a seguir vão para o seu trabalho. Peixe para o dia.  
Explicando a situação das 6:41h: há um momento em que a luz dos candeeiros do porto comercial de Valência se soma à luz do dia, que por volta daquela hora, começa a sentir-se. A dado momento, os milhares de pequenas sardinhas de 3 a 4 cm que entram no rio até ao limite de tolerância de salinidade na água, passam a estar visíveis. Magrinhas e assustadas, encostam à superfície em pequenos cardumes, sendo o alvo de todos os predadores do estuário, como anchovas, barracudas, robalos, palmetas, etc. 

António Pradillo com uma anchova, feita com um passeante, uma amostra da Savage concebida para trabalhar à superfície.


As 6:41h são o momento para o início de uma orgia desenfreada, o click que faz com que tudo aconteça. Durante alguns minutos, saltam peixes que comem, e peixes que não querem ser comidos. Por todo o lado, instala-se um frenesim alimentar que não dá um segundo de tréguas, não poupa nada nem ninguém. É a hora da degola dos inocentes. As anchovas trazem a boca e as goelas cheias de sardinhas acabadas de caçar. 

Sardinhas pequeninas, com cerca de 3cm, aquilo que todos comem aos milhares. 


Os predadores procuram vibrações, águas mexidas, brilhos. Pescamos com passeantes ou poppers pequenos, agitando a superfície. Com paragens, arranques bruscos, simulando peixes descontrolados e a fugir de algo. Não se aplica ali o princípio de que quem corre são os cobardes e os toureiros ruins. Ali, todos correm, e quanto mais, melhor. O primeiro objectivo é fazer levantar o peixe até à nossa amostra. A seguir, é provocar a investida, e isso faz-se com técnica. 



Nos dias em que lá estive, as 6:41h eram mesmo o preciso momento em que todas as condições estavam reunidas. Ao cronómetro, tudo explode de corpos em fuga e dentes que mordem. Tive mesmo de dar a mão à palmatória, e reconhecer a subtileza e sapiência de António Pradillo e Raúl Gil, dois monstros da pesca europeia. À medida que os dias vão ficando maiores, a hora vai encurtando, mas o princípio básico está lá: durante uns quantos minutos, não mais de quinze, o peixe alimenta-se em abundância, enche-se de comida. A seguir, o sol nasce, o peixe recolhe ao fundo, torna-se caprichoso, não pica. E quando não pica, os problemas começam. Aí, o material ajuda, faz a diferença estar bem equipado, mas como sempre, a técnica é um imperativo. Como costumo dizer, não é a flecha que falha, é o índio…

O autor com uma anchova feita naquele momento fatal: 6:41h


Há que provocar as picadas e essas surgem quando imitamos na perfeição um peixe ferido, em perda, um peixe que tem as suas capacidades reduzidas. 
Já sabia que eles pescam regularmente sargos e douradas com vinis, ou com jigs metálicos. Durante a minha estadia, tive oportunidade de o confirmar com estes olhos que a terra há-de comer, e de eu próprio o conseguir fazer. Com vinis minúsculos, os pargos entraram com vontade, os carapaus de bom tamanho não nos deram um segundo de descanso, e ainda alguns serras, atum que vem de fora e encosta para comer. Com o sol já alto, a pesca resume-se a umas quantas corridas de barco, a aproveitar o levantamento de cardumes de peixe miúdo, perseguidos pelos atuns, e a lançar tão longe quanto se possa, já que os peixes ao sentir as embarcações, tratam de afundar e de sair da zona. Muito difícil de fazer com barcos com pouca cavalagem, mas que ainda assim, vai dando uns peixes aqui e ali. Uma perfeita decepção as pedras a 45 metros, completamente amorfas, sem vida, com uma minúscula garoupinha de 10 cm, aqui e ali. 

 
Pequeno pargo feito com um vinil de 4 cm branco, com cabeçote de 5 gramas. 


Durante o dia, tirando alguns pontos quentes, a pesca no Mediterrâneo é dura. Os toques são raros, a quantidade de peixe muito reduzida e tudo o que se faz é sofrido. Os cardumes de alcorrazes e carapaus atacam-nos impiedosamente, massacrando as nossas mãos com os seus espinhos afiados, que nos deixam marcas para dias. É naquelas paragens que começamos a dar valor ao que temos em Portugal, peixe, melhor ou pior, mas muito peixe. 

Uma autêntica praga estas lástimas, que se lançam a tudo. 


Ao final do dia, nas mesmas condições de penumbra, o espectáculo repete-se, desta vez em condições mais difíceis, dado que pela tarde levanta-se sempre um vento incómodo, que impede os lançamentos, que dificulta até ao limite a acção de pesca. O mar protege os seus. De resto, más condições de mar e óptimas paellas à valenciana à espera dos atletas, são sempre uma mistura muito convincente para nos fazer encostar ao cais. 
Último dia, última oportunidade de fazer algo de diferente: uma saída de botas de borracha e cana na mão, a atravessar o rio Pineda, a vau, com água pelos joelhos, num autêntico lamaçal, aos robalos. Um vinil sem qualquer peso, a passear à superfície, era o oferecido em troca de alguma emoção. Que não chegou. Depois de alguma insistência, e de assustarmos centenas de tainhas, zero toques. Explicou-me que a sardinha saíra daquela zona do rio, dado o vento que se fazia sentir, e a temperatura ter baixado muito. Duas semanas antes tinha feito cerca de 50 robalos na mesma zona. O António faz sempre captura e solta, o peixe é restituído à água em boas condições. 
Gente boa, António Pradillo e Raúl Gil, de uma capacidade técnica só acessível a alguns predestinados. Em Julho, encontramo-nos no Senegal. A GO Fishing vai mostrar-lhes o outro lado da pesca, onde os fios de nylon de 1 mm partem facilmente, quando puxados para o fundo por “meninos” com outro arcaboiço….


Vítor Ganchinho



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