TEXTOS DE PESCA - Mar alto: Um dia de terror!

O assunto é sério. É verídico, passou-se há uns bons 20 anos e tratou-se mesmo do pior dia da vida de um simpático motorista de uma empresa de distribuição. Explico-vos como e porquê: 

José Paciência tinha entrado para a empresa um ano antes. Pescador à linha, habitual presença na muralha do Sado, em Setúbal, com os resultados normais para quem faz aquele tipo de pesca: nada ontem, nada hoje mas amanhã é que vai ser. Ao longo de meses e meses, ouviu regularmente falar de caçadas aos sargos, aos polvos, aos robalos, feitos por pessoas que conhecia da sua rotina de trabalho, mas com quem nunca tinha saído. Pela sua mente passavam grandes cometimentos, grandes peixes e grandes aventuras. Queria mesmo participar! Dia após dia, demonstrava a sua enorme vontade de ir connosco, de se ver metido no meio da acção, de fazer uma pescaria realmente boa. Começou a moer-me o juízo com tantos pedidos até se tornar insuportável. Ou porque o tempo estava muito bom e não queríamos ser empatados por um principiante que nada de bom poderia trazer-nos, ou porque o tempo estava muito mau e provavelmente a coisa poderia dar ao torto para o lado dele, a verdade é que não ia. Que não, que não estava em condições, que era melhor esperar, …enfim, desculpas e mais desculpas para não o levarmos. 
Até um frio dia de Novembro, que não estava nem bom nem mau, estava como se diz no Alentejo, açordível, para comidas quentes, e apenas havia um companheiro para ir, José Carlos Garcia, da Amareleja. Moço rijo, mas mais para o lado do “sequeiro”, da pesca ao achigã com os pés firmes no chão, do que para os lados da água salgada de mar. Saímos os três. O Zé Garcia apareceu vestido como quem vai para um casamento: debaixo do casaco grosso, uma camisa abotoada até acima ao colarinho, calça de fazenda vincada e sapatos pretos engraxados. Como habitualmente, o barco foi colocado na grua do Clube Naval de Setúbal, e o rumo feito às pedras do costume. O semi-rígido Stress VI fazia o percurso em cerca de 50 minutos, mas dado o vento que se fazia sentir, abrandámos a marcha, para os corpos não chegarem com falta de peças. Para além disso, estava um frio de rachar, à saída de casa, o carro marcava apenas 2º C positivos. O plano era simples: eu iria mergulhar e eles ajeitavam o peixe nas caixas, por especialidades. Nada de misturar polvos com salmonetes.
Vestir o fato com água fria é algo que não se deseja nem ao pior inimigo, mas faz-se. A sensação da água gelada nas costas é superada pela vontade de andar pelos fundos, de ver como estão de peixe. Pese embora o mar estivesse a levantar, ainda tinha alguma visibilidade. Mês de Novembro é mês de muitos polvos e de grandes safios que os seguem na sua migração para a costa. E ali estavam, nas pedras do costume, à profundidade do costume. 
_ Os sargos são pequenos, mas temos em baixo uns 12 a 15 polvos de bom tamanho, e está um safio matulão enfiado numa fenda. Vou começar pelos polvos mais pequenos, para aquecer. 

As grandes caçadas de polvos do antigamente. Vinte polvos frequentemente davam 100 kgs….em média.


Quando se fala em polvos pequenos, tratamos de polvos de 5 quilos. Sim, os mais pequenos têm ali cerca de 5 kgs, porque os de tamanho abaixo são comidos por estes e pelos outros, os grandes. Mas a esses já lá vamos.
Com o barco fundeado, a âncora relativamente leve obrigava a uma vigilância constante, para detectar a tempo algum desgarre. Os dois artistas que estavam dentro do barco não tinham noção nenhuma de como o conduzir, e apenas um deles era visita pontual, esporádica, das minhas caçadas. O mar começou a subir. Passados 15 minutos, estavam 3 polvos a bordo. O Zé Paciência ajudava diligentemente a puxá-los do gancho para dentro das caixas. Na descida seguinte, quem veio ajudar foi o meu amigo Garcia: 
_ Olha, ele parece-me que está um pouco azamboado, está a dizer-me que se sente mal. 
Quem está a mergulhar tem muito pouca vontade de longas conversas, pelo que lhe disse qualquer coisa curta e seca, e seguramente imperceptível, dado que nem tirei o tubo da boca. Desci mais uma vez e mais um polvo. 
_ Olha que ele está a vomitar tudo, e diz que está muito mal!...
Respondi-lhe grosso, dizendo-lhe que se deitasse no fundo do barco, e que aguentasse, que eu estava quase a chegar ao último polvo. O mar subia mais e mais e tinha receio de que a água viesse a turvar rapidamente. Mergulho e pressa são coisas pouco compatíveis, sobretudo quando tratamos de 18 a 19 metros de profundidade.  Cada gesto tem de ser muito bem pensado, muito bem avaliado, porque tudo se pode precipitar. À chegada à superfície, com mais um dos polvos da pedra, o Zé Carlos Garcia disse-me: 
_ Olha que ele está a dizer-me que vai morrer aqui, que não aguenta mesmo!!! O rapaz está mal!
- Esse gajo levou meses a remoer que não o trazia….e agora está nisto!....Vou aí ver.
Subi ao barco, retirei as barbatanas, e olhei para ele. Babava-se, estava banhado em cuspe e estava branco como a cal da parede. Com esforço, levantou os olhos para mim e por aquele olhar mortiço e almareado percebi que já tinha dado o estoiro. 
_ Temos mais 4 polvos lá em baixo, e temos ainda o safio. Vamos ter de o levar para a praia. Ele em terra,… arrebita. 

Polvos adultos, de 10 kgs cada um. Em dois polvos, 20 kgs…


Tudo foi executado de acordo com o figurino: despimos o atleta, a roupa foi colocada num saco de plástico preto, de 50 litros, e dei um nó apertado para não entrar água. Barco junto à costa o mais perto possível, e saltámos para a água, eu de saco de plástico numa mão, a outra a abraçar como podia o desalentado Zé Paciência pela cintura, e muita força de pernas e nas barbatanas, para fazer andar aquilo tudo à minha frente. Passar a rebentação foi relativamente fácil, sobretudo para mim, que tinha um fato de mergulho de 6,5mm. Não imagino o sofrimento dele, completamente despido. As ondas pegavam nos corpos e empurravam, fazendo galgar metros atrás de metros. Na praia, o meu colega batia o dente, mas estava vivo. 
_ Ficas aqui uma meia hora, e eu já te venho cá buscar. Veste as roupas porque isto aqui não é o Meco, não podes estar aqui descascado e de gaita ao léu!
Voltei ao barco, e em poucos minutos retornámos ao local onde tinha deixado a bóia de marcação. Na praia, cá de longe, víamos alguém enrolado na areia, encolhido, sem se mexer. 
Levei uns minutos a recuperar o ritmo cardíaco certo para voltar a descer. Os polvos continuavam lá, mas eram enormes e estavam bem entalados nas frestas. Havia ali trabalho para algum tempo. Os polvos grandes quando sobem abrem os tentáculos, e por isso oferecem muita resistência. São autênticos guarda-chuvas abertos. O mar subia a olhos vistos e o vento tornou-se constante, aumentando as vagas. O Zé Carlos Garcia começou a dar sinais de impaciência. 
Passados mais uns vinte minutos, os polvos estavam a bordo, sendo dois deles bastante grandes, na casa dos 10kgs cada um. Um deles tinha ao lado um pampo, que de tão enregelado que estava, nem ofereceu resistência e foi capturado dentro do buraco, à mão. 

Toca típica de polvo, com pedras ao lado, para se defender dos safios.


Faltava o safio. Uma baixada, um tiro, mas em posição muito ruim. Tentei puxar de imediato, mas o melhor que consegui foi fazê-lo entender ao que ia. Entalou-se ainda mais. Estava ali um bico-de-obra. Mais pressão e certamente a barbela iria abrir. Voltei ao barco para dobrar o tiro com outra arma. O espaço disponível para atirar com uma arma comprida era miserável, e o melhor que consegui foi colocar um arpão ao lado do outro. Ainda assim, a segurança era bem maior. Puxar e puxar, um esforço medonho e poucos resultados. Sabia que o safio iria ceder, mas não sabia quando. O mar continuava a subir, e as condições cada vez piores. Descida após descida, sentia que estava quase. Num arreganho de vontade, coloquei um pé de cada lado do buraco, as duas mãos a agarrar firmemente os arpões, força com as pernas, e ei-lo, a saltar do buraco como uma rolha de garrafa de champagne. 

Safio de 18 kgs.


Finalmente podia ir buscar o Zé Paciência. Arrumado que foi o barco, as caixas cheias de polvos e com um safio de 18 quilos, chegámos à praia. O problema era muito pior do que imaginava. As ondas rebentavam fora, e estávamos a mais de 100 metros da praia. Impossível fazer o barco aproximar-se mais da costa. Analisadas as condições, resolvi inventar um plano alternativo: 
_Zé Carlos, vais ter de fazer aqui uma manobra que não vem nos cursos de Patrão Local. Desatamos a âncora e vamos utilizar esse cabo, que tem 150 metros. A ideia é eu levar a bóia de salvamento amarrada ao cabo, ir à praia, entregar a bóia, preparar o moço, e trazer a roupa dele novamente dentro do saco, através da rebentação. Quando ele estiver pronto, eu levanto o braço e tu fazes marcha atrás devagar, para o ajudares a passar as ondas da praia. Entendeste?!
_ Para me ir embora daqui, eu entendo tudo. Fica descansado….
Convencer o Zé Paciência a entrar na água fria foi coisa de mais uns quantos minutos. As ondas rebentavam acima da cabeça dele, e só por milagre foi possível fazê-lo acreditar que o plano podia resultar. Lentamente, despiu-se novamente e passou a bóia pela cintura. Benzeu-se duas vezes. Tínhamos à nossa frente ondas de 2,5 a 3 metros. Ainda com água rasa, pelos joelhos, levantei o braço para o barco. Ainda nem sequer tínhamos começado a sua execução e percebi imediatamente que o plano já tinha falhado por completo. A 100 metros de distância, o Zé Carlos meteu a marcha atrás na máxima força. O corpinho gordo e almofadado do Zé Paciência rodopiou no ar e aí vai ele, atravessado, preso pela cintura. Rebocado pelo barco, apenas teve tempo para emitir um enorme grito de aflição. No espaço de poucos segundos desapareceu nas águas, que o cobriram. Com o saco plástico das roupas, meti-me à rebentação para tentar ajudá-lo, mas as paredes de água eram de tal forma que isso não passou de uma breve e fugaz intenção. Quando não estava submerso pelas ondas eu tentava perceber onde poderia estar o meu companheiro. Nada. Nem sinal, no meio de toda aquela espuma. Deixei de ver o barco, deixei de ver terra, apenas tentava manter-me à superfície, sem largar o saco. Adivinhava o pobre do moço a bater de onda em onda, a não conseguir respirar, preso ao cabo da bóia, numa agonia sem fim. Passados minutos que me pareceram uma eternidade, consegui passar a barreira de ondas. Na cava da onda não via nada, mas enchendo bem o peito de ar, no topo das cristas, conseguia ver ao longe o barco, e o Garcia a recuar, sempre a olhar apara trás. Levantei os braços para o fazer parar, mas nem olhava para a frente, apenas concentrava a sua atenção em algo que estava na retaguarda. Mais um esforço e consegui aproximar-me. O cabo da âncora estava pendido para o fundo e balançava ao sabor das ondas. Temi o pior. Dei a volta ao barco e foi então que vi o pobre do Zé Paciência agarrado por uma mão à pega lateral. Estava vivo. Rapidamente consegui subir para o Stress VI, descalçar as barbatanas, e daí, com um esforço titânico, levantei em peso o meu desafortunado colega. Ficou inerte no fundo do barco. O corpo enregelado não mexia, a boca estava paralisada, e os olhos fechados. Mas respirava. 
Tão depressa quanto possível, esfregámo-lo com uma toalha seca. Foi vestido com o mesmo jeito e zelo com que se veste um defunto, tentando enfiar as mangas sem lhe partir os dedos. Reparei que toda a pele dos flancos tinha saltado. A bóia de salvamento (!?) estava muito justa, e com a força das ondas a empurrar para o lado de terra, o barco a puxar para fora, ficou logo abaixo das axilas, entalada. Uma larga faixa de pele ficou agarrada ao plástico rijo da bóia. Mal conseguia respirar. Não falava. Não tínhamos nada quente para lhe dar, pelo que me lembrei de o fazer beber umas goladas de água quente do jacto do motor. Enrolei-lhe a minha roupa à volta do pescoço e da cabeça, já que seria impossível vestir-lha. O Zé era gordo, mas gordo a valer. De regresso, dei gás ao barco dentro do possível, mas o mar encapelado não permitia grandes desenvolturas. A espaços, faltava água debaixo do barco, que saltava de vaga em vaga. O nosso náufrago, deitado no chão, desamparado, batia com a cabeça nas caixas, e não reagia. 
À medida que nos aproximámos começou a acalmar, e permitiu uma navegação mais confortável. Aos poucos, senti-o retornar à vida. Levantou a cabeça, dorido. Melhorou imenso quando lhe disse que estávamos a voltar a Setúbal, e que já faltava pouco. Quando chegámos ao Clube Naval, a ânsia de se ver em terra era tanta que ainda a dois metros da escada lançou-se para a frente, em desespero. As mãos firmaram-se como tenazes sobre os varões da escada. Não caiu à água por milagre, já que os degraus de inox são lisos, e têm sempre alguns limos verdes. Subiu a escadas rapidamente e desapareceu a correr, sem mais uma palavra. 
Quando vínhamos a caminho de casa, perguntei ao Zé Garcia por que razão não tinha feito a manobra mais lenta, com mais cuidado. Respondeu-me: 
_ A ideia era despachar o serviço, o moço estava em pêlo, dentro de água fria, e por isso quanto mais depressa o sacasse dali melhor. 
_ Sim, mas podias ter acabado com o rapaz. Ele vai num estado que nem acredito que volte a entrar num barco mais vez nenhuma na vida….e já agora, porque é que ias sempre a olhar para trás?!
_ Vítor, tu sabes que a vida custa a todos e a mim ainda mais. Estavam a entrar vagas de água dentro do barco, e eu tenho sapatos com sola de cabedal. Tenho as meias pingando. Ora já se sabe que se estou com essa preocupação de não estragar o calçado, tenho lá tempo para ver o Paciência e o que se passa à frente do barco. Eu não me posso estar a meter em despesas e queira Deus não tenha de mandar pôr umas meias solas à conta disto….


Vítor Ganchinho




Comentários


  1. Bom dia,

    Muito bom... 😂
    Está narrativa foi responsável por muitas e boas gargalhadas da minha parte!
    O amigo José Paciência ficou benzido para a vida!!!

    Cpts,

    A. Duarte

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    Respostas
    1. Boa tarde António Duarte

      Cheguei agora do mar. O Clube Naval de Setúbal durante a semana abre às 8.00h, ....é inconcebível. O que dá é que ficam as pessoas todas à espera da hora da abertura, e isso acumula barcos e pessoas à porta do Clube. Se a ideia é separar as pessoas para as proteger de um eventual contágio, pois....aquilo que se consegue é exactamente o oposto!...
      Santa paciência.
      O mar estava impecável, calminho e limpo.

      Abraço!!

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    2. Boa tarde Vitor,

      Ora aí está um assunto inquietante e de difícil entendimento para o comum dos mortais!
      Não sei se alguém do clube Naval já se manifestou nas instâncias competentes, no sentido de tentar resolver o assunto.

      Cpts,

      A. duarte

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    3. António, ao que parece aquilo funciona de forma meio clandestina, ....da Direcção acho que apenas restam duas pessoas das 5 iniciais. Ou seja, nem têm quórum legal....

      E alguém toma medidas, ..porque sim. E como tudo aquilo que é feito "ao calhas", sem base estável de conhecimentos, sai mal.
      Vamos ver se vamos pescar no domingo, o tempo vai estar bom.
      Abraço
      Vítor

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    4. Bom dia Vitor,

      Do pouco que conheço e que tenho presenciado, o método de gestão adoptado pelo clube Naval não serve nem os seus "utentes", nem os funcionários que lá trabalham.

      Dá ideia de que reina o caos e é cada um por si!

      Quanto à pescaria no Domingo... vamos lá meter esses artificias em água salgada!

      Cpts,
      A. Duarte

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