TEXTOS DE PESCA - A resistência dos materiais


Por vezes sou abordado por pessoas que querem saber algo sobre as linhas e anzóis que utilizo. Procuram a fórmula mágica, a dos anzóis que espetam sempre, que mantêm o bico afiado dias e dias, as linhas que nunca partem. 
Isso não existe. O que podemos fazer é prever aquilo que vai acontecer, e actuar em função disso. Como em tantos outros campos, o bom senso e a lucidez devem imperar, nem muito ao mar nem muito à terra. 

Em rigor, devemos adaptar o nosso equipamento ao peixe que procuramos. 
Na minha modesta opinião, deixar uma margem para que o peixe tenha de facto alguma possibilidade, é de pescador. Se pescarmos com linhas “zero-grosso”, garantimos sempre que o nosso oponente nunca ganha, mas também retiramos algum suspense ao acto de pesca. Retiramos imprevisibilidade, e com isso, alguma da emoção que cada peixe capturado nos deve aportar. 
Porque, a não ser assim, não estamos a tratar de pesca lúdica, desportiva, estamos a tratar de pesca extractiva. E essa até podia ser profissional, e sai fora do âmbito daquilo a que chamamos pesca de lazer. 

Não me parece correcto pescar com linhas grossas, por exemplo de 130 libras, peixes que pouco mais têm de 2 ou 3 kgs. Mas também há que ter a noção de que uma linha demasiado fina será sempre um problema que as mãos do pescador, a sua técnica, pode não conseguir resolver. E se perdemos uma amostra, um anzol, isso significa que alguém ficou com ele, com todos os inconvenientes que isso traz ao peixe durante algum tempo. 
Um peixe com uma amostra ficará sempre diminuído por alguns dias. Sabemos que os anzóis não irão suportar a oxidação da água salgada por muito tempo, e gostamos de acreditar que será sempre um período passageiro e que se quer rápido. 
Mas a inconveniência está lá e seria evitada se tivéssemos sido mais criteriosos na escolha do nosso equipamento. 

A potência que os peixes desenvolvem dentro de água é a de seres que lutam pela sua vida, que estão adaptados a fazer deslocações rápidas quando assim tem de ser. E utilizam todo o seu peso sobre os nossos anzóis, sobre as nossas linhas. 

 Com peixes destes, um palometón de 20 kgs, qualquer ínfimo detalhe, pode ser a diferença entre o sim e o não….


Recordo-me de uma amostra da Savage, utilizada por um grande amigo meu, Raúl Gil, deu quem tanto vos tenho falado aqui no blog, que ele utilizou contra um dourado de cerca de 11 kgs. Teoricamente, estava tudo certo, a linha e o cabeçote de chumbo. 
Mas podia ter perdido o peixe no último suspiro. Quando conseguimos meter o dourado no barco, pareceu-nos incrível como não tinha escapado. O anzol estava literalmente revirado ao contrário!


Reparem como este anzol ficou, depois de uma luta de 15 minutos, com um dourado de 11 kgs.



Também as linhas trançadas têm uma grande tendência a romper, quando sujeitas a esforços de contacto com as pedras, ou com o barco. São imbatíveis quando solicitadas sobre o seu eixo, mesmo muito resistentes, mas quando roçam em algo, rompem muito mais facilmente que o nylon. Por isso devemos utilizar chicotes de nylon de forma a evitar roturas desnecessárias. Relativamente ao seu comprimento, ele depende sempre do tipo de peixe. Para um robalo, com 1,5 metros chega e sobra, mas com um mero, que pode roçar a linha nas pedras do fundo, é bom contar com um mínimo de uns 6 a 10 mts de linha grossa, no mínimo 1mm. E embraiagem fechada, bem apertada, a jogar no tudo ou nada, porque a situação é disso mesmo: ou o travamos antes de entrar no buraco, ou…adeus. 
O meu amigo Francisco Amante veio pescar comigo há dias. Trouxe a cana que tinha montada desde o ano anterior, e com a qual já tinha pescado no mar. O salitre fez das suas: quando cravou um lírio, ainda que de tamanho modesto, uma corridinha e linha rota. Lá se foi uma das minhas amostras de estimação!.... ele pede-me sempre amostras emprestadas. Eu “empresto-lhas”, mesmo sabendo que nunca mais as vejo. 
Substituir as linhas do chicote de nylon no fim de cada pescaria é obrigatório, quer pesquem muito peixe, quer não. Basta o facto de irem à água e isso já as enfraquece, torna-as quebradiças, mais rígidas. Uma linha que perde a sua elasticidade é uma linha que nos vai deixar agarrados na primeira oportunidade. 

Bacalhau pescado na Noruega pelo Raúl. Estes são bem menos combativos e por isso um pouco mais tolerantes a falhas. O bacalhau apenas cabeceia, não corre, e isso torna-o um oponente muito pouco desportivo, que pouco mais faz que peso.


Este gadídio de pouco mais serve que para comer. Como adversário de pesca, para fazer força, o bacalhau é uma nulidade…..


Assim sendo, a mensagem que fica é a seguinte: escolham as linhas em função daquilo que é o padrão de pesca que vão fazer. Não adianta estar preparado para um atum de 100 kgs, se é algo que pode aparecer a cada 20 anos, mais vale estar bem equipado para um robalo de 5 kgs que pode aparecer a cada semana. O equipamento é definido pelo peixe que pescamos com regularidade. O resto são excepções que não contam, porque saem do padrão.




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