Fui de timoneiro, de homem do leme, e fiquei bem arrependido!

Dado o nível físico e técnico que os campeonatos de caça submarina atingiram em Portugal, onde estamos perfeitamente dentro da elite da modalidade a nível europeu, um campeonato nacional nas nossas águas é hoje um autêntico campeonato da Europa, sem os outros europeus. Temos gente cá no país para poder competir de igual para igual com os italianos, os espanhóis, os franceses e os croatas, gente que desce muito bem, abaixo dos 50 metros de profundidade em apneia livre. 
No entanto, e tal como no hóquei em patins, acabam por ganhar sempre os mesmos, e a modalidade perde algum interesse. Bem mais interessante é ver como se desenrascam os menos bons, aqueles que perdem sempre, os que vão ao mar fazer uma caçada e oscilam entre o caçar um peixinho ou …morrer afogados. 

Já se sabe que de vez em quando um dos nossos amigos acaba por nos “cravar” para darmos um jeitinho com o barco, porque ficou desarmado com uma avaria de última hora, ou porque a pessoa que era para ir acabou por ter uma dor intestinal, enfim. Foi por uma qualquer razão destas que fui de barqueiro para dar apoio em competição ao meu amigo Alex. 
Como não podia deixar de ser, correu mal. 
Ele preparou metodicamente esta prova do Campeonato nacional de 2ª Categoria. Fez várias visitas ao local, marcou peixe que por lá andava, com tamanho a pontuar. No dia anterior ao grande momento, uma jornada dupla a decorrer em Peniche, a 9 e 10 de Junho, o Alex estava confiante. Foi confiança a mais e prematura, porque no primeiro dia de prova, a escassos minutos de começar, não tinha ninguém para lhe levar o barco, não sabia para onde ir, não sabia quais as zonas proibidas de caça, e não tinha qualquer estratégia montada. Por obséquio, alguém pediu ao pai, pessoa de 62 anos, para levar o barco e ir com ele. Pobre homem! Ao que consta, afogou as mágoas e desventuras em cerveja, enquanto houve, e esperou até poder lançar-se de salto a terra firme e desaparecer. Quando já ia lançado em corrida, o Alex perguntou-lhe como seria no dia seguinte, se podia voltar a ser barqueiro dele. Não respondeu. Consta que o senhor, a correr desenfreado e sem se deter, após rapida passagem por casa para levar algumas roupas, foi visto a comprar bilhete para a Colômbia. Tinha um sapato calçado e outro na mão, sendo que viajou com umas calças de riscas e casaco de quadrados, a assentar bem, pese embora o incómodo de o ter vestido com o cabide. O resultado do primeiro dia de caça foi de zero peixes à pesagem. Tudo para decidir, assim sendo, no segundo e último dia de campeonato. 
Esta é a minha deixa, é aqui que eu entro nesta história. O Alex ligou-me. Que tinha meditado sobre os erros cometidos, que estava com grande fé e convicção em que ainda iria ganhar, etc, etc. E que necessitava de um barqueiro bom, para lhe levar o barco. Vocês conhecem os filmes do Rambo, em que o pessoal do exército vem falar com ele, por ser a única pessoa que tem capacidade para desempenhar aquela missão. Não iria ser eu a desapontá-lo, e deixando para trás tudo o que tinha programado para esse dia, fui para Peniche. Dei-lhe todo o ânimo do mundo: 
_ Claro que ganhas! Basta ver a cara de todos os que ficaram à tua frente ontem, ou seja, todos os participantes, para ver que eles estão completamente borrados com medo!....
_ Achas que sim?...perguntava-me incrédulo. 
_ Claro que sim, repara, eles estão todos a tremer e não é de os fatos de neopreno serem finos, não é frio, …é medo puro, estão apavorados! Até te digo mais: as condições hoje, com mar bravo, estão mesmo de acordo com as tuas caracteristicas técnicas de caçador. 
Disse-lhe isto como um treinador que tenta motivar a sua equipa, nada convicto porque sei que o Alex é um cú de rolha, mergulha com água pela cintura, e não é grande coisa a mergulhar com mar bom, quanto mais com mar mau…
_ Vitor, não sei se acho a água muito limpa ou se está muito suja, o que achas?
Respondi-lhe: Acho que a água está limpa e capaz de engarrafar e beber. Isto pode até vender-se em supermercado, ninguém vai notar que esta autêntica água benta é salgada. Está tudo bem, e vamos lá mas é meter o barco dentro de água. 
Hoje vais fazer a maior recuperação de que há memória na história da caça submarina em Portugal!



Uma vaga larga, à boca de sino, vinda das Berlengas deixava antever dificuldades para caçar fundo. Com a experiência que tenho, e do que conheço dele, disse-lhe: _Olha , com esta vaga a sujar o fundo é natural que não consigas mergulhar a mais de 80 metros de fundo….
Ele, que nunca na vida tinha descido sequer a doze metros, olhou para mim com cara estranha, a pensar que por ter já o capuz do fato vestido não teria ouvido bem. De qualquer forma alterou a táctica, em vez de caçar fundo, passou a caçar até aos 3 metros. Há atletas que dão para os dois lados, ou seja, caçam fundo ou baixo, conforme calha. 
Assim que os homens da Federação deram o tiro da partida, ele empurrou bruscamente o manípulo do motor para a frente, decidido. Consegui agarrar-me ao varão de aço inox da consola com os dentes da frente. Num alvoroço que lhe desconhecia, resolveu ficar nervoso e gritar muito alto. Nunca entenderei a necessidade de o Alex ficar nervoso durante uma prova. Os dois cilindros do motor pulavam descontrolados, cada um para seu lado, sem entender a razão de tamanha pressa. Desde o último incêndio no Gerêz que não se via tanto fumo. Enquanto eu tentava escoar parte dos 26 litros de água que entraram para os meus ténis, ele procurava as barbatanas por debaixo de uma data de sacos de plástico, tubos, sacos para peixe e outras inutilidades. As armas tinham os fios enleados desde o dia anterior. Depois de chegar, perdeu vinte minutos a arrumar o barco e a preparar as coisas. Quando se jogou de cacholada para a água já três caçadores tinham passado pelo sítio onde ele queria ir em primeiro. Foi seguindo o trajecto dos outros, com resultado pouco menos que calvarioso, ou seja, nada. O pouco peixe que havia naquela zona, uma ou outra tainha, umas salemas borbulhosas, após tanto alvoreio, tinha-se mudado para a ponta de Sagres e Arrifana. Toda a sorte de porcarias que contam para as provas, bodiões, safios, etc, tudo tinha emigrado para longe. Logo por azar. Todo o trabalho de prospecção de seis semanas, centrado em valiosas tainhas do “gaisol”, tudo por água abaixo. Bem o tinha avisado, não há que contar com este tipo de tainha “emigratóris”, uma sub-espécie que não pára quieta nos pesqueiros. São tainhas que se diferenciam das outras todas por terem uma minúscula escama extra de 1 mm no pedunculo caudal, de cor amarelo claro. Detalhe esse que, sem apelo nem agravo, as torna invisíveis ao olho humano. 
Em contrapartida, devem marcar-se, e bem, zonas com meros, robalos, douradas, etc, que em minha casa pontuam muito bem, e que servem para grelhar. E também polvos, buzinas, santolas, etc, que não contam para os campeonatos dos outros, mas valem bem no meu campeonato de mariscos lá de casa. 
Não me deu ouvidos. Continuou a procurar peixes, que se tinham evaporado por completo. Ao fim de uma hora de prova, andava aquele penitente em ambiente húmido, a bater-se, a apertar com ele ao máximo na apneia, mas infelizmente sem obter qualquer resultado. E eu com uma fartura de ser barqueiro dele que já me dava aos peitos, e ele sem querer sair de dentro de água. 
Em Peniche, nesse dia, havia um festival de gastronomia. Mesmo com um pouco de azar, por exemplo não arranjando mesa ao fim de três horas, já tudo era bem melhor que estar ali no mar. Conheço em Peniche um restaurante bom, que invariavelmente fica sempre em último nos concursos de caldeiradas. Devia ter lugares vagos, porque está sempre vazio. Resolvi chamá-lo: _ Alex, estás aí penando, porque é que não desistes? Vamos mas é para terra, vamos almoçar, e depois se quiseres voltamos à prova…
Pareceu-lhe mal. Respondeu-me sem tirar o tubo da boca algo como : _ Nem penses! Isto está cheio de sargos, eu é que estou com azar, que não lhes acerto. 
_ Não viste pr`aí lagostas? Tanto que eu gosto de lagostas grelhadas…
_ Agora vou ali mais a terra, ver das salemas. 
E lá voltou àquele calvário, para mais uma resma de mergulhos sucessivos, com resultado de zero. O mar ia ficando cada vez pior. Passou por mim um outro barqueiro que estava em dificuldades, com más cores, a desfazer-se em caca, com uma pele de enjôo terrível. 

A zona tem sargos, mas é preciso ter peitos e saber caçar.


O Alex aproximou-se de terra na Papôa. Penso que deve ser assim que se chama aquele lugar e se não for passa a ser, porque gosto do nome. O Alex foi vivamente saudado por todos os pescadores de linha que estavam no local. Foi saudado com pedras, com paus e nomes que a sua mãe não gostaria de ouvir. Entretanto a vaga subia de altura diminuindo o meu já de si nulo interesse na prova. É horrível saber que estamos com o pior atleta da competição. Apareceu-me com qualquer coisa na ponta do arpão. Pensei ser um telemóvel, mas era grande demais para isso. E não tinha toques polifónicos. Deitei o bodiãozinho para o outro lado do barco, e disse-lhe: _Alex, não apanhes essas desgraças, isto tem tamanhos mínimos, este peixinho tem menos de metade. Não me faças fazer figuras à frente do resto da malta…olha, sobe, que eu levo-te a um sítio bom. Não me ouviu e arrancou outra vez direito à falésia. À chegada, uma saraivada de calhaus fez com que desse meia volta e voltasse para o barco. Em boa verdade, eu não conhecia aquilo, poucas vezes cacei ali, os meus lados eram mais para Sines. 

A maior parte do tempo levou-a a tentar sobreviver às vagas. E eu no barco à seca.


Encontrei uma zona que me pareceu boa, não havia lá ninguém, e a água não estava lá muito suja. _ Alex, este sitio é fixe para ti! A água está limpa, e pode ser que tenha aqui alguma coisa. Como tu só mergulhas a dois ou três metros, vais junto às pedras e pode ser que surpreendas algum peixe que esteja a mariscar e que possa estar "entretido"... 
Lá foi, desluzido, sem ter noção nenhuma do que estava fazendo. Eu deveria ter dito ”peixe distraído ou a dormir”, mas resolvi concentrar as minhas atenções no pessoal da pesca à linha que estava na falésia, por cima da zona da rebentação. Ofereciam-lhe de tudo, menos peixe. Ele eram jantes velhas de carro, eram pedras, eram paus, eram impropérios e nomes feios, era tudo o que tinham à mão. Mas o Alex começou a fazer umas quantas tainhas e salemas. Resolvi dar-lhe ânimo: 
_ Alex, os gajos da Federação estão a dizer que esta zona está fora de prova, que é proibido caçar aqui e que estás desclassificado. Mas já se sabe que isto são truques deles para não ganhares. Continua a dar-lhe com força! 
Para além de tudo, vinha de terra um cheirinho a bifanas de Vendas Novas que me pareceu bem. Mas tivemos que sair dali, embora contrariados e relutantes. A malta da Federação ameaçava que nos iriam rebocar o barco. Os ânimos estavam exaltados, com os pescadores de terra a chamarem-nos tudo. Eu já deitava o campeonato pelo alto da cabeça, ele ainda tinha fé no primeiro sítio onde tínhamos ido, que ficava a meia hora de caminho. Durante a deslocação tive oportunidade de lhe dizer que as coisas são como são, que por vezes os melhores não ganham, e pela parte dele, valia a pena começar já a preparar a próxima prova do Campeonato, em Lagos. 
_ E vais comigo lá a Lagos, é isso!?
_ Alex, eu sou teu amigo, mas repara, prometeste-me que eu iria conduzir um barco de luxo, com miudas ucranianas a bordo, em tronco nú, a servir taças de champagne e panadinhos. Andei a arranjar o cabelo, a passar a ferro as minhas melhores calças em terylene, bem vincadas, e quando chego, …aparece-me o Papa-Milhas, um barco pequeno e miserável, de péssima reputação navegadora, com a bomba de escoamento avariada. Está tudo entupido de água salgada. Obrigas-me a tirar água borda fora com um alguidar, para isto não ir ao fundo... que raio de barco é este?! 
Não me respondeu. Passou mais uma hora a fazer tentativas à volta de uma pedra ilhada, até que chegou uma traineira e lançou redes por cima dele e daquilo tudo. Saiu ileso, e veio ter comigo ao barco. _ Consegues ver onde andam os outros?
Eu ver …até via. Andavam barcos para os lados das Nazaré, uns a acompanhar os atletas, outros perdidos sem saber onde andavam os seus atletas. Alguns estavam mesmo a meter peixes na caixa de atletas que nem eram os deles. É o problema de não usarem dorsais com números nas costas. 
Podiam pôr uma bandeirola colorida na cabeça, com uma ventosa, …não sei, é preciso estudar melhor. Desalentado com tudo aquilo, e farto de andar ao rebolão no meio das ondas, resolvi pegar nele e lançá-lo para uma baía abrigada, que, não tendo pinta de ter um único peixe, estava pelo menos calminha, sem tanta ondulação. O barco da Federação passou por lá, não nos disse nada, é porque estávamos bem. Ao fim de uma hora e meia aparece-me com mais uma salema. O pobre peixe nem deve ter feito intenções de fugir, talvez nem acreditasse que pudesse ter interesse para alguém. As salemas são peixe muito pobre de tudo. Metemos o peixe dentro de água quente e quando levantamos pela cauda vem só a espinha. Não prestam para nada. Veio a ser o maior exemplar da caçada dele. 

Estão a ver eu a ir apresentar esta trampa aos directores de prova….mais valia ter levado um saco de lixo doméstico...


Quando chegámos à zona de concentração, onde toda a gente exibia grandes molhadas de robalos e douradas, eu estava cheio de vergonha de tirar os míseros cinco peixes que havia para levar à báscula. Disse-lhe: _“Alex, pode ser que eles não te consigam identificar como tendo tirado estes peixes na zona proibida. Deixa-me ser eu a tatar disto. 
Fui entregar os pobres dos peixes, e disse para os juízes: Para o atleta 31 é isto, mas queria acrescentar também uma data de sargos de 2 kgs, e uma corvina de 60 kgs, que ele viu aqui o ano passado. Fazem favor de contabilizar. Se não der para a vitória, possso ainda juntar mais alguns peixes que ele viu há uns meses….e além disso queria protestar por terem marcado a prova para dia 9 e 10, que são dias de azar ao signo, para o Alex. Espero que façam um atençãozinha à conta disso. O meu atleta não é de fazer batotas, não é pessoa para apresentar aqui à pesagem peixe em latas de conserva, etc, isto foi tudo pescado hoje, é tudo peixe fresco... vejam lá o que vão fazer. Contamos convosco e contamos com a vitória. 

Tinham-se inscrito 151 atletas à prova. Acabou por ficar em 149º lugar, ou seja em ante-penúltimo. Os outros dois atletas desistiram logo ao início por terem enjoado, mas mesmo assim trata-se de uma performance digna e prometedora. 
De volta ao carro, o Alex agradeceu-me do fundo do coração a ajuda, e inclusivé o facto de eu ter metido uma pedra grande pelas goelas adentro da tainha mais pequena, para pesar mais. Mesmo assim, não foi sufiente para lhe dar a vitória. 
Normalmente, o peixe capturado nas provas de caça submarina é oferecido a instituições de solidariedade social. Imagino a alegria, felicidade e excitação com que alguém recebeu as tainhas e salemas do Alex. Para uns meses, estão servidos de peixe. 
Tenho a dizer que foi uma experiência interessante. De resto o campeonato de Lagos, com os sobreviventes deste, promete ser renhido. Até porque o Alex vai dar tudo o que tem dentro dele para ganhar. 
Escrevo do átrio do Aeroporto Humberto Delgado, onde estou a aguardar embarque para a Indonésia…



Vítor Ganchinho



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