Pescar robalos na vertical é mais difícil que na horizontal?

Recebi um telefonema de uma pessoa que é um veterano da pesca em spinning, de costa. Estava desolado. 
Terá ido pescar pela primeira vez de barco e achou aquilo complicado demais. Desde logo porque não tinha os pés assentes na pedra, e porque a posição em que pescava era nova, tinha mudado radicalmente. 
Da horizontalidade dos seus lançamentos de terra para o largo, passou a uma pesca vertical, em que apenas tinha de deixar cair a amostra. Tudo falhou, a começar pelo equipamento, que não estava adaptado. 
Vamos procurar ajudar, colocando em análise os diversos dados a considerar nesta situação. 

O valenciano António Pradillo a pescar robalos comigo, de barco, no rio Sado.


O primeiro ponto é mesmo a presença dentro de um barco, que não é exactamente igual a pescar de costa. Mas posso assegurar que ao fim de umas quantas saídas, não faz diferença nenhuma. Os balanços da embarcação são “assimilados” pelo nosso corpo de tal forma que não damos por eles. É só uma questão de tempo. Mas já em relação a tudo o resto, sim, faz diferença…e vamos ver porquê. 

A cana que serve para pescar de costa com amostras, vulgo cana de spinning, é uma cana que tem um determinado comprimento, e que permite efectuar lançamentos longos. Invariavelmente, utiliza um carreto standard de tambor fixo, com linha macia, que faz pouco atrito nos passadores e no rebordo superior da bobine. Objectivo primordial: lançar longe! E porquê? Porque o pescador em terra tem uma capacidade de locomoção reduzida, (quantas vezes é obrigado a descer falésias para chegar a um determinado pesqueiro), e porque passar a outro ponto pode ser penoso, por vezes implica voltar atrás, subir tudo para voltar a descer apenas algumas dezenas de metros ao lado. Logo, vamos considerar que tem vantagens em conseguir lançar longe, e utilizar como ponto de partida para prospecção o local onde tem os pés fixos. Com isso, pode lançar em leque, cobrir mais água e aumentar as suas possibilidades de detectar e fazer interessar peixes. Aquilo que chamamos de “levantar o peixe” à sua amostra. Essa cana, tem todas as vantagens em ser uma cana “lançadora”, ou seja, de acção média, elástica, com capacidade de propulsão de amostras em várias gramagens, o mais longe possível. Pretende-se chegar a zonas menos exploradas, e para isso há que ceder um pouco no diâmetro da linha, a qual deve apenas ser qb, o suficiente para dar alguma segurança perante um exemplar mais robusto. Um trançado PE 1,5 a PE 2 já chega e sobra. Um PE 2 comum, tem uma resistência linear média de 18 kgs, é um disparate colocar linha acima. Não se espera pescar todos os dias um robalo como o que foi capturado em Peniche, à rede, com 13,470 kgs, uma fêmea. São peixes de excepção. Teremos de considerar que zonas como Aveiro, Figueira da Foz, que dão por vezes robalos acima de 9 kgs, não são representativas da realidade nacional. Esses peixes são algo de menos comum. É verdade que quase todos os robalos ficam abaixo dos 3 a 5 kgs, e há quem fique muito feliz por pescar um com 1,5 kg... logo, linha que permita lançar longe, e ponto final. 
Também as amostras são diferentes. O que é normal é que de terra se utilizem shads, minnows, stickbaits, mesmo poppers, em suma, amostras de plástico com palas e sem palas, que trabalham à superfície ou um pouco abaixo. Menos normal é que se utilizem jigs. O que é um erro porque se podem fazer de costa excelentes pescarias com jigs metálicos leves, que existem no mercado, e bons. Mas não corresponde ao padrão normal, os nossos pescadores gostam mesmo é de lançar amostras com palas. Um dia irão entender a vantagem da utilização das amostras sem pala e de dimensões reduzidas, em zonas sobre exploradas. Mas, e até porque a cana de spinning tem algumas limitações em termos de lançamento de pesos, fiquemo-nos pela ideia de que basicamente se lançam amostras convencionais, com canas convencionais, na casa dos 2,70 a 3 metros.
Não é de todo a cana para pescar de barco, onde se pretendem canas mais curtas, 1.85 mts a 2,10 mts, e que, por força da utilização de jigs, ou seja, amostras de chumbo com algum peso intrínseco à sua construção, pensadas para pescar na vertical, permitem pescar com a cana invertida, passadores para cima, para dar acesso ao carreto, também ele próprio para jigging, com bobine de tambor móvel. Não devemos ser fundamentalistas ao ponto de pensar que uma cana e carreto standard pesca mais ou pesca menos, nada disso. Em rigor não pesca menos. De resto, com um carreto que trabalhe na cana de forma invertida, ou seja, virado para cima, é esquecer a questão dos lançamentos. Por vezes, quando está muito vento, ou a corrente é muito forte, apenas conseguimos pescar na vertical procedendo a lançamentos de 20 / 30 metros. Se o barco se desloca muito rápido e não conseguimos reduzir a deslocação com o chamado pára-quedas, ou âncora de superfície, então é mesmo fundamental poder lançar para conseguir que o jig chegue ao fundo ao mesmo tempo em que o nosso barco está a passar sobre esse pesqueiro. Mas em termos de desempenho, de conforto, de comodidade, e se é para pescar na vertical, então que se pesque com equipamento especifico para essa pesca vertical. E isso é feito com canas com gatilho, e carretos que funcionam virados para nós, com embraiagem e patilha de libertação de fio bem acessíveis. Permite-nos desde logo ser mais rápidos a bloquear a linha e armar a cana, e quantas vezes isso conta. E já temos aqui uma diferença significativa para a pesca de costa. 



Mas as diferenças de equipamento, superáveis, não são no entanto tudo. Também o peixe reage de forma diferente quando pescamos de barco. Analisemos em detalhe e de uma forma muito fria: 

O jig que lançamos aos nossos peixes, percorre um trajecto vertical, entre a superfície e o fundo. Vai abaixo e volta acima. E os peixes, se tiverem um mínimo de visibilidade, vêem isso mesmo, algo que desce e que a seguir sobe. Considerando que a visão dos peixes está estruturada na sua cabeça para ver algo para a frente, muito bem para os lados, bem para cima, e nada para baixo, temos que os ataques que os nossos queridos peixes podem fazer, são na descida, quando o jig baixa, ou na subida, quando o jig passa por eles, ou já está numa posição mais elevada. Quando está a um nível inferior, pura e simplesmente não é visto, logo não é atacado. Todos sabemos, ou conseguimos imaginar, que as mordidas que sofremos quando levantamos o jig, são bem mais fáceis de detectar, porque a nossa linha está em tracção, esticada, e a enrolar na nossa bobine, do que as picadas que os peixes nos dão quando a amostra vai no sentido descendente, em que temos a bobine aberta, sem controlo, em movimento de saída de linha, e que por grande azar nosso, correspondem a um momento do lance em que os peixes conseguem ver perfeitamente o objecto que lhes lançamos. Grande parte das pessoas não consegue detectar as picadas na descida! Apenas sentem que a linha não está a descer com a velocidade habitual, ou que pura e simplesmente parou...mas daí até saberem que têm de ferrar,...vai um horror de distância. 
A grande questão é conseguir estabelecer um compromisso entre o deixar cair a amostra/jig para o fundo sem atrito, (para que chegue o mais rápido possível), que nos permita pescar na vertical antes de o barco ser empurrado da zona e termos de pescar com a linha debaixo do barco, e sermos capazes de travar ligeiramente, de colocar um dedo sobre a linha para sentir se há alguma mudança de ritmo na sua saída, algo que nos indique que há peixe em baixo a interceptar e impedir a sua descida. Quando colocamos o dedo na linha, o jig desce mais rápido, porque cai na vertical, sem trabalhar, ou seja, sem produzir as vibrações para as quais foi concebido. Apenas desce, o que pode ser muito positivo, em certos casos. Deixem-me dizer-lhes que na minha óptica, não há nada mais sensível que o nosso dedo, a pressionar a bobine o mínimo possível, a sentir as espiras de linha a desenrolar. Os bons carretos de jigging têm um regulador de atrito, que liberta mais ou menos depressa o fio. E também as linhas têm cores diferentes a cada 10 metros e isso permite-nos seguir com os olhos o seu desenrolar, etc, mas nada se compara à sensibilidade da nossa pele, e aos sensores que temos nas mãos, para saber se há ou não há “mouros na costa”, que é como que diz, peixe a morder a nossa chapa. 

Um pequeno jig de 7 gramas, da Savage, com que enganei este robalote. Foi devolvido á água.


Conseguir ter a percepção dos toques é algo de primordial. Quando subimos é fácil, levamos uma pancada e somos até capazes de entender de imediato se é o tal peixe, ou se é apenas mais um carapau ou cavala impertinente que resolveu morder. Mas quando a pesca desce, já não é para todos, há quem consiga e quem pura e simplesmente não consiga sentir nada. E porque não sentir os toques é a negação de tudo o que estamos ali a fazer, vejamos como fazer para melhorar este aspecto. Vou tentar ajudar. 
Temos uma parede de água entre o nosso barco e o fundo. E logo por azar, temos factores que nos prejudicam a detecção dos toques, tais como a corrente, o vento, a ondulação, essa malvada que faz subir e baixar o barco. Ou seja, temos condicionantes que nos impedem de atingir um ponto máximo de concentração na saída de linha. Seria bom termos sempre o mar parado, …ajudava muito, mas nunca esqueçam que mar parado significa pouca actividade de alimentação. O peixe come quando o mar está agitado, ou com corrente, logo, esqueçam as facilidades. Por azar nosso, a linha que temos esticada até ao jig, é sujeita a pressões de vária ordem, desde a deslocação do barco à superfície, (que a estica quer na vertical quando sobe com a vaga, quer na horizontal, quando se afasta do ponto inicial por acção das forças de mar), à corrente que a balança lateralmente, e ao peso do jig, o qual, pelo peso que tem e por ser um ponto de apoio, obriga essa linha a fazer uma barriga, uma curvatura. Se quisermos complicar, podemos ter uma corrente à superfície num sentido e outra em baixo noutro sentido. Podemos ter o barco a ser empurrado pelo vento numa direcção, e ter a corrente superficial a empurrar noutra. Podemos ter o vento com uma velocidade superior ou inferior à da corrente, enfim, uma data de condicionalismos que fazem com que o simples facto de sentirmos um toque seja já de si uma aventura.
Porque não estou aqui para ser meigo convosco, ainda vos vou complicar mais as coisas. E se o pesqueiro onde estivermos, for fundo?! Então aí, temos que o toque do peixe, que dura uma fracção de segundos, (o peixe detecta o engano e cospe, rejeita, porque falamos de ter um bocado de metal com 40, 60 ou 100 gramas dentro da boca!!) tem de ser sentido por nós, em tempo útil. O peixe sente que errou e não perde tempo a reagir, a deitar fora. E normalmente aquilo que sentimos é em diferido, ou seja, instantes depois de já ter acontecido em baixo, porque os nossos reflexos não são instantâneos. Pode acontecer que o peixe, quando reagimos, já lá não esteja. E porque não estou para maré de facilidades, ainda vos vou complicar mais a vida: Sabendo que a nossa amostra é rígida, e tem uma fateixa ou um anzol simples acoplado, ainda podia acontecer que o peixe, no seu ataque violento contra a amostra pudesse ficar cravado por si, e com isso haver grandes possibilidades de ser nosso. Mas como não sou tão boa pessoa como isso, vou dizer-vos que não, que infelizmente o anzol apenas bateu numa zona de pele fina e osso, não apanhou carne consistente, por exemplo a goela do peixe, e por isso não tivemos a sorte de o nosso peixe se ferrar sozinho. Logo por azar não aconteceu!... 
Ou seja, deveríamos ter tido a sorte de o peixe ter batido na amostra e ficado cravado por si, mas infelizmente as maxilas do peixinho apenas bateram no metal, e não cravou. Em vez de sentirmos o peso e arranque do peixe para o fundo, sentimos apenas uma ligeira pancada, e mais nada. Porque resolvemos gastar o dinheiro do subsídio de Natal numa bicicleta nova, acabámos por comprar uma cana barata que não transmite informação, uma cana dura, plástica, sem outra qualidade que não o preço baixo. Sabemos que a informação tem de percorrer um longo trajecto, entre o anzol da amostra, a linha, a cana e a nossa mão. E por isso, quando fomos reagir, já foi tarde, e perdemos o nosso robalo grande. Ora que pena!....
Já aqui vos falei das canas com que pesco, as canas Daiwa SMTT, Super Metal Top, com ponteiras em carbono maciço com filamentos de titânio incorporados. Na verdade, são canas que falam. Dizem-me tudo o que está do outro lado da linha, em tempo útil. São caras, mas na minha opinião, caro é aquilo por que pagamos pouco e nos faz perder robalos consecutivamente. Isso é caro. Eu com as canas da gama SMTT consigo fazer quase tudo: 

CANA DAIWA P/ TENYA KOHGA AIR C611 MS-METAL AP ….. 408,50 €(preço de venda) 
CANA DAIWA SPINNING AIR C75 MHS-METAL AP 20-65……..418,00 € (preço de venda) 

CANA DAIWA P/ TENYA MX AJING BOAT 65 MHB-S-K …….294,60 € (preço de venda )
CANA DAIWA MX AIR PORTABLE N70XXHB METALAP 80-200g ….312,00 € (preço de venda)

Estas canas têm aquilo que espanta os meus amigos que com elas pescam: têm ressonância! São canas que, para além do efeito visual da ponteira macia que verga, sem dar ao peixe a informação de que está a abocar algo que está ligado a mais qualquer coisa, mas que conseguimos ver, ainda têm uma outra possibilidade: ESTIMULAM O NOSSO SISTEMA SENSORIAL, vibrando na nossa mão, fazendo passar a informação ao nosso antebraço, em suma, avisando-nos a tempo de que algo está a quebrar o zero/nada que é a ausência de picadas. Com estas canas, sabemos que algo se passa…e temos tempo de reagir. Nos nossos cursos de Light Rock Fishing, a presença de canas deste tipo é uma constante, levo sempre, para poder mostrar a quem nunca experimentou, uma outra dimensão de equipamento. A Daiwa trabalhou muito e bem neste aspecto, dotando-nos de material que nos permite chegar ao fim do dia com mais peixes do que conseguiríamos se estivéssemos a pescar com material corrente. 

Com a mesma cana podemos cobrir uma variedade de técnicas, desde o Madai, ao Inchiku, à Tenya, com camarão, à pesca com artificiais. Há modelos para amostras, outros para pesca com isca orgânica, e comprimentos e acções para todos os gostos. 
A sensibilidade destas pontas é tal que a menor deslocação de isca ou amostra, a mais ligeira pressão, são suficientes para nos dar a conhecer um toque e a reagir aquela fracção e segundos antes e conseguir cravar o peixe. Não são rígidas demais, porque dariam informação ao peixe de que algo está mal e há que largar de imediato a isca, nem são macias demais, retirando-nos a possibilidade de reagir a tempo. As canas demasiado macias absorvem os toques, não os mostram. Para além disso, se a cana for demasiado macia pode ainda acontecer que não se consiga diferenciar a diferença da pressão da corrente, da pressão da picada do peixe, em caso de toques mais subtis. Nem muito ao mar nem muito à terra, e a Daiwa fez isso como ninguém, fabricando o termo de rigidez e elasticidade certo. E têm ainda uma outra vantagem: permitem a pesca com vinis, a isca por excelência quando queremos que o robalo mantenha na sua boca os nossos anzóis mais tempo, o suficiente para sermos capazes de dar um esticão e cravar o anzol. Infelizmente, no nosso país apenas um leque restrito de pessoas entende as vantagens de pescar com iscas macias. Os vinis, que existem em tamanhos pequenos, médios e grandes, permitem cobrir o leque de predadores que temos, das minúsculas garoupinhas às corvinas de grande tamanho. Acoplar um vinil a um cabeçote de chumbo que já traz anzol é algo que se faz em segundos e está pronto a pescar. Será a próxima geração a entender as suas vantagens….



Voltando à questão da detecção de toques na descida, queria ainda referir-vos o seguinte: as nossas linhas trançadas têm cores a cada 10 metros. Se estamos a pescar num fundo de 50 metros, devemos conseguir ver desenrolar cinco cores diferentes. É lógico que se a linha pára a meio, ou seja, se apenas desenrolaram três ou quatro cores, se não parou na cor que tivemos o cuidado de marcar na nossa cabeça logo no primeiro lançamento como sendo a cor relativa à chegada do jig ao fundo, então há algo que a interceptou antes. E esse algo, em princípio será um peixe, a não ser que se acredite que pode ser um anjo….ou o submarino Tridente da Marinha Portuguesa. Logo, temos uma fracção de segundo para reagir e ferrar. 
Tenho alunos dos meus cursos de LRF, e mesmo amigos já com experiência nestas lides que deixam a linha cair mantendo a cana numa posição oblíqua, a 45º. Nunca me cansarei de lhes chamar a atenção para o facto de ser IMPERATIVO que a cana fique sempre apontada para baixo! Digamos que há boas razões para isso. Se o peixe morde o jig e fica quieto, o que quase nunca acontece a não ser em peixes muito grandes, apenas temos de detectar que a linha parou, ferrar o pick-up e ferrar. Mas se o peixe veio de baixo (já vimos que vêem perfeitamente de baixo para cima, que os seus olhos estão preparados para isso), abriu a boca e engoliu o jig, então vai subir mais alguns metros com ele na boca e iniciar o movimento horizontal, para o lado. Acontece que já não nos basta fechar o pick-up, e ferrar. Teremos ainda de recolher linha o suficiente para não ferrarmos “no ar”, em seco. Se tivermos a cana na mão a 45º, levantada, iremos perder o tempo de a baixar, de recolher linha o suficiente para termos tensão, e a seguir ainda temos de a levantar com força, de esticão, com grande amplitude, para cobrirmos uma distância grande porque não sabemos onde o peixe está, em que nível de água. Só chegamos lá acima se tivermos uns sapatos de salto alto calçados, sapatos de miúdas novas, de 15cm de altura. Demasiado tempo para o nosso atleta peixe, que já deu pelo engano e já rejeitou a amostra. Quando vamos para ferrar ele já lá não está há uma eternidade. Logo, a ponteira baixa, sempre. 

E a linha é um elemento fundamental! Certamente muito mais importante que a qualidade do carreto em si. Acreditar que o jig se move à mesma velocidade do barco, é acreditar nos três pastorinhos. Dificilmente a velocidade será nalgum instante a mesma. Por isso, e caso o barco se desloque mais rapidamente, acontece que a dada altura estamos a rebocar o nosso jig! E se a nossa amostra vem rebocada pelo barco, imaginem a naturalidade dessa apresentação de jig ao peixe que está no fundo…..uma lástima. Para conseguirmos animar o jig, temos de conseguir manter a verticalidade. Ponto! Para isso, temos de conseguir fazer com que o nosso jig toque no fundo, que seja visto naquela zona, sob pena de estarmos a pescar com um jig que tem o comprimento da peça metálica em si, mais o comprimento da linha, que podem ser 80 ou 100 metros, mais o comprimento da nossa cana. É tudo jig!! É um conjunto “inteiriço” que de comportamento natural tem zero. E o peixe agradece, vira as costas e vai embora. O movimento que lhe interessa é o de uma presa que se debate, que tem arranques e paragens, que tenta sair dali mas não é capaz. Aquilo que tentamos imitar é uma presa ferida, diminuída, que quer fugir mas não consegue. É isso que irá despoletar o ataque! Por isso é tão importante fazer pausas, subir mas deixar cair a peça metálica e voltar a recuperar o movimento, e voltar a deixar cair. Tenho amigos que imprimem uma violência tal aos jigs, que nenhum peixe os conseguiria capturar, nem de mota. O sinal que damos a esse predador, é exactamente o contrário, é algo como: “ nem vale a pena gastares energia para me morder, porque eu sou mais rápido que tu, de longe”….
E a natureza não faz corridas, não se “pica” com corridinhas para ver quem captura quem…a energia captada dessa presa tem de ser superior à energia consumida por essa tentativa de captura. Ou seja, é o próprio pescador que, ao dar o sinal errado ao peixe, limita a quantidade de picadas que vai ter nesse dia. 



Há linhas trançadas próprias para jigging, e linhas para spinning. Já aqui falamos no blog sobre isso, vejam artigos anteriores. A linha de jigging não é macia, nem pode ser. Tem uma camada de cobertura, de chamemos-lhe “encerado”, que é colocado para que não se propiciem enleios. E quando se produzem, por inépcia nossa, que seja possível resolver. No mar, com ondulação, tentar desenlear um molho de nós num trançado, é um flagelo. Podemos conseguir, com grande dose de paciência, mas o mais certo é não conseguirmos mais que olhar para a faca e para os nossos pulsos. Caso essa cabeleira ocorra com o jig em baixo, e caso não tenhamos linha de reserva para substituição, (deixa-me rir...), então pode acontecer que fiquemos sem linha suficiente para chegar com o jig ao fundo. E acabou a pesca. Logo, fixar que o jigging se faz com linhas de jigging, e não de spinning, onde se pretende uma linha macia que faça pouco atrito e permita lançar longe. No jigging não se lança, nem perto nem longe, deixa-se cair na vertical. Se o meu querido leitor é pessoa para fazer jigging com linhas de nylon, termine a leitura aqui, vá ao frigorífico, abra uma lata de cerveja e esqueça a pesca. O nylon é para fazer baixadas, terminais, é elástico, não é para fazer pesca onde a rigidez do sistema é determinante. Utilizamos trançado sempre e de diâmetro o mais fino que nos for possível. Ponto final. Não tentem pescar com jigs ligeiros e fios grossos, é ridículo. O “coeficiente de cagaço” de levar linhas fortes para não perder peixes grandes é aquilo que nos impede de ter picadas de peixes grandes. Temos mãos exactamente para isso, para trabalhar o peixe. Não me canso de dizer aos meus alunos: aquilo não é para ver quem tem mais força. O peixe quer ir embora, deixamos ir. A seguir, …volta. 
É uma necessidade absoluta pescar tão fino quanto possível. A corrente leva-nos os jigs para longe, se pega na linha. Quanto mais fina menos sensível à pressão da corrente, logo, mais pescamos na vertical, logo melhor animação damos ao jig, logo mais peixe ferramos. Uma corda grossa não nos transmite informação de toques subtis. Existem trançados de gama alta, mais caros sim, mas mais capazes de nos transmitir linha acima as ondas de choque da picada de um peixe. Se fizermos contas, ganhamos em comprar uma linha de 30 euros, em detrimento de uma de 9 euros. Porque o primeiro robalo grande que sentirmos ou não sentirmos, já pagou a mais cara. E vamos à pesca para pescar, não para “não pescar”. Uma linha fina boa tem o mesmo nível de resistência à rotura de uma linha ruim, mais grossa. Vejam as tabelas. Fabricam-se linhas trançadas de 4 fios, 8 fios, 12 fios. Há medida que vamos subindo na qualidade, vamos subindo no preço. No fim de tudo, as linhas de diâmetros mais finos conseguem fazer igual ao que as outras só conseguem adicionando grossura. 

Voltando ao tema central, e em resposta a essa pessoa que fazia spinning e passou a fazer jigging vertical, a resposta é esta: é natural que se tenha sentido incomodado por não ser capaz de reproduzir dentro do barco do seu amigo a mesma capacidade e segurança que sente quando pesca de terra. Na verdade, são técnicas diferentes, exigem equipamentos diferentes, e técnicas de pesca diferentes. Todavia, para pescar o mesmo peixe...


Vítor Ganchinho



Comentários

  1. Respostas
    1. Boa tarde Francisco


      Fico satisfeito que tenha conseguido retirar daqui algum conteúdo útil.
      A ideia é passar informação, ajudar, e tentar que cada um de nós seja cada vez melhor pescador.
      Estou deste lado, e se eu puder ser útil, pode contar comigo.

      Abraço!

      Vitor

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  2. Parabéns pela descrição
    Ainda, felizmente, há Pescadores, que ensinam, outros, com menos valências e querem aprender.
    Pela minha parte, o meu obrigado

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  3. Boa tarde.
    Li apenas excertos desta publicação que me deu motivos para ler o artigo na integra mais logo!
    São alguns pormenores que fazem a diferença entre o sucesso e o insucesso.
    A experiência conta mais que a atenção para alguns pormenores como o de deixar a cana para baixo.
    Pois é, o peixe quando se sente enganado rejeita o isco e são milésimas de segundo que fazem a diferença.
    Obrigado pela partilha.

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    Respostas
    1. Bom dia Paulo Fernandes


      Vou agora iniciar mais um bloco de artigos, para que possam ser publicados de forma regular, diariamente, e ajuda saber que há quem leia e se dê ao trabalho de comentar. Nada desanima mais que ter mais de 25.000 pessoas a ler e receber apenas um ou dois comentários. Nem que fosse para dizerem mal, que eu tenho as costas largas e aguento pancada a valer. Ou eu não soubesse que fazer algo em Portugal é sempre motivo de desagrado e crítica severa. O ideal por cá seria que ninguém fizesse nada...
      Achei uma lastima que a única revista de pesca que existia no país, o Mundo da Pesca, para onde eu escrevia, tenha ido à falência. Espero que não tenha sido eu o causador. Uma revista mensal com um preço de 3,5 euros não devia ter falecido, num país que tem mais de 200 mil pescadores.
      Daqui a uns 15 dias já terei muito mais coisas para publicar. Tenho andado em cima dos pargos capatões, e acho que vão ficar surpreendidos com as imagens de capturas que tenho para vos mostrar. Mas o momento para mim é difícil, porque é quase impossível conseguir conciliar as saídas de pesca, com a escrita, e com o resto de tarefas que tenho de desempenhar. Mas prometo coisas boas, lá para o final deste mês, inicio de Outubro.

      Vitor

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    2. Bom dia Vitor

      Perante a falha na participação reconheço mea culpa. Inscrevi-me no blog mas não tinha ainda lido um artigo com olhos de ver. (posso ter-me assustado com a mancha muito densa?)
      Agora que "o Mundo da Pesca" não existe, arrependo-me de não a ter assinado. Comprei muitos números nas bancas, mas não contribui com o reconhecimento que era devido. Lição aprendida.

      Registo um incremento consistente de falsos moralistas que inquinam tudo.
      Somos conhecidos historicamente por criar entropia e complicar muito as coisas simples (e agradáveis). Na minha opinião, debater o assunto é alimentar a besta :)

      Para melhor enquadramento, sou apaixonado pela pesca no mar em kayak.
      Sou apologista do "tradicional" e se não fossem as artroses nos ombros, ainda usava o meu ocean trident com pagaia. Agora uso um a pedais (recuso o motor, mas não tenho nada contra quem o usa). Moro em Coimbra e recorro à Figueira da Foz, onde não encontro condições para a prática do jigging (tive sucesso uma vez numa nuvem de isco).

      Bem haja pela sua tenacidade, sem ela não teríamos estes registos!

      Paulo

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    3. Boa tarde Paulo


      Este ano está a ser completamente atípico. Normalmente eu durante este período tenho saídas de pesca três a quatro dias da semana, com estrangeiros. Definitivamente, o pessoal de fora é muito menos complicado. Quando levo pessoas de cá, portugueses, o mínimo que me pode acontecer é que tirem fotos da costa, que registem coordenadas de GPS das pedras onde os levo....e pode acontecer que tentem vender esses pontos, por valores altos a outros barcos. Já me aconteceu diversas vezes....
      Com americanos ou ingleses, nunca acontece, e eu divirto-me mais, porque estou ali para ajudar a pescar, e não tenho mais nenhuma preocupação que não seja garantir um dia bem passado. E felizmente há peixe para isso.
      Este ano está estranho....vou sair este fim de semana com americanos, mas são uma raridade. Tem aparecido gente do Luxemburgo, França, Espanha, ....
      O Paulo tem aí bem perto uma zona incrivelmente boa, a Figueira da Foz, Peniche, e sobretudo a Nazaré, que tem robalos valentes! São sítios longe, não dá para kayak. Mas são muito bons....há zonas onde abre a caixa e o peixe salta lá para dentro, ..lol....

      Boas pescas!!
      Vitor

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    4. Boa tarde Vitor.
      Na Figueira da Foz já fui muito feliz, especialmente à volta do cabo mondego.
      Até 2019 foi raro o dia em que não apanhava 4 robalos (de bom tamanho, os outros devolvo) mesmo junto à rebentação. Desde janeiro de 2019 tem sido muito fraco para mim e para muitos, a julgar pelas lamurias que ouço. Agora safar a grade é uma sorte e os dias bons são muito poucos e com muito esforço, normalmente a fazer o trolling (o spinning para as ondas deixou de dar e não sei porquê).
      Em Peniche, sei de alguns locais bons, na Nazaré não explorei ainda.
      Considero que a "malta dos kayaks" é muito saudável. A ambição comum é passarmos todos um bom bocado.

      Boas marés!!
      Paulo

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