A importância da luz do sol na visualização das cores do mar

Para um peixe predador, poucas armas são mais eficazes que uma boa camuflagem. Ser invisível e ter bons dentes, é meio caminho para o sucesso de uma espécie.

A evolução de cada ser é feita no sentido de maximizar as suas possibilidades de sobrevivência. Como em tudo na vida, os mais aptos são melhor sucedidos e os que reproduzem.
As leis da natureza são cruéis e diríamos desumanas, se vistas e analisadas pelo nosso prisma, mas são o que são e não chegaram a isso por acaso.

Sabemos que as cores no elemento líquido são absorvidas à medida que mergulhamos nas profundezas. O vermelho a primeira a desaparecer, o azul a última do espectro de cores a deixar de ser vista. Sendo então o vermelho e suas cambiantes a cor mais discreta, não espanta que seja a cor adoptada e preferida por muitos daqueles que fazem da sua invisibilidade uma arma de combate. O que vamos hoje fazer é andar à volta deste tema. Pode ser interessante.


Este pargo capatão é um autêntico fantasma na água. Com bons dentes e sendo discreto, aquilo que fica a faltar é apenas velocidade. E eles têm-na.


Os primeiros pargos verdadeiramente grandes que vi, há algumas dezenas de anos, foram numa saída de caça submarina na Ilha Terceira, num fundo ao lado da antiga Base das Lajes.
Estive lá uma semana a convite do comandante da Base, e recordo-me de ter visto peixes de bom tamanho, pargos acima dos 15 kgs, a exigir esperas muito longas, quase sempre demasiado longas, de minutos e minutos que me pareciam intermináveis para a minha apneia.
Os pargos entram e saem da nossa vista, uma e outra vez, aproximam-se e afastam-se, nunca chegando verdadeiramente a dar uma distância de tiro razoável.
Verdadeiramente só se percebem quando já estão muito perto, e falamos de peixes de 10/ 12 kgs.
O mais estranho nos pargos é que a primeira percepção que temos deles são as pontas brancas da sua cauda. Tudo o resto, é uma cor cinza esbatida, clara, que passa quase invisível por não fazer contraste com a água.




Ora aqui está um campeão da invisibilidade! O rascasso deve o seu sucesso à sua capacidade de manter a imobilidade, e é uma alga no meio das algas.
Em baixo é castanho, de cor muito discreta, parda, e à superfície é de um vermelho muito vivo, conforme podem confirmar na foto acima e abaixo.


Esta é a cor do rascasso, quando está no fundo. Nada tem a ver com o vermelho vivo com que chega à superfície, depois de exposto aos raios solares.


Quando arpoamos um peixe a 20 metros, a côr do seu sangue é castanha. Um pouco mais abaixo, a tonalidade parece-nos verde. Isso tem a ver com a profundidade, com a distância que os raios solares têm de penetrar no meio líquido.
A coluna de água funciona aqui como um filtro que vai retendo as cores, à medida que descemos. A primeira a desaparecer é o vermelho, e as últimas o verde e o azul. Daqui podemos tirar algumas ilações:
Se estamos a pescar com uma chumbada colorida, sabemos que a sua invisibilidade será maior caso tenha cor vermelha. Mas se estivermos a utilizar um jig, que queremos que seja visto, então cores metalizadas, azuis, ou mesmo verdes, terão mais chances de ser efectivas, porque são vistas. Os peixes distinguem as cores de uma forma diferente da nossa, têm escalas de cores que diferem das do olho humano, mas são sensíveis a elas.
Somos forçados a jogar com inúmeros factores, e daí a necessidade de termos uma caixa de amostras, e não apenas uma. Podemos enumerar algumas razões para isso:

1- A visibilidade das águas não é todos os dias a mesma, uns dias mais limpa de sedimentos, outros menos. Se a água está tapada, eventualmente com águas do rio, ou lama das chuvadas, o sol não consegue penetrar tão abaixo.

2- Em dias nublados, muito cinzentos, a intensidade do sol é menor, há menos luz. Logo, o alcance desta será inferior, e teremos a zona escura mais próxima da superfície. Mesmo que as águas tenham poucas partículas em suspensão.

3- Se temos um dia sem nuvens, e o sol na vertical, com águas muito transparentes, então as condições de visibilidade serão máximas no fundo. A zona de penumbra situa-se muito mais abaixo na coluna de água.

4- Em função das condições de luminosidade, assim teremos de escolher a nossa amostra, o nosso jig. O critério mais elementar é o de pescarmos com jigs coloridos em águas tapadas, e jigs neutros a imitar os peixes forragem, em dias de águas limpas, ou com muita visibilidade.




Mesmo com alguns sedimentos na água, a baixas profundidades, a luz do sol pode penetrar facilmente. E por isso as cores que conseguimos ver com os nossos olhos são muito próximas das cores que veríamos neste local, em seco, sem a quantidade de água em cima que separa este fundo da luz solar.

E o que é isso de luz, e de intensidade de luz?

A cor que observamos num objecto, eventualmente um jig, depende não só da quantidade de luz que o ilumina, mas também da qualidade da luz. Sabemos que a luz do sol é composta por sete padrões diferentes de cor, de resto é isso que podemos ver no arco-íris. A sua mistura dá uma tonalidade branca, a nossa luz do dia. Se olharmos para um jig na cor laranja, isso quer dizer que ele absorveu todas as outras cores excepto o laranja. Essa é a cor que chega aos nossos olhos. Não queria complicar mas posso dizer-vos que as pessoas não têm todas a mesma percepção de cor. Pode haver duas pessoas a entender o mesmo objecto com cores ligeiramente diferentes, e até pode haver quem não as entenda como nós, por completo: os daltónicos!

Quando estamos no nosso barco e olhamos a água, queremos entender em que condições iremos lançar o nosso jig. Conforme vimos acima, em águas limpas e claras, a melhor opção, aquela que melhores resultados dá a uma maior quantidade de pessoas, é o jig na cor neutra, os cinzas, os verdes, os azuis, que mais não é do que as cores naturais dos nossos peixes isca, as cavalas, os carapaus, as sardinhas, etc. Mas as cores com que vemos a água dependem também da quantidade de metros que o sol tem de atravessar até chegar ao fundo em que queremos pescar. Se olharmos para a água da praia, parece-nos muito clara, transparente, porque a distância que o sol atravessa é pouca, eventualmente apenas dois ou três metros. Mas à medida que afunda, a água começa a parecer-nos mais escura, o azul, ou verde, já é outro. Isso acontece e temos essa percepção porque a maiores profundidades, a luz do sol tem de percorrer uma distância maior, ultrapassar uma maior barreira de filtros. Estamos quase a chegar ao ponto crítico desta explicação! Assim, se é verdade que a luz do sol nos chega sob a forma de diversos comprimentos de onda, concretamente sete cores diferentes, com sete diferentes níveis de energia, diferentes partículas energéticas de nome fotons. Estes irão ser absorvidos pelas moléculas da água do mar, de diferentes formas, em diferentes escalões. Já vimos que o vermelho será o primeiro a desaparecer. A seguir o amarelo também desaparece. Isto quer dizer que deixa de ser visível. Acima, disse-vos que quando mergulho a 20 metros e caço um peixe, o seu sangue aparece-me na cor castanha. Eu sei que é vermelho vivo, mas não é isso que vejo àquela profundidade. Só consigo entender a cor vermelha quase já à superfície.

Penso que já começamos a conseguir definir algumas razões para podermos escolher esta ou aquela cor de amostras, ou jigs. Sabemos que mesmo muito fundo, a cor azul é a que tem fotons menos absorvidos pelas moléculas de água. E isso quer dizer que, se queremos ser vistos, se queremos pescar peixes com uma amostra, um jig, que vale pela sua vibração e pela sua cor, (não esqueçam que não tem cheiro e a sua forma apenas vagamente imita um peixe real!), então devemos considerar que o nosso jig azul, em condições de águas limpas e claras, será o mais visível, o que vai reflectir cor a uma maior distância da superfície.




Quando lanço os meus jigs para o fundo, procuro entender qual a, ou as funções que estou a tentar estimular aos peixes que pretendo pescar.
Tenho águas limpas? A profundidade não é excessiva? Então sem dúvida um jig numa cor neutra dará melhores resultados. Ver abaixo.


Estes jigs de 30 gramas são absolutamente mortais. Para um peixe de tamanho médio, digamos 2 a 4 kgs, a uma profundidade de 40 a 50 metros, isto é comida da boa. Neste tamanho!


O entorno circundante também tem alguma influência na quantidade de luz que chega ao fundo. Alguns elementos absorvem mais luz que outros. Em nossas casas, para um mesmo ponto de luz, uma lâmpada, podemos ter mais ou menos luz disponível consoante as paredes da sala tenham uma cor branca, reflectora, ou essas mesmas paredes estejam revestidas a uma substância escura, absorvente, por exemplo cortiça na cor castanho-escura, ou preta. Também no mar as rochas podem ser mais escuras, ou as areias mais brancas, ou a rocha estar coberta de algas, e, a baixas profundidades, isso tem influência. Um dos factores que mais limita a pesca spinning com amostras, assumindo-a como uma técnica de superfície, feita em pesqueiros baixos, e junto à costa, é exactamente a maior ou menor visibilidade da amostra. Podemos recorrer a estratagemas como as vibrações (amostras com pala), ou a amostras com cores garridas, mas já estamos em perda, já estamos a tentar corrigir condições de mar. As amostras não têm cheiro, logo só podemos apelar a sentidos dos predadores que estejam activos mesmo em águas sujas. Falamos da sua linha lateral, da sua audição, e muito pouco dos seus olhos. Conseguimos pescar, mas com menos resultados do que poderíamos obter caso o peixe pudesse corresponder com todas as suas armas.

As algas em suspensão, e sobretudo as microalgas, o fitoplâncton, podem limitar-nos muito. Quando as microalgas são muitas, mesmo em águas rasas, toda a luz do sol é absorvida antes de chegar ao fundo, ou seja, os fotons são absorvidos muito acima, e não chega quase nada ao plano em que queremos pescar. Para quem faz caça-submarina, são aqueles dias em que nem tentamos vestir o fato de mergulho, a água não está transparente, está turva e sem visibilidade.

As cores farão, de uma ou outra forma algum tipo de selecção natural. Sabemos ainda pouco sobre o assunto, e certamente iremos saber muito mais no futuro, porque o tema é deveras interessante. Mas para já seria importante ficarem com a ideia de que há uma escala de cores, os peixes conseguem decifrá-la, mesmo que as vejam apenas como diversas nuances de tons cinzas. Mas eles entendem-nas. E por isso mesmo, procuram mimetizar-se, utilizando-as a seu proveito. De outra forma, os polvos não necessitariam de mudar a cada instante de cor, para conseguirem esconder-se ao fazer as suas emboscadas. Vejam abaixo.


Parece apenas mais uma alga….mas trata-se de um polvo a caçar, a tentar enganar um incauto peixe.


À medida que baixamos, vamos deixando de ver algumas cores. Se pegarmos numa escala de cores de arco-íris, e a transportarmos para o fundo do mar, a primeira a desaparecer será sem dúvida o vermelho. À medida que vamos descendo mais metros, o amarelo, o laranja, e a dada altura, apenas resta o azul, e a seguir o preto. Vamos perdendo comprimentos de onda, metro a metro, até que todos tenham sido absorvidos. Ou seja, ficamos sem reflexão possível. As cores estão lá, mas não são visíveis. Só o poderiam ser se, por absurdo, pudéssemos transportar para lá o sol, ou uma fonte de luz parecida. Quando utilizamos tubos luminescentes, por exemplo na pesca profunda com carretos eléctricos, estamos a dar um sinal de luz e cor numa zona fótica que não o tem, excepto pela presença de seres que utilizam efeitos bioluminescentes para comunicar. Esses seres são detectados e caçados, e queremos que as nossas iscas também o sejam. A baixa profundidade, os nossos tubinhos são ignorados, porque não funcionam de todo na presença de luz solar.


Esta alga, é de um vermelho vivo à superfície. Mas vejam abaixo a mesma alga, a diferentes níveis de profundidade.


Aqui a mais de dez metros, tem esta cor de um castanho quase esverdeado.


A cerca de oito metros, recupera um pouco as cores mais vermelhas.


Aqui a cerca de dois metros, com uma cor bem mais viva. A grande diferença é apenas a incidência dos raios solares.




Não é por acaso que as espécies predadoras dão preferência a este vermelho rosado. Na verdade, dá-lhes tremendas vantagens no seu habitat natural, pois as suas presas não conseguem vê-los senão quando já estão perto. Perto demais.


A absorção completa do azul dá imagens monocromáticas, como podem ver acima. Foto feita nos Açores, ilha de S. Miguel. 


O peixe que passa é uma veja. As fêmeas são vermelhas e amarelas, os machos são cinzentos e bem mais feios.
Posso dizer-vos algo sobre elas: na ilha do Pico, são utilizadas como bacalhau! Amanhã vou falar-vos sobre esta coisa da salga de peixe nas ilhas…



Vítor Ganchinho



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