Quando a maré está cheia

Já aqui vimos aquilo que acontece quando temos uma maré vazia. Parece-me importante registar também o oposto, aquilo que se passa quando o ciclo das marés vira e temos uma maré-cheia, ou preia-mar.

Se os nossos peixes foram forçados a afastar-se da costa por literalmente poder não haver água nos pesqueiros de praias mais rasas, a subida das águas vai trazê-los de novo, e com apetite, com vontade de encontrar os bancos de comida que entretanto ficaram cobertos de água.
Falamos das mexilhoeiras, onde o sargo e a dourada comem regularmente. Encontram aí perceves, burriés, lapas, ouriços, mexilhões, e uma série de pequenos crustáceos que vivem nestas zonas.
É aí que as douradas e os sargos procuram avidamente os seus alimentos preferidos. Se querem saber exactamente aquilo que procuram, posso dar-vos uma ideia, não querendo ser demasiado extenso:

Vejamos o que existe nesta área de costa baixa: minhoca da pesca, (que podemos encontrar raspando um pouco a praia, por baixo das algas), casulo, (que encontramos na baixa mar em pequenos tubos implantados na areia), poliquetas, búzios, caranguejo moura, o “Pachygrapsus marmoratus” tão apreciado pelas douradas, caranguejo verde, o “Carcinus maenas” que tão bem conhecemos por pescarmos com ele à dourada nos meses de Inverno, a camarinha, o pequeno camarão “Palaemonetes varians”, que dá a volta à cabeça dos nossos sargos.
Também por ali andam cnidários, poliquetas, gastrópodes, nudibrânquios, bivalves, crustáceos, equinodermes, etc, etc. Nunca tenham pena deles, porque os nossos peixes chamam comida a coisas que nós na maior parte dos casos nem conseguimos ver.
Ou desvalorizamos.




A chegada das águas, impulsionadas pela acção gravitacional do sol e da lua, traz possibilidades de alimentação que não existiam na maré vazia.




E aí vêm eles, prontos para comer, a procurar alimento em zonas que eventualmente não estariam sequer alagadas algumas horas antes.




Certas pedras só são mariscadas algumas horas por dia, pois ficam fora das primeiras horas de enchente e das subsequentes horas de vazante.
Em Portugal temos uma valor médio de 3 metros de enchente, e assim sendo, o peixe fica com um tempo escasso para atacar algumas pedras mais altas.
Para quem pesca estes caneiros, vai notar que durante um determinado período de tempo, as picadas se vão suceder, e a dada altura, este frenesim acaba, o pesqueiro fica sem a conta de água certa e o peixe é forçado a sair para águas mais profundas.




As zonas de comida estão muito bem demarcadas, e se querem conhecê-las, deverão ir passear junto à costa na vazante, onde vos é possível detectar quais as zonas que daí a algumas horas os peixes estarão a comer. Os locais são sempre os mesmos, são muito conhecidos, e apenas implicam um pouco de preparação.
Quem faz caça-submarina pode optar por caçar estas zonas na enchente, ou sair para o largo e ir encontrar os mesmos peixes mais fundos, depois de terem comido aqui.
Para quem pesca à linha de costa, as possibilidades não são as mesmas, vai mesmo ter de esperar pela enchente, porque quando a água se for embora, os peixes também vão, e não vai lá chegar.




Todas estas zonas são alagadas apenas na maré cheia, deixando então entrar os peixes que vêm cobrar os que morreram ou ficaram enfraquecidos na última vazante. A entrada de mar abre as portas a uma data de espécies que seguem estes ritmos de fluxos e refluxos de água.




Pequenos microrganismos dependem em absoluto desta água para encontrarem os seus nutrientes. Para além disso, lembrem-se que os gansos, casulos, minhocas, etc, enterrados na reia, estão todos eles à espera da enchente para poderem comer.




Também nas rochas, os mexilhões, as lapas, os perceves, precisam deste movimento de água para poderem filtrar os seus nutrientes.
Muitos deles, vivem exactamente nesta zona de sobe e desce de maré, que se chama de zona intertidal.




Aqui perfeitamente visível a diferença de água que entrou, e que possibilita uma corrida contra o tempo para aproveitar as poucas horas em que é possível chegar a toda a alimentação disponível.

Não esqueçam que enquanto uns estão a tratar de se alimentar daquilo que o mar lhes dá, outros, o caso dos nossos robalos, entram por estas águas rasas e vêm à procura daqueles que possam eventualemente estar …”distraídos” demais. Melhor ainda se esta enchente acontecer à noite, pois estão a coberto da escuridão. Porque nós não, mas eles conseguem ver e sentir perfeitamente …no escuro.



Vítor Ganchinho



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