Ao fim de 500 artigos publicados...

Saí de casa com uma faca afiada na mão. Em passo rápido e decidido fui direito à minha mulher, que estava no jardim.
Olhou-me com aqueles olhos esbugalhados, cansados de me ver, saturada de me aturar as minhas maluquices. Reparei que notou a forma firme como eu empunhava a faca.
Admito que esteja desgastada, farta de mim, farta de ser acordada a meio da noite quando saio cedo para a pesca, farta de me aturar, farta de me ver inventar truques e ideias para conseguir este ou aquele peixe.
São muitos anos a sofrer as agruras de ser mulher de um pescador, a levar com as horas das marés, a levar com despertadores impiedosos, com cheiro fétido a peixe na roupa. Francamente, acho quem já merece descanso.
Pronta para cumprir a sua função, a fina lâmina cintilou sob os raios de sol. Levantei o braço e desferi um golpe seco. E outro e outro, com violência. Repeti a operação várias vezes.
Escolhi varas de bambu com o diâmetro e comprimento certos e esfaqueei-as a torto e a direito.
No fim de tudo, muitas facadas depois, tinha nas mãos duas magnificas canas de pesca, direitinhas, limpas de folhas, arestas e encalhes. Para as minhas filhas.
_Não deixes as folhas por aí no chão, como é costume! Trata de limpar tudo e deixar o jardim como estava!....
As mulheres podem ser muito ciosas das suas coisas, e quando estão com uma tesoura de podar na mão, não admitem interferências no aspecto organizado do seu jardim, das suas roseiras.
Os homens são menos cuidadosos nesses pequenos detalhes. Para apresentarmos grandes obras, focamo-nos apenas no essencial, no resultado final, se pescamos peixe ou não.
Desvalorizamos pequenas minudências, como deixar folhas de bambu espalhadas no local do crime.

Reviver os meus tempos de pescador de rio é algo que faço com muito prazer. Os primeiros passos na descoberta do rio, dos peixes, das suas manhas, marcam-nos tanto quanto a nossa primeira namorada. Aquilo que fazemos quando não existe histórico anterior, quando não temos ainda nada que nos sirva de referência, ou sequer quem nos ensine a fazer, é a pesca no seu estado mais puro. Estar perante um peixe e inventar uma forma de o capturar faz brotar de nós, do nosso mais profundo interior, os mais remotos instintos de primitivo homem pescador.
É nesse momento que somos tudo aquilo que a humanidade já foi. Olhamos para um peixe, olhamos para a cana que temos na mão, e lançamos à agua tudo o que temos de estratégia, de inteligência. Quando isso acontece a uma criança de 6 ou 8 anos, acontece o nascimento de um pescador.
E é um momento único na vida de alguém, esse click que nos desperta para um outro mundo. Nunca mais teremos tanta pureza de emoções, porque a partir daí começa uma penosa, dura e vertical subida ao conhecimento da pesca. Que só termina quando fechamos os olhos, porque na verdade somos, ou potencialmente poderemos ser, melhores pescadores a cada dia que passa.

Na altura o equipamento era para mim absurdamente escasso e simples: um canivete no bolso, (para cortar a cana no local e para….tudo), três metros de linha de nylon enrolada numa pequena rolha de cortiça, um anzol, dois chumbos fendidos, e estava pronto para pescar.
A exiguidade de meios materiais contrastava com um incrível entusiasmo e peixe em abundância, crente, como convém a uma criança de seis anos. Barbos e carpas eram pescados com minhocas da terra, apanhadas nas margens húmidas do rio, os achigãs eram pescados com malmequeres amarelos com folhas brancas. Ou com “artificiais”, leia-se um bocado de uma prata de maço de tabaco. À época, algo em movimento (as folhas do malmequeres), ou a brilhar, (a prata dos maços de cigarros que os fumadores lançavam inevitavelmente para o chão), era atacado por uma horda de peixes pouco habituados a ver gente. Equipamento rudimentar e um local cheio de peixe colaborante, benevolente, pode ser muito mais interessante que material topo de gama e peixe escaldado, ou …ausente.
Carretos não havia, por não serem necessários. Ninguém precisa de recolher a linha que não há. O peixe estava junto à margem, pescava-se basicamente à vista o peixe que estava encostado, e para isso, três metros de nylon eram suficientes.
Garanto que, pese o ar nostálgico do equipamento, este arcaico sistema… ainda hoje funciona. Basta-nos criar as condições para que ele possa funcionar e isso eu faço às minhas filhas de cada vez que saio com elas à pesca.
A ideia de preparar as canas de bambu era pôr as minhas filhas a pescar com materiais antigos, simples. Tão simples quanto uma cana com alguns metros de linha atados, um chumbo e um anzol, ou seja, o básico, o indispensável para que consigam entender o quanto a pesca pode ser simples. Bem mais difícil é saber criar condições para que essa pesca possa ser feita, exige conhecimento de mar, dos peixes e sobretudo da sua biologia.


Uma cana de bambu pode ser suficiente para pescar, …e bem. Haja força no braço!


Virei aqui brevemente a este blog para vos mostrar isso, com um filme em que as protagonistas serão as minhas filhas, para que possam confirmar que é possível pescar, e bem, com uma cana simples e três metros de linha.


Aqui passamos para outro universo, o do “era uma vez”, o mundo “do it yourself”, do desenrasca, das coisas feitas para…”safar”... Foram estas as canas que eu cortei para as minhas filhotas.


Este era, grosso modo, o melhor equipamento a que poderiam ambicionar os nossos avós. O standard era bem pior, não havia nylons, por exemplo, as linhas eram feitas de cotim, um alfinete revirado a servir de anzol já pescava.
Se recuarmos no tempo, e chegarmos aos nossos ancestrais, as coisas pioram muito. Fazer anzóis em osso não é o mesmo que comprar uma carteira de anzóis numa loja.
Acredito que os primeiros peixes terão sido mais arpoados que pescados, mais empurrados para os baixios e apanhados à mão que qualquer outra coisa.


Tudo pesca. Mesmo canas de bambu com uma curta linha pendurada. Porque se pesca directo, o fio forçosamente terá de ter um diâmetro zero grosso, mas aqui não estamos com contemplações, é …para subir.


Com dois metros e meio de cana, estamos artilhados para pescar muito mais do que pensam. É absolutamente indiferente que as canas sejam mais ou menos direitas, porque o importante mesmo é que tenham um mínimo de 2,5 mts, e sejam fortes.


Anzóis datados da era romana, feitos em bronze.


Anzóis em madeira, feitos de forma artesanal.



Anzois da era medieval, século XV.


Vão ver como é possível pescar com materiais rudimentares, utilizados por este parceiro mais velho, um pescador com 17 milhões de anos, …nosso colega de pesca!...


Orangotango a tentar arpoar um peixe. Estes animais podem ser ensinados a fazê-lo.


Companheiros de pesca: ao fim de 500 artigos publicados, provavelmente muitos deles não agradaram a todos. Ou sequer a alguns. Em cinco centenas de ensaios, muito dificilmente eu conseguiria ir ao encontro dos gostos individuais de cada um de vós.
As pessoas são todas diferentes, os interesses muito díspares, é difícil conseguir consensos. Tentem imaginar que começam hoje a escrever, vocês próprios, uma série de 500 artigos originais e entenderão a dificuldade de escrever para todos, novos e velhos, pescadores de costa e pescadores embarcados do azul, pescadores de spinning ou gente dos carretos eléctricos.
Concedam-me pois neste dia o direito a escrever algumas “baboseiras”…porque para mim é um dia especial.
Fica a promessa (ameaça?!) de vos continuar a tentar surpreender com temas novos, com diferentes sugestões, diferentes formas de olhar o mar e a pesca.
Quem está deste lado é alguém que gasta algumas horas da sua vida pessoal a tentar imaginar de que forma pode passar informação útil, informação boa, consequente. Porque só isso interessa.
O objectivo é dar ferramentas, argumentos, conhecimento, a quem acha que pode ser importante saber mais, a quem quer olhar o horizonte e ser capaz de ver mais, ver para além daquilo que os olhos alcançam.

Vivemos num mundo em que cada vez mais a pesca de mar passa no ecrã de um computador.
Saímos de casa cada vez menos, as limitações pandémicas obrigaram-nos a fazer um interregno no nosso ritmo de vida normal. Indiscutivelmente saímos menos ao mar nos últimos dois anos.
Quero pensar que este blog ajudou, durante o período pandémico, a ocupar o vosso tempo e quero acreditar que algo terá ficado para além disso.
Infelizmente, aquilo que se vê por aí é cada vez mais a tradicional foto com uma esteira de peixes alinhados, e o inevitável “ Pesquei muitos!”….
Poupem-me a publicar fotos de um molho de peixes e uma frase curta. Não nasci para isso. Nunca verão aqui baldes de peixes. Bato-me desde sempre por divulgar um lance e não uma chacina. Porque é disso que se trata quando pescamos peixes em pleno período de desova. Nesse momento crítico da sua vida, os peixes deveriam ser deixados criar. Devemos deixar que cumpram o seu desígnio, que perpetuem a sua espécie para que os que vêm a seguir a nós também tenham motivos para sair ao mar. Temos tempo de os pescar a seguir, quando estão na posse de todas as suas faculdades e podem dar-nos luta. Num altura em que tanto se publica em redes sociais, bom e mau, gostaria de pensar que aquilo que podem encontrar neste blog vos serve de alguma coisa, que vai além da exposição gratuita de algumas dezenas de peixes.

Quero pensar que este espaço não é mais do mesmo, e que vale a pena continuar a mostrar algo diferente, mais evoluído.
O número de 500 artigos publicados é respeitável, mas é apenas um ponto de passagem para o dobro disso. Há ideias, muitas, há peixe e o mar é imenso.
Fiquem desse lado, a equipa GO Fishing Portugal vai continuar a publicar à razão de um artigo por dia, os habituais cinco minutos de leitura sobre pesca, em todas as suas vertentes.

Muito obrigado por estarem desse lado!





Vítor Ganchinho



Comentários

  1. Parabéns pelos 500 textos e que venham outros 500,porque merecem e bem o tempo de leitura.

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    1. Boa tarde Gradeiro! Obrigado pelo seu carinho e boa disposição!

      Acredite que é um incentivo importante receber retorno do lado de lá. Vamos continuar a escrever, sem dúvida. Há muitas ideias, pese embora o tempo seja cada vez menos. Vou fazer os próximos 4 dias a pescar, ... quando chego o estado físico é deplorável, e o corpo pede mesmo é descanso. Mas a seguir recupera....



      Abraço
      Vitor

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  2. Bom dia Vítor e restante equipa,

    Parabéns a toda a equipa pelo objetivo alcançado e que venham muitos mais!
    Um blog de contextos vários e de excelência, sempre com o cunho pessoal e maravilhoso de boa disposição.

    O meu agradecimento pela resiliência!

    Abraço,
    A. Duarte

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    1. Boa tarde Antonio Duarte Hoje conseguimos concretizar algo francamente difícil: pescar um robalo a "pedido" da RTP! Fomos com eles a um sitio meu conhecido, para filmar a captura de um robalo. E lá estava ele, e picou num jig da marca Zeake, representada em Portugal pela GO Fishing. Ficou tudo gravado, vai sair na televisão no dia 07.07.21, e a seguir nós publicamos aqui. Um robalo de 2 kgs a ...pedido.


      Vai passar o filme aqui no blog, dentro de dias.

      Abraço e obrigado pelo incentivo. Vai continuar a haver artigos porque ....o mar é muito grande.

      Vitor


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