Beco dos inválidos

Normalmente saio ao mar a partir de Sesimbra, ou Setúbal. Há uma tradição milenar na pesca nesta região, há gente a saber muito bem o que faz, a pescar muito bem. E há os outros.
Por cada pescador conhecedor, existe uma centena de curiosos, que fazem o que veem fazer, que pescam como os outros pescam.
Não que isso traga mal ao mundo, afinal de contas, se conseguem divertir-se, já alcançaram o maior objectivo que se pode conquistar quando saímos a pescar.
É desta gente rija e madrugadora que vos falo hoje. Eles também merecem ter um espaço no blog, porque também contam, também pescam, e sobretudo também se divertem. E isso é tudo!
Muitos deles, se não a maior parte, apenas procuram um escape para uma semana dura de trabalho, uma pressão que os mói, que os massacra, e que alivia bastante quando estão em grupo, com os seus amigos do costume, a contar as suas histórias, umas mais verdadeiras que outras. Pescar também é isso, é esticar o peixe para tamanhos que ele nunca teve, é aumentar o peso de todos aqueles que escapam, é imaginar que algo que prendeu o anzol no fundo seria “seguramente” o tal peixão que se procurava há anos. Ainda que seja apenas uma ponta de rocha, ainda que seja uma rede velha e abandonada. Sobre estas, aquilo que é mais frequente escutar é algo como ”o velhaco está entocado no buraco, consigo puxá-lo um pouco, mas não sai nem à lei do cacete”…
A maior parte dessas redes perdidas, (às centenas por esse mar fora), é responsável por enganches de anzóis em baixo, junto ao fundo, e por desesperados ataques cardíacos à superfície.
Porque as pessoas confundem a subida do barco com a onda, e o por isso obrigatório esticar de linha, com mais um esforço do “peixe” para se libertar. E acreditam piamente que aquilo é assim mesmo, que é o “peixe” que faz força.
A falta de experiência, a pouca rodagem, fazem o resto. São pessoas com noções muito difusas daquilo que se passa no fundo do mar, e que normalmente estão mal equipadas, com materiais de baixo custo, com pouca sensibilidade, que transmitem pouca informação.
Aquilo que vi em termos de equipamentos é algo de aterrador. E acontece a toda a linha, é da vestimenta ao balde do peixe, do calçado aos chapéus.
Deixando de lado a questão da qualidade dos materiais de pesca, canas, carretos, verdadeiros “atafais” surrealistas, saídos de uma zona de promoções de …promoções de um armazém chinês, aquilo que mais aparece é gente com trajes e vestimentas que confirmam um dress-code de sem abrigo.
Se está frio e nublado vão de galochas, de capas de oleado, de trajes “desportivos” que assustam as criancinhas. Se está calor e sol, vão de galochas, de capas de oleado, de trajes “ desportivos” que assustam as criancinhas.
Consigo entender que quem vai aos chocos, não tenha de caprichar demasiado, e que um fato de treino velho faça a função. Meias brancas de raquetes por cima das calças de fato de treino pretas, e sapatos pretos de cabedal velhos….um casaco colorido meio tapado de tinta de choco de outros dias em que a sorte sorriu. Haja alegria. Tudo isto faz parte de um folclore que apenas surpreende quem não está habituado a vê-lo.
É passar de madrugada pelo Clube Naval em Setúbal e apreciar o “drama” que ali se desenrola todos os dias. É a pesca no seu extrato baixo, do pessoal que não sabe o suficiente para obter resultados, mas que não deixa de ir.
Como que os corredores de maratona que participam, mesmo sabendo que serão dos últimos a chegar, e que irão cortar a meta muitas horas depois dos atletas de topo. Que interessa isso dos tempos, quando o objectivo não é ganhar a corrida, mas sim chegar ao fim?
Que diferença faz pescar um peixe grande se com duas dúzias de pequenos se tem o mesmo peso?




Porque os chocos têm muito mais actividade nocturna que diurna, e há que aproveitar as primeiras horas do dia antes de o sol estar alto, formam-se filas à porta do Clube Naval Setubalense com dezenas de barcos.
Esqueçam o Covid. Afinal não existe nada disso, a julgar pela displicência com que os grupos se formam em circulo fechado, a comentar pescarias passadas. Sem máscara, claro.
Inventam-se regras no instante, a saída de atrelados passa afinal a ser a entrada para alguns, cruzam-se e espremem-se barcos e carros por nesgas de espaço para um onde objectivamente não cabem dois, grita-se com quem dificulta a vida, e os impede de sair. Porque o importante é sair.
No fim, os pacientes funcionários do Clube Naval, onde conto com alguns bons amigos, fazem o que podem para tentar harmonizar a enorme confusão que se gera pela manhã.

Todos saem, uns mais cedo que outros, embora haja quem se levante às 4 da manhã para garantir que vai ser o primeiro a colocar o barco na água.
Já se sabe que todos querem sair cedo, querem ser os primeiros a chegar aos pesqueiros, que são a…um minuto de distância da doca. Se há uma saída de esgoto mesmo em frente, …azar do esgoto, é ali que andam os chocos, é ali que se pesca.
O sucesso é medido em número de peças. Há choco todo o ano no Sado, embora seja evidente um acréscimo nos primeiros meses do ano, Fevereiro a Abril. Porque navegar dentro do rio não exige perícia e embarcações por aí além, é ver a incrível panóplia de objectos a que se consegue chamar de …“barco”. Sair e navegar é preciso, e se tiver de ser numa banheira a remos, tanto se dá. Importante mesmo é…sair!




Mas nem todos vão aos chocos. Há quem deixe isso para quem não consegue fazer mais nada que malhar nos desgraçados dos choquinhos com as suas toneiras coloridas.
E esses são os pescadores a sério, os de “peixe de escama”, aqueles que irão sair para as pedras em frente à desembocadura do Sado.
Pedras e peixes que assistem impávidas a gerações e gerações de gente que os pesca, à linha, com redes, com covos, e tudo aquilo que possa trazer algum peixinho para casa.
O polvo e o choco são abundantes nesta zona, e isso dá sustento a toda uma indústria. Já vos expliquei que, infelizmente, o choco frito de Setúbal é uma farsa.
Comem-se muitas centenas de quilos de choco à mesa dos restaurantes, todos os dias. Não seria por aí que não seria possível abastecer a cidade. O estuário do Sado é rico em choco.
Mas o tamanho do choco de Setúbal é pequeno, (também é verdade que não lhe dão muito tempo para crescer…) apenas pode ser assado, e por isso, aquilo que efectivamente se come em Setúbal é choco importado em contentores frigoríficos, ...da Índia.

Existem os “apanhadores de chocos” e os outros. Os pescadores de “peixe” têm-se desde logo por uma classe à parte.
Na verdade, enquanto que uns se ficam por um tempo de navegação curto, que apenas os leva ao meio do rio, os outros aventuram-se a sair “mar fora”, para zonas que não distam mais de 3 ou 4 milhas do porto de abrigo. As pedras são sempre as mesmas, os iscos os mesmos, e os peixes pouco mudam. Existem milhares de pequenos peixes, de bocas curtas e dentes afiados que rapam as iscadas mal presas num ápice.
É uma luta titânica entre a sagacidade dos pequenos peixes e a paciência e incapacidade técnica de quem está acima deles, desesperado no barco por não conseguir ferrar aquelas “douradas”, sargos, e outros monstros.
Se a pescaria não resulta (porque não pode mesmo resultar….), lá vem o costumeiro lamento “ isto hoje está cravado de murraça miúda!”….
Mas eles estão a pescar com iscas minúsculas que são comidas por peixe miúdo, à saída da foz de um rio que é um criadouro de peixe miúdo, em pedras em que já só existe peixe miúdo, e querem pescar o quê??!!




Os resultados de uns, os que ficam dentro do rio, são meia dúzia de chocos, os resultados dos outros, os aventureiros do “mar aberto”, são meia dúzia de cavalas, duas sarguetas e um carapau. Venha o diabo e escolha.
Na verdade, o importante é ir, é sair ao mar e, mesmo que por breves horas, deixar pelas costas, em terra, preocupações que terão de ser resolvidas sim, mas mais tarde.


Uma gaivota, mesmo trôpega das asas, pode perfeitamente, ao fim do dia, ter conseguido mais peixe que os ocupantes de alguns dos barcos que saem ao ...”peixe de escama”...


Tenho um carinho muito especial por quem, mesmo sabendo que não irá pescar grande coisa, ainda assim tem a coragem de sair cedo da cama, de enfrentar o frio e o vento, para ir pescar. A ninguém nego um conselho, uma informação, um detalhe técnico. Dentro das minhas limitações, a todos procuro ajudar. Os resultados não são melhores, são piores, ….mas são. Importante mesmo é ir, é manter viva a esperança de que um dia, aquele peixe grande que sabem que anda lá fora no mar, vá calhar no seu anzol.
A minha homenagem, o meu abraço sentido a todos eles, aos últimos do pelotão, essa massa anónima de gente que …acredita.



Vítor Ganchinho



Comentários

  1. Belo texto, parabéns e grato pela partilha!

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    1. Bom dia! A pesca não tem forçosamente de ser um desfilar de grandes exemplares. Até porque esses serão cada vez mais raros, cada vez mais difíceis de conseguir. Porque acompanho o fenómeno da pesca de perto, saio 3 a 4 vezes por semana, percebo a razão de cada vez haver menos peixe: na semana passada, estava a ir para sul e andava uma traineira de Sesimbra, grande, com redes com uns 15 metros de altura, de malha miúda, a operar na zona da Comporta. Quando se largam centenas de metros de rede de cerco, com uma altura que é quase toda a altura de água que existe, de malha que não permite sequer que uma sardinha escape, ...o que é que pode ficar lá??? Estava a operar com o apoio de uma embarcação pequena, que ia esticando a rede e dando a volta ao peixe. Na verdade, não fica nada naquele lugar. E o que é assustador é que a seguir fazem outro lance ao lado....e outro e outro.....e transformam uma zona com peixe numa zona ...sem peixe.

      Os nossos peixes são uns sobreviventes, uns bravos e corajosos seres que aguentam tudo, de dia e noite. E no fim, ainda queremos que eles mordam um anzol com comida...

      Por isso, é bom que se entenda a pesca como um espaço de convívio, de partilha de experiências. Porque cada vez será menos um momento de grandes exemplares.
      Continua a haver alguns peixes, mas infelizmente não acessíveis a todos os que vão à pesca. Por isso este artigo de hoje, uma homenagem a todos os que vão, mesmo sabendo que nunca lhes irá calhar um peixe grande. Como se costuma dizer, o mar entrega-se a quem provar saber o suficiente sobre ele.


      Abraço!
      Vitor

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  2. Boa tarde Vitor,

    Na pesca, "isto" é uma boa parte da sua constituinte!
    É a esperança contínua, de um sonho vivido a cada saída que fazemos. Essa é sempre a grande certeza que um pescador nunca pode abandonar.


    Grande abraço...
    A. Duarte

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    1. Bom dia atleta! A expectativa de quem sai ao mar é sempre a de fazer algo de grande. E se é verdade que quase nunca acontece, ainda assim por vezes ...
      Quando saímos ao mar regularmente, e quando já fizemos quase tudo aquilo que se pode fazer em termos de peixes, passamos a valorizar outras coisas, a reparar em pequenos detalhes, como o trabalho de equipa dos golfinhos, ( separam-se em pequenos grupos, procuram os cardumes de cavala ou sardinha, e quando encontram, chamam os outros, com silvos agudos), o trabalho dos gansos patolas, dos cagarros, das gaivotas, que seguem os golfinhos e esperam até eles trazerem os cardumes à superfície, etc, etc. Há tanto para ver.
      Alguns dos factores que levam a que a maior parte das pessoas não veja estas coisas, na nossa zona de pesca, tem a ver com o facto de pouco saírem da barra do rio Sado, e sobretudo com a necessidade que sentem de lançar âncora rapidamente e começarem a pescar fundeados. Quando estão amarrados a um sitio, estão a limitar imenso a sua possibilidade de descobrir algo mais.
      Pela parte que me toca lanço ferro cada vez menos, pesco em cima dos cardumes, e a verdade é que ao fim do dia tenho sempre uns peixes bonitos. Mas para isso, há que esquecer a pesca vertical, fundeada, que é aquilo que 95% das pessoas fazem. Porque nem concebem que exista algo mais.
      Há peixe, mas consegui-lo implica saber fazer diferente, e as pessoas são preguiçosas, não querem mudar nada. E os resultados são o que são...

      Anda peixe lá fora.



      Abraço
      Vitor

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