O AJING - TÉCNICA DE PESCA PARA PURA DIVERSÃO

Há técnicas de pesca que são mais óbvias, mais evidentes, também mais tradicionais, e por isso mesmo reúnem um consenso generalizado de aprovação junto dos praticantes.
Concretamente todas as pescas que se focam no rendimento, na possibilidade de poderem proporcionar muito peixe para alimentação. Essa é ainda a motivação principal, quer queiramos quer não, de grande parte das pessoas que pescam.
Outras técnicas há que, por se focarem nas emoções, na diversão simples e pura das pessoas, captam menos adeptos. São baseadas na exigência de gestos apurados, em materiais sensíveis, mas por não terem como objectivo evidente o aportarem uma grande quantidade de peixe, serão menos praticadas.
Chega-se lá, a esses níveis, tendo a questão da alimentação garantida à partida, quando saímos de casa. E aí, prevalece a pesca pura, eventualmente com captura & solta, sem outro objectivo que não o de passar algumas horas junto à água, a disfrutar do contacto com a natureza.

O Ajing é um desses casos.

Trata-se antes de mais de uma tendência, algo que se pode olhar como uma nova oportunidade, algo a que chamaria de “pescar por diversão”. E que vem aí, Europa fora, a toda a força, a tornar-se a cada dia mais popular. Tem uma vantagem imediata: por não utilizar iscas orgânicas, chegamos a casa bem cheirosinhos, de roupa limpa. E não temos de ir comprar à pressa umas caixas de minhocas, porque tudo o que precisamos cabe dentro de uma caixa de bolso.

Não é a técnica para quem gosta de apresentar peixes monstruosos no seu Facebook, e espera com isso conseguir milhares de likes. Não é para isso que o Ajing serve. Esta é uma técnica para quem quer melhorar as suas capacidades técnicas. Os elementos em jogo são tão frágeis que, ao menor erro, ao menor descuido, perdemos o peixe. Quem gosta de pesca técnica gosta de Ajing. Quer faz da pesca um concurso de força contra força, esqueça isto. Aqui, querem-se dedos de pianista, não de moço das obras.

As pessoas estão finalmente a despertar para a possibilidade de explorarem o potencial incrível deste método, meio adormecido porque exige equipamentos muito técnicos, muito especializados e só recentemente disponíveis. Os fabricantes, por pressão, a pedido expresso dos clientes, passaram a incluir estes equipamentos ultraleves nas suas gamas de produtos. Não estamos longe dos equipamentos utilizados para Light Rock Fishing, LRF, e poderíamos inclusive considerar que se trata de uma das variantes deste conceito geral de pesca ligeira.
Está a alastrar pela Ásia, já chegou a Portugal, e vai ficar porque é uma resposta à falta de tempo que as pessoas sentem para pescar, às dificuldades de conjugar família e pesca, à existência de miúdos que querem pescar com os pais. É uma pesca que pode ser citadina, ou ser feita em períodos curtos de tempo, aquilo a que podemos chamar uma “escapadinha” de pesca. Na sua essência, trata-se de um estilo de pesca para ser utilizado à noite, depois de sair do trabalho, jantar e ir até ao pontão lançar umas linhas.
O Ajing vem encaixar em tudo isso.
E já temos gente boa a fazê-lo, gente a divertir-se à grande e a saber o que faz. A facilidade e velocidade a que a informação circula hoje na net possibilita a obtenção de dados que há uns anos seriam segredos de outros lados do mundo. Hoje já o não são, está tudo às claras.

A nova de geração de pescadores que agora desponta vai ser mais elástica, mais conhecedora, mais polivalente nas suas opções de pesca. Indiscutivelmente.
Irá ser capaz de adaptar aquilo que se faz noutros pontos do globo, às suas realidades, às nossas águas. O nosso país é um paraíso para quem gosta de pesca. Há peixe, há locais para pescar, há equipamentos de pesca à venda.
E que materiais são esses?

Falamos de canas finas, muito leves. São varas em carbono de boa qualidade com acções de 1-3, 2-8, 1-7, ...por aí, com alguma acção de ponta, ou seja, canas rápidas, ou perto disso, com comprimentos na ordem do 1,80 a 2,10 mts, para um peso de 60 a 95 gramas.
Passadores leves e resistentes evitam-nos problemas. Nada mais incómodo que tentar lançar uma amostra pequena com uma cana pesada, dura, muito mais forte que o necessário para a função. Sentimo-nos com um “pau-de vassoura” nas mãos.
Aquilo que é corrente no nosso país é que se tente fazer com material desadequado um tipo de pesca que exige, e o termo é esse, equipamentos muito “light”.
Por vezes recebo chamadas de pessoas que se queixam que não conseguem pescar nada com as suas técnicas tradicionais. Falamos de canas de 3,60 mts, linhas multifilamento 0.35mm, chicotes em 0.50mm, chumbadas de 200 gr. Canas de pesca vertical.
Mas que ao tentarem pescar com um vinil pequeno, ligeiro, com 5 gr, também não fizeram nada. À pergunta inevitável “ com que equipamento tentou?”, respondem…”com o mesmo, só tenho este…”.


Os carretos, tamanhos 1000 ou 2000 como máximo, servem apenas de enroladores de linha, e na maior parte dos casos não participam muito na pesca.


Em pesqueiros baixos, ou se quiserem, em pesqueiros mais fundos mas onde vamos pescar à superfície, o trabalho do carreto não é fundamental. Pode nem ser necessário lançar. Por isso, se querem poupar em algo, poupem no carreto.
Já quanto às linhas multifilamento super finas, PE 0.3, 0.4, como limite 0.6, não se deve poupar nem um pouco. Linhas baratas rompem e pregam-nos arrelias. Linhas boas dão-nos peixes, e evitam-nos irritações.
No caso de haver um robalo que se lance à nossa amostra, convém não estarmos “ descalços” de todo. É deixá-lo ir, sem tremeliques, porque ele não vai aguentar muito tempo a fazer força e nós …até temos tempo.


Esta é uma linha fabricada pela YGK para Ajing.


Finalizamos com um chicote de nylon 0.18 a 0.22mm, também de boa qualidade e porque não, por puro conforto, um alfinete onde vamos pendurar a nossa amostra. Este alfinete deve ser pequeno, leve, seguro. Os da Smith são os melhores que conheço. Peças minúsculas, que não interferem em nada na nossa pesca, têm, ainda assim, uma resistência espantosa. Não abrem mesmo e isso é feito através de um design cuidado, em que as forças de tracção aplicadas são estudadas por engenheiros que sabem do ofício.

Não necessitamos de mais, porque os peixes alvo não são grandes, logo mesmo com isto estaremos sobre -equipados.
A GO Fishing Portugal tem em stock na sua loja de Almada, (ou na sua loja on-line) bobines de linha das marcas Rapala com diâmetros muito finos, PE 0.3 e 0.4, ou em marca YGK um modelo de linha particularmente apreciado pelos japoneses, a linha “sinking type”, ou seja linha afundante, em PE 0.4 e 0.6.
Não esquecer que os pesos utilizados para levar as nossas amostras para o fundo são muito ligeiros, 3/ 5 gramas, ou menos, pelo que ter uma linha afundante é um auxílio significativo.
Com equipamentos super ligeiros destes, a habilidade da pessoa é constantemente posta à prova. São necessárias boas mãos, mas a diversão é garantida.
Esqueçam as linhas grossas, as que também dão para safios, porque não é obviamente disso que estamos a falar.

O Ajing é uma técnica importada do Japão, sendo que a palavra Aji significa carapau. Este peixe é venerado por lá, pela qualidade da sua carne, (serve-lhes para fazer sashimi e sushi), e por ser muito agressivo, muito predisposto a atacar os nossos minúsculos vinis ou jigs.
Os vinis, de pequeno tamanho, necessitam de um pequeno lastro para descerem na coluna de água. Não que seja necessário procurá-los muito fundos, pelo contrário, eu pesco-os literalmente à superfície quando tenho condições de mar para isso.
Nos nossos portos marítimos, à luz dos candeeiros, é muito comum que nos surjam todas as noites peixes destas espécies, misturados de cavalas, e que nos garantam algum tempo de boa disposição. Um pouco de engodo, sardinha moída misturada com areia, faz o resto.

Relativamente aos vinis, a vantagem é de que os utiliza de pequeno tamanho. Certamente já viram no estômago dos nossos carapaus uma massa rosa, que mais não é do que camarão minúsculo, de 5mm, e isso diz bem da capacidade dos nossos carapaus de descobrirem e capturarem pequenas presas.
Não necessitamos de grandes vinis, pois. Um jig de 3 gr faz o mesmo efeito. A GO Fishing tem esses jigs, para quem queira experimentar, embora não estejam publicitados na loja on-line. Mas existem em stock e é possível a sua venda, sob consulta.


Para que tenham uma ideia de qual o tamanho real de um jig de 3gr, passo-vos a foto acima, onde podem comparar com um jig de 10 gr. Aqui a uma escala completamente desfasada por ser….grande. Mas muita gente acha os de 10 gr…muito pequenos.


Os jigs pequenos podem ser equipados com anzóis simples, ou com triplos. Tenho para mim que um pequeno assiste à cabeça é mais que suficiente.
Mas há quem prefira colocar uma argola à cauda e pendurar daí o anzol, ou a fateixa. Porque não? Tenham em atenção que este conjunto só faz sentido desde que seja proporcional.
Caso coloquem uma fateira tripla muito grande, vão desequilibrar o jig de tal forma que passam a ter o triplo sempre enrolado na linha do chicote. E para isso, mais vale optar pelo anzol simples.
Estas amostras pequenas são “engolidas” pelos peixes que normalmente costumamos pescar. Por todos eles. Com os jigs de 3 gr, espantem-se com isto, é possível capturar peixes como os que mostro abaixo:


Dirão: ´” é uma pescaria banal”. Sim, é verdade. Mas quando é feita com equipamentos muito ligeiros, linhas superfinas, jigs de 3 a 5 gr, em fundos baixos, não mais de 12-20 metros, passa a ser uma pescaria muito divertida. O que eu vibro quando me pica um atum sarrajão me leva 20 ou 30 metros de linha. Há que deixar ir, nada de pressas! Com linha PE 0.4, este peixe parece um…marlin!!


Mostro-vos acima dois cabeçotes de chumbo diferentes. O mais pequeno, de 5 gr, serve-me para quase tudo. É muito polivalente. O segundo, prateado, é um cabeçote de 7 gr com as laterais ligeiramente espalmadas, e que nos permite fazer “darting”, movimentos laterais, em Z. Estes movimentos excitam sobremaneira o peixe predador. Os robalos adoram.


O limite para as amostras que enviamos é mesmo a imaginação da pessoa que pesca. As opções existentes no mercado são inúmeras, e basta procurar um pouco e encontramos vinis que, uns mais outros menos, são mesmo aquilo que o peixe procura quando se alimenta nos baixios. Dependendo da coloração das águas, mais limpas ou mais tapadas, assim optamos por cores neutras, os verdes, os azuis, ou vamos para cores mais chamativas, os rosas, os brancos.




Se é verdade que na maior parte das vezes equipamos os nossos vinis com cabeçotes que já trazem o anzol incorporado, nem sempre isso joga a nosso favor.

No caso de querermos pescar douradas em zonas baixas, ou pargos em zonas mais fundas, Podemos optar por uma montagem um pouco diferente. Interessa-nos que o nosso vinil faça uma queda mais suave no fundo, tal como faria um camarão, por exemplo.
E para isso, separamos o peso, na circunstância um tungsténio com peso suficiente para nos permitir pescar à profundidade desejada ( existem desde 5 gr até 52 gr…), que corre na linha e fica sempre separado do vinil.
Para isso, colocamos um stopper. Este, não terá como função principal essa separação mas sim a de evitar que o camarão se estrague rapidamente com as nossas tentativas bruscas de ferragem. É bom que o peso não bata directamente no vinil.
Este stopper pode ser substituído por um pouco de linha de nylon, ou mesmo trançado fino, com o qual damos algumas voltas à linha da baixada. Ao apertar, criamos um batente que será o bastante para evitar impactos no vinil.
Experimentem e vão ver que resulta.




Nós temos toneladas de carapau na nossa costa, pelo que não temos de nos preocupar com falta de stocks de peixe. Embora seja um predador, está no entanto na base da cadeia alimentar que serve todos os nossos predadores de topo.
Isso é positivo para nós: sabemos que por isso mesmo se reproduzem aos milhões. Há e são aos milhões! Temos até mais do que uma espécie, conforme podemos ver abaixo:


Carapau branco de Setúbal, o chamado “carapau-manteiga” , ou “Trachurus trachurus”.


Este é a outra versão, o carapau negrão, ou carapau-azul, ou “Trachurus pictoratus”. Normalmente é pescado um pouco mais fundo que o tipo anterior.


O negrão aparece-nos também sob esta coloração. É possível consegui-lo a 150 metros de fundo, mas também a 10, 15 metros de fundo...


Peixes que consideraríamos banais, quando capturados com equipamentos ligeiros passam a ser bons troféus.


Não me levem a mal, mas a maior parte de quem me lê tem dificuldade em entender que um peixe grande possa sequer interessar-se por pequenos iscos, amostras miniatura, por jigs de poucos gramas. Acham estranho.
É um erro. Neste momento, ainda temos águas quentes, na ordem dos 21ºC, e a essas temperaturas, o peixe grande está encostado à costa, a comer alevins. Este é o momento de lhe apresentarmos as amostras pequenas!
Quando a água arrefecer, quando passar a 13ºC, não vai lá estar nada. Não pode estar porque o desgaste energético diário seria terrível. E aí, se forem experimentar a lançar estas engenhocas, vão obter como resultado um zero redondo.
A chave do sucesso deste sistema é mesmo manter tudo o mais fino possível. Tudo é tudo, não é mudar o vinil, o jig, e manter as outras bugigangas pesadas. Os vinis só descem impulsionados pela gramagem de chumbo que lhe aplicamos.
E este pequeno chumbo não tem peso para afundar linhas grossas, provavelmente irá ficar a meia água, arrastado pela corrente. Daí que tudo o que se faça a “improvisar” um sistema light, seja asneira. Nunca conseguiremos pescar ligeiro com equipamento pesado. Se bem me faço entender…
Tudo tem de ser proporcional, e assim sendo, o nosso trançado, puxado por um pequeno peso, irá cortar as águas com muita facilidade, e vai descer rápido, até atingir o fundo, mesmo que tenhamos alguma corrente. Porque estamos a trabalhar um sistema ligeiro, a animação irá sair perfeita.
E os resultados vão aparecer.


São pequenos iscos, mas na hora de serem mordidos, podemos contar com eles. São engolidos por peixes fantásticos!


A chegada dos tungsténios ao mundo da pesca, produto muito mais denso que o vulgar chumbo, veio permitir a colocação de cabeçotes muito mais pequenos, mais discretos, e com isso, a permitirem uma apresentação mais natural. E isso é positivo, quer o pescador esteja a executar as suas técnicas a bordo de um barco, quer o esteja a fazer a partir de terra, um rochedo, um cais, uma saída de rio.
Aquilo que é comum é que a pessoa fique surpreendida com o tamanho dos peixes que lhe vão aparecer. Ninguém espera que um bom robalo se possa interessar por tão pequenos vinis. Daí a importância de apostar em material de qualidade, o qual, mesmo mantendo as características base indispensáveis, fino, leve, ultraligeiro, tenha ainda assim a robustez necessária para aguentar esforços elevados. E daí a importância de ter bom equipamento. O resto são desafios à nossa capacidade técnica, e se a princípio um peixe vai embora, por inépcia nossa, a seguir aprendemos e passamos a fazer melhor.
A animação depende muito das condições que temos à nossa frente, da profundidade, da corrente, do peso da nossa amostra. É muito natural que cada pessoa experimente criar o seu próprio estilo. Se uns dão um ligeiro toque de ponteira, outros preferem movimentos de maior amplitude. No fim, o importante é entender o que resulta melhor, naquele dia, naquelas circunstâncias. Mas no fim, chegamos a bom porto, aprendemos, e forçosamente obtemos resultados.
Aquilo que fica é a certeza de que, se estas técnicas baseadas em equipamentos ligeiros não funcionam em situações difíceis, nada funciona.
Longe vão os dias em que bastava uma linha, um chumbo e um pouco de isca. Será cada vez mais difícil pescar dessa forma, as condições têm de estar muito propícias para isso. Tudo evolui. O peixe também.
O Ajing veio constituir uma possibilidade de pesca, tem um enquadramento próprio, e tem o seu sentido.



Vítor Ganchinho



Comentários

  1. Muito obrigado pela partilha vasta de conhecimento.
    É bastante agradável saber que há por aí pessoas, não muitas, que querem transmitir o seu conhecimento vasto da forma como o Vítor o faz.
    Um bem haja.
    Grande abraço
    Luís Teixeira

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    1. Boa tarde Luis Tinha-me falado neste assunto, recorda-se? Vamos fazer sair um outro artigo em que a temática é próxima desta, com um enfoque sobre os jigs minúsculos que se podem utilizar nesta técnica. E passamos a poder pescar com vinis, o tradicional, e com jigs de ...3 gr.


      Abraço
      Vitor

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