PRECAUÇÕES A TER COM CANAS DE PESCA

Já vi partir muitas.

Já vi partir tantas canas de pesca que devo aos leitores do blog um artigo a explicar como é que elas se partem.
E é isso que vamos ver hoje, em detalhe, para que não vos ocorra aquilo que é o maior desapontamento de alguém que compra uma cana de qualidade: a sua quebra.


Trabalhar a este nível está correcto. A cana não passa do nível dos meus olhos. Esta cana, nestas condições não parte!


Recordo-me de um cliente que adquiriu uma cana de spinning, extrema qualidade, em carbono alto módulo, por um preço superior a 750 euros. Após receber a embalagem, vistoriou demoradamente o precioso objecto que tantos meses de poupanças lhe consumiu. Estava impecável. Era a sua cana de sonho e mal podia esperar para lhe aplicar o carreto 4000 da Daiwa que iria fazer conjunto com a sua cana, futura companheira de grandes jornadas de pesca.
Deixou a cana na sala e desceu à garagem, onde guardava o carreto. Quando subia as escadas, apercebeu-se de que havia ruído na sala. Era a sua filha de 3 anos. E tinha a cana na mão.
A pequena veio direito ao pai a correr, feliz, de cana no ar, a imitar o pai à pesca. Ao passar por baixo das pás da ventoinha de tecto, ...
Uma cana de spinning partida, com menos 40 cm de comprimento, é um pau de vassoura. Nada poderá valer a um objecto que foi exaustivamente estudado para ter um comportamento específico, uma determinada acção de ponta, e de repente…passa a ter um comportamento muito mais rígido. Nestes casos, nada poderá ser feito, é deitar fora, aproveitando os passadores, se for caso disso.

Um outro colega de pesca surf-casting, habitual frequentador do molhe de Setúbal, foi pescar junto aos candeeiros do porto. Num momento de pausa encostou a cana ao carro.
Chegou entretanto uma outra viatura com uma senhora, a querer passar para o outro lado. Com a simpatia que o caracteriza, fez de imediato marcha atrás, para ajudar.
Esqueceu-se por completo de ter deixado a cana apoiada na traseira do carro, e passou-lhe por cima com as rodas.


Nada estranho? Um cliente trouxe-me esta cana para eu ver e não lhe pareceu mal...


Canas partidas haverá sempre. Quanto mais técnicas mais caras, mais leves e…mais frágeis.
E por isso mesmo, por ser a cana um instrumento sensível e frágil, devemos ter todos os cuidados, para que nos continuem a proporcionar grandes momentos, durante muitos anos.
Com alguma facilidade podemos exceder os limites físicos que a nossa delicada cana pode suportar. Há pessoas que fazem tudo o que podem para as partir. E é uma pena...
Que podemos fazer pois, para lhes prolongar a sua vida útil?

Aí vai informação, em 20 razões objectivas para culparmos quem nos vendeu a cana:

1- Certifique-se de que passa a linha por todos os passadores. A falta de linha num deles cria tensões desnecessárias no corpo da cana. A performance original, quando isso acontece, fica alterada, podendo contribuir para sua quebra.

2- O carreto deve estar ajustado, com algum aperto. Mas isso não significa demasiado apertado, sob pena de podermos danificar o porta carretos.

3- Todas as canas têm limites muito rígidos de aplicação de diâmetros de linha. O mesmo se passa relativamente ao peso das amostras/ jigs a utilizar. A acção da cana foi determinada para uma determinada tensão. Quando a excedemos, o risco de quebra é enorme.
Se uma linha tem um diâmetro demasiado elevado, com uma carga de rotura superior à tensão que o blank da cana suporta, o risco de quebra ou dano de partes da cana existe.

4- As canas não são produzidas para içar peixes para o barco, em força. São feitas para trabalhar as amostras, os jigs, as iscas. É para isso que são pensadas. A parte de levantar os peixes em peso é para outra peça, o camaroeiro. Se estamos a trabalhar uma amostra, um jig, estamos a controlar o esforço e seguramente bem dentro do espectro de acção a cana. Digamos que estamos dentro dos valores, porque escolhemos a amostra em função daquilo que está registado como “acção normal” da nossa cana.

5- Há pessoas que insistem em levantar o seu peixe à bruta, colocando a cana na vertical. Para que não fiquem dúvidas, vamos fixar isto: a parte mais alta da nossa cana não pode nunca, (ou não deve….senão corre sérios riscos de partir…) passar a altura dos nossos olhos.

6- Caso isso aconteça, caso a cana seja levantada muito acima desta margem de segurança, o que se passa é que há um excesso de stress numa zona muito curta do corpo da cana. O esforço total sobre a haste é concentrado numa pequena zona apenas. E isso pode provocar a rotura.

7- Vou dar-vos exemplos de excessos que cometem todos os dias e que podem danificar as vossas canas: levantar um peixe para o meter no barco é o mais comum, porque as pessoas só estão a ver o peixe, só se interessam pelo peixe, e não pensam na cana que lhes custou uma fortuna.

8- Outro erro é o de regularmos a embraiagem com a cana completamente montada. Fazemos uma série de piruetas, forçando a cana a aguentá-las. A ponta da cana dobra em excesso e só larga linha quando o rotor da embraiagem está suficientemente solto. Mas de início a cana sofreu.

9- Também quando mudamos uma amostra, queremos ter o alfinete bloqueado e fazemos isso dobrando a cana.

10- E por fim, quando queremos mudar de pesqueiro e colocamos a dita no caneiro, com a amostra, ou até com o anzol ( e chumbada) pendurado do passador mais próximo do carreto. Se não apertarmos, o anzol irá soltar-se durante a viagem, logo, há que recolher linha até garantirmos que não se irá soltar. Como o mar está mexido, a chumbada irá pender centenas de vezes, para baixo e para cima, esticando e soltando a linha, ou seja, dobrando a cana vezes sem conta. E é quando não acontece que a própria chumbada, ou amostra, bata contra o corpo da cana e sofra, em silêncio, esses impactos. Verdade ou não?!

11- Quando pescamos surf-casting nem tanto, mas quando vamos pescar para uma zona de arriba, de rocha, é muito comum que se coloque a cana contra a parede rochosa que está atrás de nós. Fazemos isso para mudar de anzol, para colocar as iscas, para ir comer uma sandes. A rocha é irregular. Pode até estar vento e a cana arrasta pela pedra. E isso pode riscar ou danificar a cana. Quando tem um risco no seu corpo, está criado um ponto fraco. Quando lançamos uma baixada, com a respectiva chumbada, estamos a exigir um esforço máximo à nossa cana. Aquele risco pode induzir à quebra da cana, naquele ponto preciso, dependendo da sua profundidade.

12- Quando pescamos num paredão, na cidade, colocamos a cana apoiada no nosso carro. Que por azar dos Távoras, tem um pintura lisa e que por isso mesmo, ...escorrega. Quando pica um peixe bom, a cana resvala e bate no chão. E isso provoca danos.

13- Por vezes, temos uma cana para trabalhar jigs de 100 gramas. Mas naquele dia, resolvemos ir mais fundo e colocámos um de 200 gramas. O passador de topo, sobretudo esse, pode ficar danificado com esse esforço suplementar.

14- Acontece que por vezes não reparamos que a nossa ponteira tem duas voltas de linha enroladas. Ao lançarmos a nossa chumbada, …..a ponteira parte e vai disparada para a frente. Devemos reparar sempre se estamos em condições de fazer esse lançamento.

15- Os porta-carretos são pensados para ser o mais universais possível. Para que se adaptem à maior parte das marcas. Ainda assim, podem não ser exactamente compatíveis com o carreto que a nossa esposa nos ofereceu. Nada de limar …nem a cana nem o porta carretos, ok?

16- Vou agora dificultar-vos a vida: a pescar vertical, a nossa baixada ficou presa no fundo. Um dos anzóis enrolou a uma pedra, uma gorgónia, etc. Há pessoas que tentam “safar” dando uns esticões fortes na cana, para desencravar a “coisa”. Outros, que sabem de canas, calçam umas luvas, pegam apenas na linha e tratam o assunto à mão.

17- Quando lançamos as nossas amostras em temperaturas muito baixas ou muito altas, é natural que surjam alguns ruídos estranhos no blank. É natural. Recordem-se que estamos a tratar de um produto que tem diversos componentes, uns metálicos, outros em carbono, outros em fibra de vidro. Cada um destes produtos tem a sua consistência própria, o seu grau de dilatação. 
As diferentes durezas de cada um destes elementos, submetidas a esforços de tensão, poderão vibrar de formas diferentes. O mesmo se passa relativamente a esforços máximos exigidos a uma vara de carbono trançado, que é coberta com cola, mas que ainda assim conserva alguma independência entre fibras. Nada de estranho pois que emita sons.

18- Chegados ao fim da pescaria, vamos desmontar a nossa cana. Temos as mãos húmidas porque estivemos a cortar o rabo dos peixes, ou a lavar as caixas do peixe. Porque a cana escorrega nas mãos, o único sítio que nos ocorre para fazer força a sério é… nos passadores. Certo?

19- À volta para casa, por falta de tempo, de paciência e por cansaço, resolvemos “atamancar” a situação e transportamos a cana...mais ou menos desprotegida. E no transporte, algo cai por cima dela e a cana tem de aguentar, em silêncio.

20- A arrumação da cana no porta-bagagem é a possível. Por grande aselhice, deixámos a ponteira debaixo de uma mochila, onde guardamos as chumbadas. Ou ficou debaixo da caixa do peixe, que escorregou para ali, quando nada o fazia prever. Pois…


A junção de duas secções é um ponto frágil da cana e merece algum cuidado adicional, que em montagem quer em limpeza. Esta amostra é uma Hydra, da Duo. À venda na GO Fishing Portugal.


Queria deixar-vos mais alguns conselhos para que a vossa cana dure muito mais do que dura normalmente uma cana nas mãos de um vândalo que de canas sabe zero:

1- É muito corrente que pedaços de iscas, ou escamas fiquem colados ao corpo da cana, ou aos passadores. Devem ser removidos com uma escova de dentes velha, não abrasiva.

2- A seguir, passamos uma esponja, embebida num detergente neutro, para lavar. A razão de utilizar um produto neutro é que algo mais agressivo pode retirar as pinturas que são gravadas na cana e que nos dão informações úteis.

3- Após utilizar uma cana, (e partindo do princípio que a lavou com água doce para retirar os salitres!!), não a deixe ficar molhada. Deve passá-la com um pano seco.

4- A nossa cana, cara a valer, não merece ser guardada numa arrecadação onde tenha de enfrentar permanente humidade. Ou pior, num local onde fique exposta ao calor, ou a apanhar os ultravioletas do sol, por exemplo. É o fim dela. 

5- Por vezes vamos pescar e quando terminamos a pescaria surge a possibilidade de irmos almoçar com os nossos colegas. A cana, infelizmente, não vai connosco. Fica no carro, exposta ao calor do sol durante duas ou três horas. Já perceberam…


E sabem quem tem de resolver todos estes casos e quem deve substituir a cana por estar ao abrigo da garantia?
O vendedor. Sim, esse vigarista, que nos vendeu um produto ruim, que não aguenta muito. Malandro!



Vítor Ganchinho



Comentários

  1. Mais um artigo maravilhoso.
    Bons conselhos e boas informações.
    É um gosto em ler este blog.

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    1. Boa tarde Carlos Canas de baixa qualidade, quando se partem, nós rimo-nos muito. Mas com equipamento topo de gama, é bom observar um conjunto de regras que ajudem à sua preservação durante muitos anos. Eu tenho equipamentos com os quais já pesco há anos e continuam a servir-me bem. Nós ganhamos estima por canas e carretos que nos dizem algo por termos histórias interessantes com eles. Fazem parte da nossa vida.
      A intenção deste artigo era mesmo a de chamar a atenção para alguns erros mais comuns, e que não ajudam em nada à manutenção dos equipamentos.
      Espero que as pessoas gostem, e que lhes seja útil.

      Abraço
      Vitor

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  2. Bons conselhos e boas informações há que estimar bem o material.....a ideia é não partir/estragar...só vale adquirir mais :-) ...nunca é demais :-)

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    1. Bom dia Simão Se tratarmos os materiais bem, duram uma vida. Por vezes são pequenos detalhes, mas que no fim são importantes. O problema é que as pessoas ignoram por completo quais os cuidados que devem ter, e mesmo quando os conhecem, ...encolhem os ombros e esquecem. Não deixa de ser uma incongruência muito grande, porque quando adquirem os produtos, lutam por uma poupança de 1 euro. A seguir estragam tudo por falta de manutenção. Os carretos, as canas, está tudo no mesmo rol. Não querem saber...

      De qualquer forma, e dando seguimento ao sentido do blog, o de informar, pareceu-me oportuno chamar a atenção.

      Abraço
      Vitor

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