A QUESTÃO DOS COMPRIMENTOS E CORES DAS AMOSTRAS

Vimos ontem alguns dados relativos à pesca com amostras nas desembocaduras dos rios, e das vantagens e desvantagens de pescar com ou sem amostras de pala.
Há duas questões que são pertinentes e que merecem a nossa atenção: os ruídos que estas fazem e a visibilidade que têm ou não têm.

Vamos ver por partes.
Num mar agitado, as ondas que batem contra a costa rochosa, ou que rebentam na areia, fazem barulho. Mais afastados da costa, em peões de pedra que saem fora de água temos a mesma situação.
Mesmo ao largo, e sem pedras por perto da superfície, ainda assim temos, em dias com algum vento, vagas que emitem sons, ruídos.
O peixe conhece bem isto. Sabe o que são movimentos de águas, correntes, espuma, etc. Nasceu por ali.




Em condições de temporal, o ruído que as nossas amostras fazem, soma ao barulho ambiente. Quando em casos extremos, pode mesmo acontecer que o predador nem se aperceba da passagem da nossa amostra.
Claro que podem ser interceptadas caso passem perto, mas dificilmente numa situação de turbulência máxima poderemos contar que a nossa amostra faça chegar a si um peixe vindo de longe.
Nestas condições mais difíceis, as amostras de pala são mais eficazes que as outras. Emitem vibrações de baixa frequência e isso passa no meio líquido com facilidade, logo é entendido de muito longe por quem está muito atento a essas …”anomalias”: o nosso robalo.
Contando com este dado, resta-nos tirar partido dele e escolher correctamente a nossa amostra. A grande questão é mesmo essa escolha, como decidir qual o modelo certo, aquele que nos pode proporcionar melhores resultados.




Nem sempre teremos condições extremas, e por isso nem sempre será necessário recorrer a amostras de pala. Deixamos isso para dias em que pescamos na rebentação, em que está mar formado, e estamos a passear a nossa amostra num reboliço de espuma.
Há que considerar que as possibilidades que o mercado nos oferece são suficientes para quaisquer condições de mar. Isso é ponto assente. Temos mesmo muito por onde escolher, mas atenção: não adianta comprar sem critério.
Poderemos criar mentalmente uma escala de valores, em que temos mar muito alto, mar médio e mar baixo.

Mar muito forte, elevado: a tradicional amostra de pala leva vantagem. A sua recuperação é linear, não adianta muito inventar qualquer outro tipo de acção. O tamanho a eleger deverá andar na ordem dos 14 a 18 cm, o que já pode ser considerado grande.
Considerando que temos mar alto, seguramente que os peixes que se aguentarem nele terão de ter algum tamanho, algum peso. Não irão achar que os 18 cm são grandes, podem até pelo contrário achar…pequeno. Em mar difícil só lá anda quem tiver condições para isso.
Assumimos que a visibilidade pode ser muito reduzida, pelo que é de considerar a utilização de amostras com esferas dentro. Porque lançam mais longe, e porque fazem aquilo que se denomina de “rattling”, um ruído que chama a atenção de peixe, em situações de mar formado.
É mandar-lhes com o arsenal de amostras grandes que tivermos, e ter muita fé que um peixe pode vir a “encalhar” com uma delas. As linhas a utilizar não têm de ser finas. Pelo contrário, é o momento de “carregar” um pouco mais no diâmetro, já que não estamos por robalos pequenos.
Devemos conseguir lançar longe, e recolher devagar, deixando a amostra fazer a sua parte. Esta é uma pesca que exige alguma paciência, a procura vai no sentido de um bom exemplar, com tudo o que isso tem de imponderáveis. A recuperação deve ser lenta, dando tempo a um peixe que está às cegas e depende de tudo menos da sua vista para caçar.

Mar médio, com vaga: aqui passamos a ter muito mais certezas. Aumentam as possibilidades de podermos controlar aquilo que se passa à nossa frente. Podemos aligeirar as amostras, as linhas, até porque a água tem alguma visibilidade. Para quem pesca de costa, lançar atrás das ondas, atrás da rebentação, pode dar uns peixes de bom tamanho. É tempo de passarmos a amostras que lançam longe, bem balanceadas, eventualmente com pistons internos, e que aproveitam a menor força do vento para voar mais longe. Também, mercê de linhas mais finas, teremos mais facilidade em as colocar longe.
O comprimento não tem necessariamente de ser curto, acima de 12 cm vai sempre bem, mas os 16 cm parecem perfeitos. Todavia, são amostras com menos peso e atrito que as que utilizaríamos em mar forte. A particularidade é que podemos trabalhar com um outro tipo de pala. Já não é decisivo que o apêndice bucal seja demasiado largo, passamos ao que se convencionou chamar de um “jerkbait”, com uma natação irregular, a chamar ainda assim a atenção do nosso robalo de uma distância considerável. A pala mais estreita já nos permite introduzir variações de velocidade de recuperação. A pala curta é menos reactiva à pressão da água, e isso permite uma natação mais “doce”, mais suave, menos agressiva quando recuperamos linha a uma velocidade regular. O apoio na água é menor que nas grandes amostras, e isso pode ser interessante porque não assusta os peixes mais desconfiados. Não é amostra para mar forte com demasiada corrente. Nesses casos, a amostra pode perder a sua linha de natação muito rapidamente, atinge os seus limites técnicos muito depressa. Para além disso, há que considerar que à medida que aceleramos a recuperação, também aumentamos a produção de vibrações, e isso pode ser negativo. No limite, se recuperamos linha demasiado depressa, pode acontecer que o robalo nem queira gastar energia a correr atrás de uma amostra que vai rápido demais, que demonstra vitalidade a mais. Queremos o jerkbait para pescar em mares médios, e a resposta é francamente boa, se acertarmos com a velocidade correcta.
O factor velocidade pode ser decisivo. Ter a velocidade certa é importante, e para a encontrarmos devemos antes de mais, meter a mão na água. Está fria, está quente? Com essa resposta, sabemos se o peixe está para corridas, ou se pelo contrário, com a água gelada, devemos dar-lhe um pouco mais de tempo. Fazer a recuperação mais lenta pode ajudar. Se estamos num local com robalos e não picam, seguramente estamos a fazer algo que não devemos. As amostras são estas:


Estes são modelos Haluca da marca japonesa Smith, distribuídos em Portugal pela Go Fishing. Com águas limpas, ou próximo disso, devemos privilegiar cores naturais.


Mar calmo, liso, ou quase liso, à superfície: aqui dependemos muito mais de nós e das nossas opções, do que em qualquer das duas situações referidas acima. É o tempo de olhar de frente para o mar e perceber se temos de ir lá abaixo procurar o peixe, em pesqueiros mais fundos, ou se pelo contrário, ele está mesmo à superfície, bem ao nível do nosso barco, ou da praia de onde pescamos. Se temos fundos importantes, e se o peixe está fundo, não há muito que saber, há que ir buscá-lo lá abaixo. Para isso, utilizamos uma amostra com pala mais comprida, que nos oferece a possibilidade de, sustentada pela tracção que fazemos com a nossa linha, afundar mais e mais a cada manivelada.
Os fabricantes fazem testes e normalmente na embalagem reportam isso. Podemos saber a que profundidade irá descer e assim podemos decidir por esta ou aquela amostra. São amostras que descem, e que podemos armar com duas fateixas, dois triplos bem afiados.
Queremos que o primeiro contacto seja decisivo. Não há que poupar nas fateixas, a sua qualidade tem de ser irrepreensível. Testem as Nogales, da Varivas e entenderão o que é uma fateixa que espeta facilmente. O peixe toca e fica preso.

Eis dois bons exemplos, da marca Smith:


Estas amostras emitem vibrações persistentes, e podem ser muito úteis em situações em que necessitamos de chamar a atenção do peixe. Mas pode não ser sempre assim.
Nem só de vibrações vive a nossa pesca. Há muitos outros factores que entram em linha de conta. Tenho para mim que as amostras devem ser utilizadas com inteligência, com conhecimento do peixe, do pesqueiro, das condições em que pescamos.
Consideremos águas mais baixas, um pesqueiro pouco profundo. Pode estar lá um robalo grande! Os peixes grandes visitam regularmente os pesqueiros baixos, para comer porque é aí que está a sua alimentação mais fácil.
E para pescar baixo, já não podemos pensar em amostras com palas largas, mas sim algo diferente. Pode acontecer que a amostra certa seja outra, diferente de todas as que apresentei acima. Parece-me importante analisar o mar, entendê-lo, e partir daí para a escolha da amostra indicada.
Que pode ser uma ...sem pala. E aqui chegamos a um outro campeonato! Pescar com amostras sem pala já não é para todos, é para quem conhece o peixe e as suas reacções. Falamos de dinâmica de recuperação, de intercalar períodos em que recolhemos linha, com alguns breves segundos em que paramos a amostra por completo. Volto a repetir: pensem pelo lado do peixe! Uma presa que está perdida, que nada alguns metros e de repente fica sem forças, que pára, que volta a tentar fugir mas …não consegue, é um peixe fraco, debilitado e que pode ser capturado sem esforço.
Aqui, o estimulo de predação é máximo: num caso destes, um peixe que se encontre activo, a caçar, dificilmente não morde.


Exemplos de duas amostras Smith que funcionam muito bem com robalos, com lírios, etc. As cores naturais reproduzem as presas que o robalo caça habitualmente.


Quando temos situações em que há ausência de vento, lançar amostras leves pode ser mais complicado. Sempre que possível devemos tentar colocar-nos na posição que nos é mais vantajosa, que é precisamente a de lançar a favor de alguma réstia de vento que exista. Um pescador cauteloso, avisado, leva consigo vários tamanhos, cores e pesos diferentes de amostras. Decide em função daquilo que está a observar no local. Se estamos a pescar numa zona muito queimada, muito apoquentada por pescadores, a melhor estratégia para conseguir uma caixa de peixes pode ser fazer tudo ao contrário deles. Sabemos que a maior parte das pessoas pesca com linhas demasiado grossas. É aquilo que chamo de “coeficiente de cagaço”….o medo de deixar ir embora um peixe grande. Por isso, colocam no carreto linhas com diâmetro máximo, grossas, fortes. E começam aí os problemas! Porque logo a seguir, estão limitados na distância a que conseguem lançar. Lançam perto porque a linha não flui nos passadores, na ponteira da cana. É rija, trava, e oferece muita resistência a sair da bobine, e mais ainda a voar pelo ar.
Solução: o artista coloca uma amostra pesada, que leva tudo à frente, que sai, nem que seja à força de um estiramento no ombro. E chega o momento dessa amostra aterrar na água. O efeito é o da queda de um bloco de cimento. E não há picadas.
O peixe quando desconfia, faz aquilo que nos desarma por completo: fecha a boca, não come. Sem isso, tudo o que fizemos antes resulta em zero. Estamos a esquecer que as presas dos robalos tentam, acima de tudo, passar despercebidas, logo não fazem uma natação agressiva, sobressaltada.
Há mesmo quem coloque chumbos fendidos na linha, para atirar mais longe. E tudo começou num erro de casting: a pessoa comprou a linha errada. Tudo o que decorre daí é afectado por um primeiro erro.
Aquilo que resulta para o robalo em spinning é algo entre o PE1 e o PE1.5. Uma baixada entre o 0.28 e o 0.33mm, em fluorocarbono, e está bem. Mais que isso e já estamos a falar de uma corda que pode pescar, mas também pode rebocar um camião.
Tudo tem o seu ponto de equilíbrio, a sua potência e resistência certas. Decidir sobre a peça certa pode ser diminuir o tamanho da amostra, reduzir o ruído do impacto na água, tornar a amostra tão discreta quanto possível.
Não imaginam aquilo que é possível fazer num cardume de robalos, com uma amostra pequena, silenciosa. Como esta, da Smith:

Algo como isto: um peixinho sozinho, abandonado, perdido do seu cardume. Está a pedir…dentes.


Quando se quer comprar uma única amostra e já está, ….pois está tudo decido antes mesmo de sair de casa.
Mas há outras formas de pensar e executar.



Vítor Ganchinho



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