ESPÍRITO DE PARGO

Como um presidiário com pena perpétua, riscamos traços nas paredes, para nos entretermos. Para passar o tempo.
Contamos os dias que faltam para podermos sair a pescar. Confinados a quatro paredes, após dias e dias, meses e anos, chegamos a um ponto em que já nos falta o ar para respirar.
É verdade que estamos com a família, estamos em casa, em paz com o mundo, nas melhores condições possíveis, mas falta-nos a excitação e a incerteza da pesca.
Falta-nos a água salgada, falta-nos o mar, … o seu azul profundo, a sua longínqua linha de horizonte.


As nossas mulheres não deveriam querer-nos em terra. Tornamo-nos moles, malandros…e aborrecidos.


A dada altura, há que sair. Com melhores ou piores resultados, aquilo que temos a fazer é mesmo pegar na mochila dos acessórios, na bolsa das canas, e entrar para um barco e largar ferro.
Nem sempre temos a sorte de conseguir pescar peixes grandes. A ser assim tão simples, provavelmente nem seria tão estimulante. Sabemos isso quando, ao fim de um determinado número de peixes fáceis, deixamos de achar interessante continuar a pescá-los. Demasiado fácil não estimula, aborrece. Bom mesmo é termos de ultrapassar os nossos limites, ir ao fim dos nossos conhecimentos técnicos, para conseguirmos um bom peixe.
Se tivermos a sorte desse exemplar ser um pargo grande, então a felicidade é extrema.
Há, à volta do pargo, um clarão de luz, uma aura brilhante, que muitas outras espécies de peixes não têm. Seja pelas lindíssimas combinações de cores vermelho rosado, seja pela força que consegue desenvolver, pelo tamanho que atinge nas nossas águas, pela sua perspicácia, mas também pela violência dos seus ataques, há algo que o torna absolutamente especial para a pesca. O pargo na pesca vertical, a par do robalo na pesca de spinning, são sem dúvida os peixes que mais procuramos pescar.
Não os deixamos crescer. A exemplo do que fazemos com outros espáridas, e a dourada é um bom exemplo disso, temos a terrível doença de gostar tanto deles que somos incapazes, depois de os termos nas mãos, de os deixar de novo ir à sua vida, no fundo do mar.
É uma pena que assim seja. Uma dourada de 19 cm, ou um pargo de 20 cm, são apenas projectos do grande peixe que aí vem, o animal que nos dará um dia uma alegria imensa.
Quando ficamos com eles, quando os fazemos morrer com esse tamanho diminuto, estamos a abdicar de um dia conseguirmos esse peixe com 90 cm de comprimento. E necessariamente com outro peso, com reprodução feita.

Todos vós sabem que sou frontalmente contra os tamanhos mínimos legais dos peixes que capturamos no nosso país. O Anexo XII do Regulamento (CE) nº 850/98 e Portaria nº 27/2001 regulamentam-nos.

O método de determinação dos tamanhos mínimos dos peixes, moluscos e crustáceos é o estabelecido pelo Regulamento (CE) nº 850/98 [Artº 48º, nº 3 do Decreto Regulamentar nº 43/87]. Complementarmente, alguns métodos de determinação de tamanhos mínimos encontram-se também estabelecidos pelo Anexo à Portaria nº 27/2001. Pois por mim, bem podiam limpar as mãos à parede com as medidas mínimas legais. Nunca irei considerar que um pargo de 20cm é um opositor forte, com capacidade para me dar luta, e ao qual eu terei de aplicar os meus conhecimentos, tudo o que sei, para o fazer morder uma isca. Pelo contrário, trata-se, a meu ver, de um pequeno peixe juvenil, que muito provavelmente ainda não viveu o suficiente para poder ter qualquer tipo de desconfiança, de manha, de saber, para me poder desfeitear. O mais normal é que sucumba à apresentação de um isco.
Todavia, é legal.


Este conseguiu vencer todos os obstáculos até ao peso de 10.9 kgs. Neste dia, bateu contra um jig de 30 gr…da Shimano.


Resta-nos a consolação de pensar que não os iremos nunca pescar a todos, e que alguns chegarão a adultos, a ser os peixes que tanto queremos imortalizar em foto. E que orgulho justificado temos num pargo de 6, 7 ou 8 kgs!!
Pescar um pequeno peixe de 20cm não nos dá isso. Aquilo que trazemos infelizmente não é um pargo, é um projecto de futuro grande pargo.
Sendo forte para o reduzido tamanho que tem, não teve ainda tempo de desenvolver as suas capacidades máximas de luta, de força, porque essas só lhe iriam chegar quando mais velho.
Para quem não sabe a diferença, para quem os pesca quando eles têm 500 gramas, e os acha fortes, espere pelo dia em que terá a picada de um com 10 kgs, e saberá entender o quanto pode ser diferente.
É verdade que há muito mais pargo na nossa linha do que aquele que estamos a matar. Há mais peixe, mais genética, resistência, …mais pargo, que afinal não trazemos.
Muito do peixe que julgamos trazer para nossa casa, afinal fica no mar, livre, a sobrevoar as pedras, a controlar os cardumes de peixe miúdo, a perpectuar a resistência que trouxe esta espécie até aos dias de hoje.
Há todo um legado de força, de capacidade de sobrevivência, que não trazemos. Felizmente não acaba tudo com a morte de um só daqueles pequenos peixes rosados. O seu espírito de espécie resistente perdura, fica por lá, nas pedras, nas correntes, nas marés.
Outros pargos irão colocar-nos dificuldades, incertezas, interrogações, irão levar-nos a um perfeito estado de desespero por não sermos capazes de os enganar.
Os mais importantes serão sempre aqueles que nos escapam, os que não picam. É com esses que aprendemos.
São precisamente esses que irão fazer perdurar o espírito de pargo: a força, os ataques violentos, mas também a subtileza, a capacidade de escapar a iscos, às nossas amostras, e pior que isso, ser capaz de nadar para longe dos quilómetros e quilómetros de redes.
Não será fácil ser pargo em lado nenhum do mundo, e seguramente não o será em Portugal. Mesmo um minúsculo ser que a lei considera como suficiente para que a sua pesca seja legal, já passou por muitas dificuldades.
Mas dos 20 cm até aos 90 cm que podem atingir, dos 200 gr até aos 12 kgs de peso máximo se falarmos de “Pagrus pagrus”, vai toda uma distância. Vão quase 10 anos de distância.
Por favor, libertem os juvenis, os peixes de 20 cm, para podermos amanhã ter pargos grandes.



Vítor Ganchinho



Comentários

  1. Bom dia Vítor,

    E assim deveria de ser, libertar os pequenos para ambicionar uma captura de sonho.

    Rever os tamanhos mínimos deveria de ser a primeira ação, outras medidas adicionais deveriam também de ser adotadas, falo nos nos defesos em estuários, durante o período das desovas.
    Não entendo o porquê de tanta demora em tomar ações nesse sentido.

    Não consigo abrir / pesquisar os links que deixou com os catálogos.

    Abraço,
    A. Duarte

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    1. Olá António


      Veja se consegue abrir desta forma:


      https://www.daiwa.com/jp/fishing/information/catalog/index.html


      http://fishing.shimano.co.jp/product/catalog/digitalcatalog/digital_catalog.html

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    2. Boa noite Vítor,

      Já consegui visualizar, obrigado.
      Estou literalmente de olhos em bico!
      Amanhã ligo lhe e falamos por telefone.

      Abraço,
      A. Duarte

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    3. OK Antonio A gama japonesa de produtos é muito maior que a europeia.
      Eles fabricam de tudo....

      Abraço
      Vitor

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