SLOW PITCH JIGGING - CAPÍTULO 1

Falamos de slow jigging como quem fala de marmelos. A maior parte das pessoas nem consegue ligar a palavra à prática do slow jigging, ao acto de pesca em si, quanto mais ter a noção, com propriedade,
da diferença entre slow jigging, speed jigging, long fall, short pitch, etc. Fico arrepiado quando sou contactado por pessoas a dizerem-me que fazem “slow jigging” com amostras de superfície, ou seja, …com “Rapalas”.
Ou que preferem o slow-jigging ao spinning, porque lança mais longe. Atiramos atoardas para o ar como quem descasca castanhas.
Porque me parece pertinente esclarecer alguns conceitos, aí vai um trabalho com alguma informação sobre o assunto. Vou dividir em diversos capítulos, porque seria moroso e cansativo reduzir a um dia de leitura tanta informação.
Como de costume, e porque o compromisso são cinco minutos de leitura, mesmo depois desta semana dedicada ao slow jigging, muito ficará por dizer. Seguramente voltarei ao tema meses mais tarde, com uma diferente roupagem e perspectiva mas a pesca é isto mesmo, é algo de infinito nas suas múltiplas nuances e formas de ser vista, de ser vivida. Pescar é algo de diferente para cada um de nós.


Pescar com jigs há muito deixou de ser algo de "estranho"...


Traduzindo à letra o Slow Pitch Jigging, seria algo como ”Jigging de passo lento”. Efectivamente, trata-se de uma variante que contrasta em absoluto com a verticalidade e sofreguidão do jigging rápido, sobretudo se pesado, que nos deixa extenuados em minutos.
A pescar rápido, somos obrigados, por limitações físicas, a repousar de quando em quando, mesmo possuindo bom material de pesca. Não tem de ser assim. Não temos de nos sacrificar a sofrer martírios para poder pescar. É um pouco isso que acontece quando passamos à versão acelerada do speed jigging.
O slow jigging não, deixa-nos respirar, deixa-nos saborear o momento da pesca pela pesca, pelo acto de enrolar uma linha e tentar prever o que poderá vir a acontecer a seguir. Baseia-se em conceitos de pesca algo simples, que todavia não deixam de ser eficazes. Vamos falar sobre eles mais abaixo.
É um facto de que existem hoje nas prateleiras das casas de artigos de pesca, por todo o país, jigs anunciados como lentos, para pesca jigging lenta. As novas cores, formas e feitios sucedem-se, e isso, permitindo uma maior amplitude de escolha, traz também dúvidas a quem não sabe definir com precisão aquilo que lhe interessa. Por todo o país, temos expositores repletos de “promessas” de pescarias miraculosas. Há razões para que os distribuidores os tenham em stock, mas ainda há mais razões para não os comprarmos de ânimo leve. Devemos refrear a paixão súbita e ser mais racionais. Primeiro e antes de mais, devemos balizar aquilo que nos faz falta, e, como dizia antes, ser racionais na escolha. Nunca por nunca gastar demasiado dinheiro em experiências que podem vir a revelar-se infrutíferas.
A saber: existe alguma relação entre as pessoas da loja que vendem os artigos de slow jigging e a prática de pesca efectiva? Quem vende…pesca? Sabem mesmo do que falam? Os artigos estão expostos segundo algum critério? A pessoa que os encomenda à fábrica pesca regularmente com eles ou apenas os vende?...
Com tanta variedade de formatos, de cores, de pesos, como ter a certeza de que estamos a fazer a escolha certa?




Parece-me que é de bom tom pôr um travão na compra por impulso. A compra …“para ver se resulta”. Na maior parte dos casos, estamos apenas a encher caixas de amostras, sem sabermos o que fazer com elas a seguir.
No Japão, um país que não é mais do que um conjunto de ilhas e onde se pesca com jigs desde tempos imemoriais, e de onde são originários, a prática da pesca com estas peças de chumbo é algo de tal forma enraizado que há muitos milhões de pescadores que nem equacionam pescar de outra forma.
Se quiserem, a quantidade de pessoas que pesca com iscas naturais é tão reduzida que poderíamos afirmar que há uma relação inversa para a quantidade de utilizadores de jigs em Portugal. De um lado é só pescadores de jigging, do outro é só pescadores de iscos orgânicos.
Em Portugal, todavia, os jigs começam a ganhar popularidade. O impacto que estão a ter no nosso mercado advém da sua facilidade de utilização, (uma caixa de jigs está sempre pronta para sair a pescar) e dos resultados obtidos. E esse impacto seria maior caso as pessoas tivessem a real noção do quanto pode ser, para além da produtividade da pesca, a dimensão do divertimento que nos proporcionam.
Nas últimas décadas, e à excepção das linhas trançadas multifilamento, das canas em carbono, poucos materiais terão mudado tanto a nossa forma de pescar como os jigs. Com formatos mais ou menos bonitos, mais ou menos cores, e sobretudo com maior ou menor qualidade, e por isso mesmo versatilidade e eficácia, os jigs vieram revolucionar a forma como nos apresentamos ao peixe. Hoje, indiscutivelmente, pode pescar-se de forma diferente! Há meios técnicos para isso. Depois se as pessoas os utilizam, ou se sabem utilizar ou não, …isso são outros quinhentos.
Comentava à dias com o meu amigo Carlos Campos, ao retornar de uma pescaria, que a evolução da pesca nos últimos 40 anos foi tremenda. Da bobine de linha de mão em nylon, com chumbada e anzol, à cana de fibra de vidro de uma braça, às canas de carbono de ponteiras finas, foi um salto tremendo. Isso veio modificar a forma como se pescou até aqui, sem dúvida. Os peixes sentiram o impacto disso, saltaram para as caixas térmicas com muito mais facilidade.
Hoje, indiscutivelmente e por força da acrescida pressão de pesca profissional, mas também pela tremenda eficácia dos equipamentos à disposição dos pescadores lúdicos, há menos peixe disponível nos pesqueiros. Não vai passar a ser diferente para melhor, e se alguma tendência existe é precisamente no sentido contrário. Assim sendo, partindo do princípio que se pretende continuar a pescar, há que inovar, adoptando outras formas de exercer a pesca, outras formas de chegar ao peixe. Nomeadamente aos predadores, que antigamente apenas eram capturados a sério por algumas pessoas mais esclarecidas, e por força da utilização de iscos orgânicos volumosos. O passo seguinte, aquele que estamos a dar agora, é precisamente o de inventar uma estratégia diferente de chegar a esses predadores, conseguindo convencê-los a fazer a única coisa que não podemos fazer por eles: morder uma isca/ amostra.
Utilizados correctamente, os jigs lentos são desde logo uma arma poderosíssima. Tornaram possível a captura de peixes que estavam a salvo quando recorríamos a iscas como a navalha, o ganso, o casulo. Os maiores exemplares de pargos não pegavam nisso, e nadavam seguros, no meio dos cardumes de carapau, cavala, sardinha, cumprindo aquilo para que se prepararam: comer e engordar. Os pargos a partir de um determinado peso e tamanho, ignoram por completo um casulo, uma minhoca.
Mas eis que surgem os jigs. E porque passámos a ser capazes de imitar o comportamento de presas vivas mas debilitadas, os pargos grandes passaram a fazer parte da nossa lista de capturas. E os robalos, e os lírios, os atuns sarrajões, e até …as douradas. E todos os outros peixes que acabam por ser predadores, os sargos, as abróteas, os…peixes aranhas e os …ruivos! Todos os que comem seres vivos que nadam, são potencialmente passíveis de serem enganados com um jig.


As cores das peças de hoje nada têm a ver com aquilo que estava disponível há 20 anos. Aqui um jig com holograma que lhe confere …vida.


Se é verdade que há uns anos os jigs eram algo de tosco, e todavia funcionavam, hoje em dia já temos peças que são imitações quase reais das presas que representam. Na GO Fishing Portugal existem jigs, da marca Zeake, que são peixes muito idênticos aos que os robalos comem, ao que procuram, aos peixes estavam a caçar à momentos atrás. Com boas mãos, com bons equipamentos, canas, carretos e linhas, e com um pouco de habilidade de mãos, é possível reproduzir na perfeição movimentos reais de peixes a tentar escapar dos predadores. E a evolução é tremenda! Quando pensamos que já não é possível fazer melhor, os fabricantes surpreendem-nos com algo de novo. A cada dia estão mais iguais, mais idênticos a um pequeno peixe debilitado, ferido, perdido. A pedir dentes, pois então.
Olhando para os jigs que existem hoje em prateleiras das melhores lojas de pesca do país, aquilo que vislumbramos é uma tentativa de reproduzir as cores naturais, os pratas, os verdes, os azuis, para utilização em águas claras, transparentes. E outras cores mais chamativas, mais flash, para dias de água mais turva. Temos à disposição jigs com pinturas fosforescentes, luminosas, para ambientes escuros, temos cores que mudam, consoante o ângulo em que o jig é visto, os jigs holográficos, que imitam movimento e vida. No fundo, temos tudo. Falta-nos sobretudo...pescar.

A seguir, e aqui já entrando concretamente no campo do Slow Jigging, temos as formas. São elas que definem o desempenho do jig. Sabemos que jigs estreitos, as ditas agulhas, mergulham muito rapidamente, e isso pode ser de toda a conveniência quando pescamos em correntes, ou zonas muito fundas. E também sabemos que os jigs mais curtos e largos, as “chapas”, planam na água, por oferecerem mais resistência à descida. Haverá uma multidão de formas que vão beber a um e a outro modelo e serão…intermédias. E a cada situação corresponde um modelo de jig indicado.
Mas vamos hoje focar-nos nos jigs lentos, logo naqueles que são mais curtos e mais largos. São eles os jigs a utilizar em situações de ausência de correntes, correntes lentas, ou fundos baixos. Estes jigs descem mais devagar, e permitem que os recuperemos do fundo à superfície mais …devagar. Porque gastam mais tempo a planar, descem lentamente, e isso pode ser importante se quisermos dar mais tempo ao predador para se decidir e ter, em tempo útil de reacção, capacidade física para o perseguir e conseguir morder. Digamos que dará mais tempo aos peixes que se encontram mais próximos do local de descida e subida do jig, para poderem atacar.
Estes jigs são trabalhados de forma mais lenta, mais suave e constante. Trabalham muito a componente vibração, que é entendida pela linha lateral do peixe.
Se é verdade que algumas espécies preferem correr e atacar o jig, e os lírios e alguns atuns são um bom exemplo de peixes tão rápidos na água que, puxando nós a um ritmo lento, têm tempo para perceber que o jig não é mais do que um engano. Mordem, mas mordem jigs rápidos, que não lhes dão tempo a entender o que estão a morder.
Assim como existem outros peixes que são fisicamente menos rápidos, e por isso mesmo necessitam de mais tempo para poderem preparar o seu ataque. E é aqui que chegamos ao slow jigging.




E quem pesca com jigs? Por defeito, todos os que pescam, poderiam pescar com jigs. Sabemos que não é assim, porque muitas pessoas não chegam sequer a ter uma única oportunidade em toda a sua vida. Outros acabam por se reciclar, por mudar a agulha e chegam lá.
Pessoas que gostam de pescar com vinis, com iscas artificiais macias, muito rapidamente se apaixonam pela pesca com jigs. E dentro dessa especialidade, os jigs lentos.
A dada altura, temos que algumas pessoas passam a fazer as duas coisas: em pesqueiros baixos pescam sobretudo com vinis, muito mais eficazes que os jigs, mas quando a profundidade começa a fazer-se sentir, …mudam para jigs e continuam a pescar. E bem.
Amanhã vamos ver algo de mais concreto sobre esta técnica.



Vítor Ganchinho



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