A TENTAÇÃO DA MAÇÃ...

Numa ou noutra ocasião, já quase toda a gente se sentiu tentada a praticar tipos de pesca diferentes. Para sair da rotina, arejar, ter novas sensações, ou pura e simplesmente para escapar a uma monótona pesca, de modestos resultados. Se é verdade que a pesca vertical já teve os seus dias, já deu mais alegrias que as actuais, ainda assim é no entanto a modalidade que mais adeptos congrega, a que mais gente motiva a sair de casa. Porque é a forma mais barata de fazer pesca embarcada, a que melhor permite diluir os custos por um número superior de elementos.

As outras técnicas, quiçá por serem recentes entre nós, (da forma como as praticamos hoje, porque o jigging, por exemplo, pratica-se por cá vai para 100 anos, os antigos pescadores de bacalhaus da Terra Nova pescavam com... jigs), têm muito menos adeptos e dinamizam muito menos gente.
Não pelos resultados, que são normalmente satisfatórios, mas pelas condições de exclusividade que impõem aos praticantes.
O equipamento em si nem sequer é algo demasiado oneroso, não muito mais caro que os acessórios com que se pesca tradicionalmente.
Mas pela sua especificidade, não permitem a utilização para outras técnicas. Uma cana de jigging destina-se essencialmente a fazer... jigging.
Também as condições de pesca desta modalidade não são iguais às que permitem, por exemplo na pesca embarcada vertical, a instalação de 20 ou mais pescadores, lado a lado.
Vocês sabem que me refiro a pessoas que são “acantonadas” ombro com ombro, com menos de 1 metro para poderem pescar. Não vale a pena pensar que o jigging, o spinning, ou o LRF, permitem isso.

Quer o LRF, quer o jigging tradicional são pescas que apresentam resultados de bom nível, mas quando praticadas por poucos elementos, com um controle relativo sobre o comportamento dos exemplares de maior porte que se encontram sobre a pedra. Ter 20 jigs a cair sobre o mesmo peixe é algo de absurdo, que nem chega a ser duvidoso, porque não há dúvidas quanto ao resultado final. O peixe vai embora e não volta.

Da mesma forma, experimentem colocar 20 pessoas a lançar amostras para o mesmo local e constatarão que os resultados desse dia de spinning são nulos. Zero picadas.
Tudo tem o seu preceito, a sua forma de ser feito, e o jigging ligeiro, conforme é e deve ser praticado em Portugal, implica alguma discrição, aproximação silenciosa da pedra, e um número limitado de participantes.
Sempre que saio com muita gente, o resultado final é um inusitado número de enleios, de gente que pragueja, que faz ruído com os pés no fundo do barco, que deixa cair canas, empurra geleiras, e assim sendo, nada feito. O peixe é muito sensível a tudo o que são barulhos, e distingue perfeitamente todos aqueles que não fazem parte do seu mundo.
Com excesso de ruído, o peixe deixa-se ficar em recato. E basta-lhe isso. Basta que não abra a boca, para que toda a acção de pesca fique inviabilizada.

Mas, pescar jigging não é impossível para quem tem vontade de experimentar, para quem tem a tentação de sair da sua zona de conforto.
Os custos serão evidentemente superiores aos da pesca vertical, porque as despesas fixas do barco incidem sobre muito menos pessoas.
Mais que isso, as deslocações são normalmente mais longas, implicam mais milhas de mar, mais combustível. Ninguém se levanta da cama para ir fazer jigging a meia dúzia de metros do porto de abrigo.
Por isso mesmo, há que assumir que os custos serão superiores, e suportados por menos gente. Não falta quem tente contestar, quem procure uma saída de jigging ao mesmo valor das pescas baratas, quem queira uma selecção de bons peixes ao preço da chuva, mas a realidade é diferente e absolutamente impiedosa.
Não há forma de solucionar, não há forma de tornar barato aquilo que é inevitavelmente caro.


Desenho de Mafalda Ganchinho, 12 anos, pescadora de jigging.


Para aqueles que, ainda assim aceitam o desafio, há premissas que terão de ser cumpridas:

1- A selectividade que os pescadores de jigging impõem a si próprios impede que se verifiquem situações de recolha de tudo aquilo que pica.
O pescador de jigging não aposta na quantidade, mas sim na qualidade. Um dia com dez peixes de bom tamanho é algo que não ocorre todos os dias, até porque excederia o peso máximo legal por pessoa, mas também é raro que não se tenham uns quantos toques de peixes de maior calibre. Há sempre oportunidades. Pescam-se menos peixes, mas de maior tamanho, isso sim.
Mesmo poucos, esses peixes serão sempre motivo de destaque quando comparados com a pobreza franciscana que se observa nas caixas de peixe da pesca vertical.
Um conjunto de alguns pargos, de robalos, de lírios ou qualquer outro dos peixes habituais em jigging fará sempre boa figura quando comparado com as habituais dezenas de peixes miúdos da pesca vertical.

2- O ambiente a bordo não é, indiscutivelmente, o mesmo. Porque já saí em traineiras com duas dúzias de pescadores, sei que a “descontração” geral induz a uma linguagem onde o vernáculo é lugar comum.
A maioria das pessoas aceita essas condições porque não conhece outras, ou não se sente incomodada. Mas o nível não é de todo …demasiado elevado…

3- O espaço de trabalho passa a ser bem superior e é necessário, porque meter a bordo peixes com tamanho implica melhores condições para o fazer. É muito corrente que as pessoas se ajudem mutuamente na tarefa de embarcar peixes de qualidade. Há mesmo um espírito de companheirismo e entreajuda que fortalece os laços de amizade entre as pessoas. Para além disso, quando se faz jigging, é natural que os reduzidos grupos se repitam, o que cria uma ligação, um histórico de pesca, que promove o companheirismo.

4- Num barco atestado de gente, a qualidade das imagens que é possível fazer é reduzida. Temos sempre uma perna, um cotovelo na frente, uma cana, e pedir a alguém que tem um espaço de um metro para si para… se afastar….é perda de tempo.
Por vezes, a foto é a única coisa que verdadeiramente importa, o peixe, esse pode até acabar por ser libertado. E essa é uma outra característica das pessoas que fazem jigging: vivem o lance, o momento, guardam para si a excitação de uma peleia digna, e a partir daí, ficar com o peixe é algo que interessa pouco. Guardar uns quantos peixes sim, mas muitos deles serão naturalmente libertados, por não corresponderem ao pretendido, por serem menores que outros que já estejam na caixa, ou porque pura e simplesmente deram tanta luta que merecem uma segunda oportunidade. Há uma grande diferença entre a pesca extractiva, pescar para comer peixe, e a pesca pelo ir ao mar, pela execução técnica, pelo entendimento do comportamento das espécies e do próprio mar.

5- A sensação de liberdade que indiscutivelmente o jigging permite. Não estar amarrado ao fundo, sentir a força do vento, das correntes, entender a importância da colocação da embarcação no obtenção de resultados, tudo isso é motivador.
Mais que isso, é a partilha de informação, a noção de que o trabalho em conjunto pode contribuir para a obtenção de melhores resultados para as três ou quatro pessoas a bordo. A visita a diversas pedras permite também ficar com uma ideia geral do stock de peixe disponível nesse dia.


São nobres os peixes que aparecem a quem pesca jigging. Para conseguir este tipo de definição é preciso espaço e tempo, conseguir o enquadramento certo, que transmita esta sensação de calma, de respeito pelo peixe, sem sangue, sem nada mais que a beleza pura deste magnífico exemplar. Excelente foto.


Penso que esse será um dos factores que mais atrai a quem se sente tentado a derivar para outro tipo de pesca, o de querer sair da mediania de capturas que a pesca vertical proporciona.
É desgastante passar o dia a sofrer, a lutar encarniçadamente contra toques de peixes minúsculos, que se aproveitam das suas pequenas bocas para ratar os iscos de quem pacientemente os prepara.
Nada mais frustrante que enrolar 70 metros de linha, preparar duas iscadas perfeitas, lançar de novo e passados cinco segundos, constatar que ficou sem isca de novo. E recolher a linha mais uma vez, massacrar o braço dezenas de vezes, apelar à manivela do carreto mais velocidade, e …voltar a repetir. É um suplício de Tântalo pescar nessas condições. Ao fim de um dia, e caso a paciência se esgote e seja lançada a bomba atómica, leia-se a colocação de anzóis muito pequenos, o balde estará meio de “miudezas” para fritar.
Não é vida.

É precisamente esse o objectivo do jigging. Assente num conceito de selectividade, todo o esforço de pesca vai no sentido de escolher os peixes, reduzindo ao máximo as possibilidades de captura de todos aqueles que não têm interesse desportivo. E nós podemos perfeitamente fazer isso nas nossas águas, sem ter de sair para fora, sem ter de ir procurar em paragens longínquas aquilo que temos à nossa porta.
Por cá, uma saída de mar em que temos meia dúzia de toques, pode significar uma manhã bem passada. Na pesca vertical, isso seria o desastre absoluto, porque meia dúzia de peixes de 100 gr não tapam o fundo do balde, mas quando se faz pesca com jigs, e sobretudo com jigs ligeiros, entre os 20 e os 40 gramas, é habitual, muito corrente, que esses mesmos peixes sejam suficientes para cobrir o fundo da caixa. E se isso basta, então que se tente, que se arrisque um dia de mar com as pessoas do jigging.


Pesca habitual, aquilo que se pode esperar de um dia normal de jigging ligeiro.


Falo correntemente com pessoas que se querem iniciar. Esbarram desde logo com a inexistência de material adequado. À boa maneira portuguesa, a primeira tentação é a de “adaptar” aquilo que se tem. Espantem-se com isto, tenho pessoas a dizer-me que conseguem fazer jigging com as suas canas de pesca vertical, de 3,60 mts!...
Farão tudo menos aquilo a que se convencionou chamar de jigging. Outros utilizam canas de carretos de spinning, adquirem um jig, (na sua óptica, para experimentar basta...) e lançam-se à aventura.
Corre sempre mal. É tão absurdo quanto um dentista pretender improvisar um tratamento dentário a um paciente com uma …enxada.
Uma pesca de tal forma técnica quanto o jigging, implica os meios necessários à sua execução. Ponto final.


O meu amigo Japonês Nakayama costuma dizer-me que faz saídas curtas, pesca dois ou três peixes para fazer um sushi em casa e volta a entrar, feliz da vida. Porque quer ser selectivo, nem equaciona pescar com algo diferente de jigs.


Mesmo dentro da modalidade jigging, de si um nicho muito restrito da pesca praticada no nosso país, podemos encontrar diversos segmentos, todos com as suas características próprias, e todos válidos como opção de pesca:

Jigging ligeiro - Recorre a equipamentos light, muito leves e sensíveis. Na maior parte dos casos é suficiente para as espécies de peixes que temos na nossa costa.
A par da pesca com cabeçotes de chumbo e vinis, o jigging ligeiro é a técnica que mais cresceu nos últimos anos, em todo o mundo. O conjunto destas duas possibilidades de pesca chama-se LRF, Light Rock Fishing.
Baseia-se na pesca com jigs ou vinis que podem chegar a ter…3 gr. O restante equipamento caracteriza-se por acompanhar a ligeireza dos jigs, não sendo estranho que uma cana pese…60 gr…ou que as linhas sejam tão finas quanto um cabelo. Mas tudo isto pesca, e por vezes exemplares de tamanhos respeitáveis.

Jigging pesado - Como o nome indica, esta variante tem como função a pesca em fundos muito significativos, que pode chegar aos 600/ 800 metros de fundo. Os jigs avizinham os 400, 500 ou mesmo 900 gr, as linhas são mais grossas, as canas mais pesadas.

Slow jigging - Uma variante muito curiosa, em que a maior parte do trabalho é feito pelo próprio jig, de formato curto e achatado. A cana apenas serve de sensor, pouco participando na animação do jig.

Speed jigging - O oposto do anterior. Assenta os seus fundamentos na recuperação enérgica do jig, a alta velocidade, provocando espécies de peixes que aceitam correr para morder a peça. Há peixes, mais atléticos e rápidos, que só desta forma reagem à recuperação dos jigs.

A pesca de jigging, em qualquer destas modalidades, (e quantas vezes tudo isto se mistura, numa combinação de gestos e técnicas diferentes), permite sempre alguma selectividade na captura de peixes, e pode inclusive ser praticada de terra.
Todavia, os melhores resultados são obtidos a partir de embarcação. É muito habitual que cada pescador, ao fim de meia dúzia de sessões, tenda para um determinado estilo. Se a princípio é natural que se sigam os processos dos pescadores mais consagrados, aqueles que apresentam resultados mais consistentes, é com alguma naturalidade que se observa em cada pessoa a tendência para a criação de um método e estilo próprio. Quando se consegue isso, está cumprido o princípio básico da pesca: o homem, o equipamento e o peixe, na sua mais perfeita individualidade.
É tentar.



Vítor Ganchinho



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