IDENTIFICAÇÃO DE PEIXES

Quantos de nós já demos de caras com um peixe estranho, nunca antes visto?

A quantidade de peixes não identificados será necessariamente cada vez menor, mas ainda assim há margem para que, de vez em quando, apareça um que nos faz tocar as campainhas. Isso pode acontecer com pequenos peixes, por vezes sem qualquer valor desportivo, mas também acontece com outros, com peso e força.
Foi o caso de uma espécie de peixe muito interessante, cujas fotos, enviadas pelo eng. Bruno Carvalho, pescador de linha algarvio, que motivou a elaboração do assunto de blog de hoje.

Que peixe é este?!

Hoje trago-vos um peixe que tem peso, tamanho, agressividade e todo o aspecto de ser um lutador nato, a exigir muito dos nossos equipamentos:


Mero dentudo,  Epinephelus caninus, o peixe que está a dar que falar no Algarve. Este foi capturado por um pescador lúdico à cana, tinha 68 kgs e foi utlizado um vinil.


Em Portugal, e à falta de melhor, e por que o seu surgimento é relativamente recente, a designação não passa de um “mero”, ou “mero gigante”, que não é de todo muito elucidativa. No Algarve chamam a este peixe “Pardil”. Relembro que a família de serranídeos é particularmente numerosa, falamos de 3 subfamílias, 64 géneros e 475 espécies. Concretamente o género Epinephelus inclui 98 espécies e temos em Portugal algumas delas.
Não é necessariamente um habitante apenas das profundezas. Há casos de capturas a cotas muito acima daquilo que poderão pensar ser possível. Há mesmo casos de arpoamentos à caça submarina.
Com efeito, a sua distribuição vai dos 30 aos 400 metros, o que o coloca ao alcance dos nossos anzóis.
Tem preferências por um tipo muito particular de fundos, normalmente zonas arenosas ou lodosas, não muito longe de picos de pedra, ou calhaus rolados, onde pode encontrar protecção.
Até ver, o comprimento máximo registado é de 164 cm, para um peso a rondar os 80 kgs. Ainda assim, podemos considerar que o peso médio de 35 kgs é uma referência a ter em conta.
A sua alimentação é, como seria de esperar, à base de peixes e invertebrados. Não nos espanta que seja um regular consumidor de lulas, chocos, e com a boca que tem, mesmo de grandes polvos.

No seu habitat, estes peixes, quando calmos, apresentam uma tonalidade escura, uniforme. Quando excitados, numa situação de stress, transformam essa coloração em malhas com grandes manchas claras, e do pouco que se sabe, podem concorrer em termos de cotas de trabalho com os nossos chernes.




Estão na lista vermelha da IUCN 2012, o que não abona muito a favor da sua sustentabilidade.
Este tipo de mero vive até aos 75 anos, segundo a informação disponível, existindo alguns em cativeiro. Do comportamento deste peixe em aquário, constata-se que passa o dia o mais escondido possível, em zonas remotas do espaço mais escuro, praticamente imóvel.
Por oposição, à noite sai dessa posição e viaja até ao centro dos aquários, procurando peixes com o tamanho certo para si, massacrando os habitantes do mesmo tanque.
Não se sabe muito sobre a introdução da espécie nas nossas águas, pode ter ocorrido por consequência do aquecimento global das águas, num fenómeno de extensão gradual da sua área de distribuição, ou pode ter sido transportada sob a forma de óvulos, via lastro de água de um qualquer navio de carga.
Migrações de longa distância, entretanto, não são um comportamento normal para esta espécie. É comum no Mar Negro. Concretamente na Ucrânia. O ponto mais ao sul da península da Crimeia, o Cabo Sarych, fica a apenas 258 km da península da Anatólia da Turquia, onde existe uma corrente longitudinal de superfície, indo para o norte da Turquia à Crimeia. Esta corrente declina perto de Foros e segue ao longo da costa sudoeste e oeste da Crimeia (Zenkevich 1963). É possível que as espécies do Mediterrâneo sejam transportadas com essa corrente e se movam para a costa sudoeste e oeste da península da Crimeia. Do Mediterrâneo à chegada ao Algarve não serão dois passos, mas é possível que possa ocorrer.

Não deixa de ser curioso que os mapas de distribuição da espécie não incluam Portugal, apenas aparece no Estreito de Gibraltar, sendo que os biólogos estrangeiros contactados a referem como fazendo parte dos peixes capturados regularmente pelos nossos profissionais...
Também não deixa de ser curioso que gente de muitos países europeus, e até do continente americano, afirme que se trata de uma espécie comum em Portugal, quando na verdade não temos assim tantos registos de capturas. Para nós, não é em definitivo um peixe que possamos capturar todos os dias, ao contrário do seu minúsculo parente serranídeo, a nossa garoupinha, “Serranus cabrilla”. Vejam a distribuição oficial:




A verdade é que aparece pontualmente no mercado de Setúbal, onde já vi várias vezes este peixe, mas sempre com ideia de que se tratava de um peixe importado, eventualmente de África, conforme muitos outros peixes que consumimos.
Aquilo a que chamamos de “garoupa”, (e se nós gostamos de chamar garoupa a tudo o que são peixes do tipo mero…), é o mero bronzeado, de nome científico “Epinephelus Aeneus”, que é exportado do Senegal, Mauritânia, às toneladas para o nossos país, todos os dias.
Pesquei-os no Senegal, sobretudo à caça submarina. Hoje em dia, é uma espécie muito comum nos nossos mercados, e largamente difundida junto dos consumidores portugueses. De resto a sua carne é firme, branca, de excelente qualidade.


Eu, bem mais novinho, quando ainda preferia ir ver com os meus olhos do que lançar um jig para o fundo...


O peixe é este. Não consegui uma foto com mais qualidade, mas certamente poderão reconhecer a espécie nas bancas do mercado.
A isto, nós chamamos de garoupa. E a todos os que tenham este “formato”...


No Algarve, as notícias de capturas sucedem-se, cada vez mais regulares, e não espantaria que mais dia menos dia surjam relatos de capturas de pesos significativos, (podem chegar aos 80 kgs!), por parte dos pescadores lúdicos da zona.


Peixe com 20 kgs.




Da interacção e troca de informação relativa a estes casos se faz a formação de todos nós. Agradeço a quem tiver mais dados que os partilhe, para um bem comum.
A pesca só faz sentido se for partilhada.
Agradeço ao Bruno Carvalho o envio destas fotos, e, pedindo desculpa pela inconfidência, aproveito para publicar uma foto sua, com um bonito pargo de 7 kgs, pescado com material adquirido na GO Fishing Almada no dia anterior a esta saída de pesca. Nada mal para uma estreia de equipamento.


Cana e carreto Daiwa, um Catalina, com linha muito fina e um jig minúsculo, equipado com um assiste duplo Daiwa Saltiga. Material super ligeiro, como deve ser. Os jigs pequenos, de 30 gramas, nas mãos certas, ...pescam peixes bonitos!


Longa vida a quem pesca assim!! Bruno, um abraço.



Vítor Ganchinho



Comentários

  1. São de factos duas espécies fantásticas de se capturar e ao longo de 10 anos de jigging apercebi-me que existem vários erros sobre as duas espécies, principalmente o Mero Dentão cuja a informação disponível é extremamente reduzida. Infelizmente como deve calcular não vou escrever sobre a espécie por razões óbvias e de profissão mas terei todo o prazer em o ensinar pessoalmente sobre estas nobres espécies quando for a Portugal. Um grande abraço e tudo de bom para si e toda a família

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    1. Bom dia Luis Esta é uma espécie que podemos considerar "nova" nas nossas águas. Não há de facto muitos casos, embora os sinais indiquem que pode vir a ser um caso sério no país. Pela parte que me toca, eles que venham. Um peixe com qualidade é sempre bem recebido. Muito pior foi o surgimento do peixe-balão venenoso, ao largo de Sines, que não faz falta nenhuma por cá. De quando em quando, surgem bizarrias, recordo-me dos camarões de 25 cm de comprimento na zona de Setúbal e Sesimbra, esses chegados através de uma plataforma que veio reparar na Lisnave. Durante 3 anos houve bastantes, mas depois veio um ano com águas mais frias e desapareceram todos. Nunca mais de ouviu falar deles..

      Abraço
      Vitor

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    2. Bruno Carvalho30 maio, 2022

      Viva Vitor,
      Durante muitos anos andei intrigado com histórias de capturas de um peixe parecido com o nosso mero mas com pesos de 70 ou 80 kg! As fotografias que ia vendo eram sempre inconclusivas pois não mostravam com rigor alguns pormenores que ajudassem a identificação correta desta espécie.
      É de facto estranho a ausência de registos deste peixe nas nossas águas, e seria interessante perceber se existem capturas mais a norte, ou mesmo nas nossas ilhas!
      Por aqui, segundo os relatos que vou ouvindo, são capturados em média cerca de 3 exemplares por ano, com pesos de 40 a 50 kg, principalmente com artes de aparelho de fundo. À cana ou caça submarina (conheço um caso), é com certeza o peixe de uma vida!
      Ouvindo as histórias dos pescadores mais antigos, estou convencido de que este peixe já por cá anda há muito, e vou sonhando com o momento em que o vou encontrar... até lá, aqueles peixes grandes que partem junto ao fundo, são sempre os maiores, e, talvez, sejam Pardis!!

      Grande abraço,
      Bruno C.

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    3. Bom dia Bruno!

      Nós nunca saberemos o que dá aqueles arranques curtos, mas que não nos dão qualquer possibilidade, partem logo a seguir. Para mim, são meros ...ou eventualmente ...pardis.
      Trata-se de um peixe que nunca cala muito longe da sua toca, têm um território e aquilo que entra é deles. Os meros são um caso de estudo, porque ou bem que os conseguimos levantar 10 metros de fundo, e aí são nossos porque perdem a capacidade de voltar a baixar, ou arrancam direito ao buraco e partem tudo. Há sempre um momento de indefinição, que resulta por um lado do facto do peixe estar convicto de que está a morder um peixe vivo, e por isso ainda está convicto de que está a caçar, e da nossa parte, aqueles centésimos de segundo em que percebemos o toque e queremos reagir....
      Na maior parte dos casos, apenas conseguimos ferrar, mas já não temos tempo para mais, porque o "comboio" já vai lançado para a toca. Quando entram, a linha parte de imediato, nem vale a pena pensar em conseguir puxar um peixe desses para fora.
      Ter o drag apertado pode dar-nos um pouco mais de possibilidades....ou ter a sorte de o conseguir ferrar um pouco mais longe da toca. Nós pescamos com linhas finas...

      Vamos seguindo este assunto, vou estar atento aos "pardis"!

      Abraço
      Vitor

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    4. Uma espécie em Portugal onde o unico meio proibido a sua captura é a caça submarina nao deixa de ser curioso ... ja aqui ao lado são capurados de qualquer modo e feitio...alguns avistamentos no river em sesimbra,porto covo,sines e algarve .. no saudoso mundo submerso nao era raro ver varios capturados bem como nos campeonatos de caça sub .

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    5. Bom dia Estará a referir-se mesmo ao Epinephelus caninus, ou será que a sua referência tem a ver com o nosso mero comum, o Epinephelus marginatus? Ou ao Epinephelus Guaza?
      Não me consta que houvesse capturas do caninus registadas há muitos anos....

      Abraço
      Vitor

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