FINALMENTE UM POUCO DE OXIGÉNIO...

Passámos um Verão difícil, com temperaturas médias muito altas, pouca humidade relativa, pouca ou nenhuma chuva. Isso deixou as águas mais limpas que o habitual junto aos estuários, e possibilitou algumas pescas anormalmente produtivas a técnicas de superfície como o spinning ou o corrico. Também por outro lado terá prejudicado um pouco mais aqueles que fazem surfcasting em período diurno, ou mesmo pesca vertical em fundos mais baixos. 

Não há bela sem senão, dificilmente poderá estar bom para todos, ao mesmo tempo. Pela parte que me toca, quando tenho mau tempo, vento forte, e não posso sair ao mar para pescar no barco, fico feliz pelas minhas filhas: passam a ter melhores condições para fazer o seu surf nas ondas. 

É muito importante que tenhamos a espaços mau tempo, temporais, vento, ondas altas. O oceano necessita desses momentos de renovação, de regeneração. 

Aquilo que se passa nestas alturas é que as misturas gasosas enriquecem os níveis de oxigénio das primeiras capas de água, e isso é um factor a não negligenciar por parte de todos aqueles que caçam em águas baixas. A diferença é visível: passamos a ter predadores activos mais horas por dia, e sobretudo em momentos em que nos seria impossível pescar algo. Refiro-me às horas em que o sol está mais alto, a fazer incidir os seus raios perpendicularmente à linha de superfície. 

Acontecem ao mesmo tempo diversos factores que induzem a uma melhor pesca: a temperatura baixa um pouco durante a noite, e sobretudo é mais amena às horas do meio dia. Passamos de 35/40ºC às 14.00h para uma média de 22/ 25ºC e isso faz mesmo muita diferença. 

Quando temos dias um pouco mais nublados isso ajuda a prolongar a ausência de luz da noite, e mantém activos os predadores que caçam a coberto da escuridão. Num mundo em que todos correm, uns para caçar, outros para não serem caçados, aqueles que têm uma melhor acuidade visual podem tirar partido dessa vantagem e conseguir capturas. Ver no escuro é uma capacidade invejável e uma tremenda vantagem. Ser capaz de perceber um pequeno peixe imóvel no escuro da noite garante …estômago cheio. 

Por isso mesmo, estar ou não nublado não é indiferente neste estranho mundo marítimo, e por consequência afecta directamente a nossa pesca. 

 

A Arrábida, bem cedo, momentos depois do nascer do sol, com vento sul e uma ligeira névoa. 

Custa-nos imaginar que forças poderosas conseguirão movimentar massas de água tão imensas como as do Atlântico. E todavia, elas movem-se, como diria Galileu. 

Sem vos querer maçar com passagens mais eruditas, não resisto a citar esta frase (no original …“E pur si muove”), frase tão polémica porquanto Galileu Galilei a pronunciou perante o tribunal da Inquisição, renegando assim a visão heliocêntrica que defendia a tese de que todos os corpos giravam em torno do nosso planeta Terra. E com isto cometendo um crime, na altura punido com a morte. 

Quando tentamos entender as movimentações das grandes massas de água dos nossos oceanos, convém prestar uma vénia a quem defendeu as suas convicções a este extremo. Viria a morrer apenas nove anos depois deste julgamento, em prisão domiciliária. 

Espero que não me façam isso a mim por afirmar que é mais fácil pescar robalos nesta fase do ano em que as águas se movem um pouco mais, fruto de alguma instabilidade no tempo. 

Não vos é difícil acreditar que existem forças que movimentam paredes de água do mar, porque isso é visível a olho nu. Conseguimos perceber as marés, por lentas que sejam a mudar o nível das águas. A massa de água dos oceanos não permanece parada, bem pelo contrário, desloca-se quase permanentemente. Para quem faz pesca vertical não é difícil perceber a movimentação destas, para um ou outro lado do ponto em que se situa no barco, e larga a sua linha. Em determinadas fases da maré, é mesmo obrigado a aumentar o peso da sua chumbada, para conseguir que esta vá cair no mesmo local, ou próximo. Dizemos que está “aguagem”. E afinal o que é isso? De que forma isso afecta a nossa pesca? Vamos ver isso hoje. 

Temos momentos de paz, de acalmia, os estofos da maré, e períodos de fortes correntes, de uma força imparável, que parece tudo levar à sua frente. E aqui já temos uma das forças que movimenta as nossas águas: a corrente. 

Esta perpétua corrida de massas de água acontece por efeitos gravitacionais da Lua e do Sol. A rotação da Terra sobre o seu eixo força a um movimento permanente, e isso dá origem a deslocamentos distintos de acordo com o hemisfério onde nos encontramos. No nosso caso, as massas de água deslocam-se no sentido dos ponteiros do relógio. 

Também as ondas e as vagas são um factor de movimentação, na circunstância provocadas pelos ventos. Como sabem, as ondas são, no hemisfério norte, oriundas da zona longínqua do Triângulo das Bermudas, do outro lado do Atlântico, sendo as vagas algo originado de forma local, por ventos que podemos sentir na cara, no ponto onde estamos. Quase nunca coincidem, em termos de direcção. 

  

A esta hora, os pássaros já procuram os cardumes, têm visibilidade para isso. Podem ajudar-nos a encontrar as cavalas de que necessitamos para iscar. 


Desenganem-se aqueles que pensam que os peixes apenas necessitam de comida para viver, e nada mais. Para a manutenção de uma população de peixes saudáveis, os níveis de oxigénio são fundamentais. A quantidade de oxigénio dissolvido na água influencia decisivamente a presença de peixes, ou não, num determinado espaço. E isso muda a nossa pesca. 

É de tal forma importante que a sua ausência pode impossibilitar a vida dos peixes que queremos pescar. O oxigénio dissolvido é o responsável pela oxidação (e diminuição) dos componentes orgânicos presentes nas águas. Poucos de nós consideramos os efeitos da poluição, da descarga de matérias orgânicas lançadas no mar, e no entanto isso afecta a taxa de oxigénio disponível para ser absorvido pelas brânquias do nossos peixes. 

Façamos um exercício de memória: todos nós recordamos o cheiro das algas ágar-ágar vermelhas, quando em decomposição. Não nos incomoda. Chamamos-lhe cheiro a “maresia”.

Mas também temos a noção de que por vezes detectamos o mau cheiro vindo das águas rasas do mar, em zonas com muita poluição. A ausência de oxigênio dissolvido na água abre espaço para o desenvolvimento de micro espécies anaeróbicas, que sobrevivem na ausência de oxigênio. O grande problema é que este tipo de bactéria decompõe a matéria orgânica em compostos mal cheirosos como aminas, amônias e sulfato de hidrogênio (H2S). O resultado é um odor ruim na água, que não nos é agradável.

Os nossos peixes, para além de terem de considerar a sua segurança, a sua alimentação, os seus momentos de reprodução, também são forçados a acautelar a qualidade da água em que vivem. Umas espécies mais que outras, pois existem diferentes capacidades de suportar níveis mínimos de oxigénio. Nós nunca consideramos estes factores quando chegamos à nossa zona de pesca. Queremos sempre peixes esfomeados, com a boca aberta. Por vezes eles estão a lutar contra factores que nem nos passa pela cabeça. Por exemplo a taxa de oxigénio do mar nesse local, nesse dia. 

Por isso são tão importantes os tempos de mar revolto, em que tudo é “remexido”, em que a movimentação de águas profundas e superficiais acontece. Os nossos peixinhos necessitam desses momentos. Bem sei que não é agradável deixar de ir pescar ao fim de semana por estar mau tempo, mas esse é o preço a pagar se quisermos ter peixes saudáveis. 

E afinal, tudo caba por passar, a seguir às nuvens vem o céu limpo, a seguir a um temporal vem sempre uma acalmia que nos permite lançar as nossas linhas. 


Passagem ao largo da nossa Reserva Luis Saldanha, Parque Natural da Arrábida. Zona de pesca proíbida. 


Desejo a todos uma entrada nestes tempos de Outono em grande, com força, com peixes a esticarem as nossas linhas bem perto do seu limite de resistência. Sem partirem….


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