IR ÀS LULAS COM JIGS,... CONVICTAMENTE.

Tenho amigos que não acreditam que se podem pescar lulas com jigs. 

Custa-lhes a crer que se consigam convencer a morder uma peça metálica colorida, e mesmo depois de eu lhes dizer que sim, que é perfeitamente possível, continuo a vê-los de sobrolho franzido. Neste fim de semana, resolvi tirar meia hora para fazer algumas, para o jantar da família à noite, e aproveitei para tirar algumas fotos. O que vão ver abaixo é o máximo que consigo apresentar em termos de imagens, explícitas, para conferir veracidade ao acto. Não me ocorre o que posso fazer mais para mostrar, a quem não acredita, que as lulas “roem” os jigs, com entusiasmo. 

Confesso que tenho momentos de desespero, em que me parece que nada mais posso fazer para convencer quem não acredita nem quer ser convencido. E depois há momentos em que reconsidero e acho que posso fazer algo mais, por exemplo voltar a fazer umas fotos mais elucidativas. E volto ao assunto.  

Para que não fiquem dúvidas, apliquei dois tipos diferentes de chapas, com pesos e cores distintas. Bem sei que enquanto povo somos dados a acreditar que apenas existe uma forma de “esfolar um coelho”. Mesmo quando na realidade há muitas dezenas de formas de o fazer. No fim, o objectivo é só um: ter o coelho esfolado. Se o conseguimos fazer na perfeição, qualquer sistema é bom. 

E com os jigs para lulas o mesmo, não há apenas um modelo e cor que funcionam, uma só referência. Poupem-me a estabelecer paralelos com os famigerados palhacinhos dos chocos, em que há pessoas que acreditam piamente que só um modelo e cor são eficazes. Sempre e em quaisquer circunstâncias, o mesmo. 

Meu Deus, perdoa-os, porque eles não sabem o que fazem…

 


Quando vamos pescar lulas, há sim um padrão, uma determinada tonalidade metalizada que funciona melhor que as outras, desde que em condições muito precisas. Vamos ver isso tudo, hoje aqui no blog. 

Nada na manga. Não fica nada por dizer, porque não é aceitável que algo tão simples possa ser escondido de todos: ir pescar lulas apenas obedece a meia dúzia de critérios, e pouco mais. 

Vamos vê-los: 

1- Ajuda termos águas lusas, limpas de sedimentos. Não é impossível pescar lulas em águas carregadas de aluvião ou fitoplâncton, mas de facto é melhor pescar com águas limpas. 

2- Porque as lulas têm uma actividade essencialmente nocturna, é de bom tom levantar o rabo da cama bem cedo, leia-se ainda de noite. É obrigatório chegar ao local de pesca aos primeiros raios de sol. Podem fazer-se lulas todo o dia, mas estamos a desaproveitar oportunidades, a deixar de as tentar precisamente quando elas estão mais confiantes. 

3- Dias nublados, ou com nevoeiro, ou até dias de chuva, são preferíveis. A baixa luminosidade ajuda imenso estes cefalópodes que têm uma incrivelmente boa acuidade visual, ou seja, vêm muito bem em noites escuras como breu. A falta de luz favorece-as, em detrimento das suas presas, mais aptas a defenderem-se em momentos de luz intensa. Por isso, devemos aproveitar os momentos do dia em que as lulas se sentem a “jogar em casa”, mais confortáveis. Os dias escuros prolongam por mais tempo a noite nas profundezas, a quantidade de luz que chega aos fundões é muito menor. E as lulas tiram partido disso, permanecendo mais tempo activas do que estariam em dias de luz solar intensa.

4- Não há uma profundidade exacta para as pescar. Posso dizer-vos que já pesquei lulas abaixo de 100 metros de fundo, mas também já as fiz a menos de 10 metros. Fazem durante a noite migrações verticais, procurando comida em zonas mais próximas da superfície. Teremos de considerar que este cefalópode também tem predadores, e por isso tenta evitar zonas povoadas de pargos, de lírios, de corvinas, etc. Se há poucos predadores na costa, podemos tê-las facilmente em cotas acima dos 15 metros. Se as águas estão suficientemente quentes para todos aqueles que comem lulas estarem activos junto à costa, em zonas baixas, então elas estarão um pouco mais fundas e afastadas. Nunca esqueçam que as lulas comem peixes pequenos, (e também as suas congéneres lulas, normalmente canibalizam as de tamanho mais pequeno), por isso, as baixas de costa com muito peixe miúdo serão sempre locais a tentar. 

5- Caso tenham as condições ideais, podemos considerar a faixa de água dos 20 aos 40 metros, como local privilegiado para encontrarmos as nossas lulas. Porquê? Porque é aí que os cardumes de milhares de peixes forragem, as cavalas, os carapaus miúdos, as sardinhas, gostam de evoluir. Aí, os peixinhos têm comida, e estão suficientemente perto da costa para encostar e subir os metros necessários até desmobilizar todos aqueles que as procuram. A aproximação à praia é uma estratégia que mais não visa que desencorajar os peixes de maior tamanho a seguir a comedia. Lembro que até os atuns de maior porte visitam águas mais baixas, para se encherem de peixe miúdo. O difícil é encontrar peixes grandes a quem as sardinhas, as cavalas, o biqueirão ou os carapaus não interessem. E se falamos de robalos e corvinas, de sarrajões e pargos, de anchovas e lírios, também temos de incluir as lulas neste leque de comensais. 

É quase impossível que os cardumes de pequenos carapaus ou cavalinhas não tenham lulas a “guardá-los”. E isso já nos remete para a questão das cores dos jigs, que vamos ver adiante. 


Os jigs para lulas deverão ser armados com um triplo na cauda. Sem isso é muito mais difícil conseguir ferrá-las.


Sabemos que os peixes vivos exibem cores que os mimetizam perante os seus predadores. Quando vistos de cima, são difíceis de distinguir dos fundos onde se movimentam. Se observados de baixo, as cores claras do ventre confundem-se com a claridade emitida pelo sol, a qual se aproxima do branco. Depois disso, cada espécie, em função do seu posicionamento na coluna de água, adopta as cores que lhes são mais convenientes. Os carapaus movem-se sobretudo em águas próximas do fundo, e são mais amarelados/ acastanhados no dorso, as cavalas assumem-se como pelágicos do azul e precisam de cores mais metalizadas, onde o azul está sempre presente. Porque é aí que vivem, no azul. 

Todos eles têm a capacidade de fazer cambiantes ao seu padrão normal, um pouco mais escuro se as águas estão lusas, ou mais claro, se estão mais sujas, misturadas com sedimentos.  Os peixes mudam de forma a conseguirem estar o mais discretos possível. Acontece algo diferente quando a evolução dos peixes é feita em cardume. Se considerarem um único peixe isolado, a tendência será para a adopção de cores discretas. Mas quando em número muito elevado de exemplares, a filosofia muda: aí, aquilo que se procura é retirar a cada peixe a sua forma, o seu contorno, e imprimir através da cor uma qualquer cortina de camuflagem, em que a unidade de cada peixe se perde para um todo, a soma de centenas ou milhares de peixes que nadam próximos. Isso dificulta sobremaneira a tarefa aos predadores, que não conseguem um alvo, mas sim uma difusa massa de centenas de alvos. Todos os peixes, ao mesmo tempo, executam um determinado movimento, o qual confunde quem tem de tomar um único desses peixes como objecto do seu ataque. Chamemos-lhe uma camuflagem “colectiva”.

Se olharem um cardume de sardinha, ou cavala, entendem que o metalizado de uns termina onde já começou o de outro peixe. A forma desaparece. Os peixes jogam com isso, e sabem bem que atitude tomar na presença de quem os quer comer. Isso também passa por terem cores vivas, brilhantes, e com o sentido de vida próprio de um animal que pode tomar decisões, que está em movimento. Um peixe morto é algo inerte, sem o poder atractivo de uma isca viva, as cores tornam-se baças. Sabemos isso. E também sabemos que as lulas são predadores que comem bichos vivos. Quando escolhemos as nossas amostras, na circunstância jigs metálicos, não teremos dificuldade em conseguir escolher aquelas que mais se aproximam deste conceito. 

Esta peça que podem ver na foto acima, é um pequeno jig da marca japonesa Xesta. Dou-vos a referência:



É algo que tem na loja GO Fishing Portugal um custo de 5.90 euros na versão 20 gramas. Relativamente ao peso, é minha opinião que devemos estar equipados com três possibilidades diferentes, 20, 30 e 40 gramas. Com isso, conseguimos cobrir as situações padrão de vento e correntes habituais na nossa costa. Lembro que devemos sempre optar pelo peso mínimo possível, ou seja, se podemos utilizar 30 gramas não devemos colocar na linha 40 gramas, porque estaremos a perder possibilidades de animação e consequentes capturas. O que ganhamos em “conforto” a ver descer rapidamente o jig, perdemos em capacidade de animação. 

Podemos trabalhar sobre o diâmetro da linha, e um jig ligeiro já desce mais depressa. Bem sei que normalmente a opção é a contrária, é ter linha grossa e por isso mesmo carregar com chumbo para conseguir fazer descer o jig. É asneira. Devemos estar sempre o mais leves possível, dentro das condicionantes que o mar nos apresente nesse dia e nessa hora. Porque está sempre a alterar ao longo do dia, a maré não é algo fixo em termos de força e deslocamento, não é inabitual que se comece a pescar com 20 gramas, e à medida que a corrente se revela mais forte, se vá aumentando paulatinamente 10 gramas, para 30gr e a seguir para 40 gr. Só em circunstâncias muito especiais será necessário subir ainda mais, nomeadamente quando pescamos em dias de luas grandes, e momentos próximos dos solstícios e equinócios. Nessas alturas temos águas grandes, e por isso as correntes são mais fortes. 

 


Aí, a opção pode recair sobre um jig de 60 gramas. Nunca pesquei lulas com jigs acima disso, acredito que seja possível, mas prefiro nem tentar, porque sei estar cada vez mais longe do sucesso quanto mais subir na gramagem do jig. Ligeirinhos, estaremos mais perto do sucesso. 

A animação pretende-se viva, mas com uma ou outra pausa. Demasiada violência acaba por assustar mais do que atrair os cefalópodes. Coloquem-se sempre do outro lado. Nunca vejam a pesca como algo nosso, de um ser a quem foi dada toda a inteligência do mundo. Arrogamo-nos o direito de querer decidir e condicionar aquilo que outros seres devem fazer. No circo pode ser, mas na natureza, com seres com vontade própria, isso não funciona assim. Assim, a minha ideia é a de animar o jig de forma a transmitir-lhe vida, movimento. A seguir dou-lhe uma ligeira pausa, um abrandamento mas em tracção, linha sempre tensa, sem nunca deixar parar a peça, com a ponteira da cana a controlar o movimento. 

Digamos que o objectivo é dar a entender que há um peixe fora do cardume, isolado, que ainda está vivo, mas que está afectado, diminuído, e já fora de conseguir controlar o seu deslocamento. Um peixe ferido faz isso, faz movimentos erráticos, descontrolados, e isso atrai os predadores por reconhecerem nele uma oportunidade de conseguir comida mais fácil. O princípio é válido para muitas outras pescas. 

Vamos ter os toques mais perto ou mais longe do fundo, dependendo do nível a que se deslocam os cardumes de isca. O normal é que exista uma profundidade óptima. Logo que a encontramos, sabemos que oito em dez lulas irão atacar naquela cota, pois tendem a agrupar-se em grupos numerosos. 



Este jig da Xesta tem-me dado uma quantidade impressionante de lulas. Utilizo-o como opção de base, e os resultados são normalmente bons, mas não me sentiria “despido” se tivesse de optar por algo parecido.  Aquilo em que foco a minha atenção é em utilizar um jig que me dê o padrão daquilo que as lulas estão a comer nesse dia. Na maior parte dos casos, são carapaus ou cavalas miúdas. Adoram! Seguem os cardumes como um pitbull segue as pernas de quem corre à sua frente. Os cardumes sentem-se visados e movimentam-se. Cada peixe sabe que tem de estar o mais longe possível dos tentáculos retrácteis das lulas. Cavalas e carapaus são presas habituais. E esses, eu imito com um jig metalizado, conforme podem ver nas duas fotos seguintes. 

Este jig da Little Jack tem um espelhado irresistível para peixes predadores, e também para …lulas. 

O jig que podem ver é um Litle Jack, equipado com dois assistes à cabeça, e um triplo na cauda. Perguntam” …mas qual é a necessidade de aplicar assintes simples se as lulas invariavelmente irão cravar no triplo?!”… A resposta é simples: eu não estou só a pescar lulas. Isso é o que faz quem pesca com toneiras especificas para lulas. E porque as procura em exclusivo, não pesca mais nada. Mas a ideia é ser capaz de ir mais longe. Ao raiar do dia, à hora em que as lulas estão activas, também os seus predadores já estão activos, e por vezes….

No meio de umas quantas lulas que procuram a sua comida, há quem tenha escamas e lhes chame alimento. Os pargos grandes adoram morder lulas, e não os subestimem, um bom pargo capatão de 10 kgs tem dentes capazes de fazer muitos cortes e estragos na pele sensível de uma lula de 1 kg…. A ideia é pois estarmos às lulas, mas prevenidos com dois assistes simples que nos darão o pargo do dia….algo que poderíamos sintetizar como estar “com um olho no burro e outro no cigano”….

É algo como isto: 



Eu não pesco com eles como vêm de fábrica. Adiciono um triplo à cauda, e é com isso que pesco as lulas. Também os assistes simples opto por substituir por um tamanho um pouco maior e mais robusto, porque nós temos por cá peixes com bocas que exigem algo mais.  Cada um acaba por “artilhar” os seus equipamentos de acordo com os locais onde pesca, e as possibilidades de conseguir, ou não, peixes maiores. 



Algo que me parece importante e não queria deixar de referir é o seguinte: a utilização de um camaroeiro é, a meu ver, muito importante.  Não deixa de ser inglório que se faça todo o trabalho de trazer lulas à superfície, e, por uma questão de comodismo, não se aplique a rede por baixo.  Quando as tentamos levantar em peso, o mais natural é que os frágeis tentáculos se rasguem, caindo a lula à água. Não é de fazer, de todo. Vejam imagens de lulas às quais meti o xalavar, sem problemas de gastar mais alguns segundos a fazê-lo. A segurança é outra. 

Porque pesco com a calma que os meus quase sessenta anos me dão, não tenho pressas. Deixo-as alguns segundos na rede, dentro de água, para que larguem algum ferrado fora antes de as meter dentro do barco. Custa-me ter de andar com um pano molhado na mão, para esfregar a mascarra preta que se espalha por todo o lado. E se deixamos secar, é ainda pior. Por isso, mais vale esperar um minuto e deixar o bichinho largar fora as suas tintas, do que ter demasiada pressa, e depois gastar vinte minutos a fazer faxina de limpeza. 

Pressas para quê?! Um dia dá-nos uma “travadinha má” e deixamos de ter pressas. Bem sei que o blog é lido em dezenas de países por esse mundo fora. Nem faço ideia de como irão ler isto depois de traduzido…“travadinha má”, ....seja o que Deus quiser. 


Ao fim de alguns minutos nos sítios certos, temos as lulas do jantar garantidas. 

Não nos toma demasiado tempo, e as crianças em casa adoram lulas bem tostadas na grelha. No meio destas quatro lulas, e quando nada o fazia prever, entrou um pargo bonito, e com isso fiz um arranque de dia que me deixou animado para outras lutas, outros combates mais profundos. Mas o jantar já estava garantido, com uma lula por pessoa. Na verdade foram apenas grelhadas duas e já sobraram, porque os tamanhos destes cefalópodes, nesta altura do ano, avizinham os 800/ 900 gramas em média, aparecendo algumas acima do 1,5 kg. Reparem no tamanho do jig, e isso dá-vos uma ideia da dimensão das ditas…

Aos meus amigos incrédulos deixo esta mensagem: não sei o que posso fazer mais para vos convencer.


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