TEMPO DE LULAS

De repente, começamos a sentir uns esticões nos jigs.
É algo de estranho, porque bate violentamente mas …não fica. Por vezes sentimos apenas um peso durante uma fracção de segundo e a seguir... nada.
Não são peixes, não podem ser. Esses, batem no jig para ficar, espetam-se nos anzóis do assiste. Sabemos bem como mordem os habituais pargos ou robalos. Mas não é nada disso.
Antes algo que nos prende o nosso jig, e a palavra certa é essa, prender, mas a seguir larga. Contacta e…solta.
Que raio temos no fundo a tirar-nos o nosso sossego, a pôr-nos com o cabelo em pé?!
Pois são as lulas, que já voltaram outra vez! Essas malvadas que resolvem levar-nos ao desespero com os seus ataques repentinos, e quase nunca bem sucedidos.


Uma cana de jigging macia, um jig de 30 gr da Little Jack, equipado com um triplo Varivas- Nogales. É tudo aquilo que o Fernando Santos necessita de ter nas mãos para fazer as suas lulas. 


É pois tempo para substituirmos imediatamente os assistes de cauda por um triplo, uma fateixa de bicos muito afiados, de arame fino, para que se possam espetar ao menor toque.
Atenção, fateixas pesadas são menos propensas a bons resultados. É importante que o tamanho do triplo não seja demasiado grande, queremos prendê-las por mais de um tentáculo e isso não se consegue com ganchos muito afastados.
A fórmula certa é tamanho relativamente pequeno e peso mínimo.
Nessas condições, há diversão garantida, porque a cada toque ficamos com uma ferrada.
A minha sugestão para esta função são as Varivas, modelo Nogales, tamanho nº 6, revestidas a um fluoreto que as torna autênticas agulhas deslizantes.
Espetam com facilidade as lulas e os …nossos dedos. Atenção a desferrar.

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A cana que devemos eleger para este tipo de trabalho é invariavelmente macia, parabólica, a acompanhar muito bem as investidas da lula, pois a nossa ferragem tem tudo para não dar certo. Não podemos esquecer que a lula vem quase sempre presa pelos tentáculos, e estes são de tal forma frágeis que, ao menor descuido, já rasgaram. Daí a necessidade de possuirmos uma cana especifica para este tipo de tarefa. Na foto acima, o Fernando Santos utiliza uma cana de jigging da Alpha Tackle, um modelo muito sensível, que absorve bem os impactos das infelizes que se atrevem a “caçar” o seu jig de 30 gramas.
Neste tipo de pesca, NÃO SE FERRA conforme o faríamos a um peixe de boca dura. Quando temos um pargo no jig, é de bom tom que se ferre, que se exerça uma pressão brusca, repentina, na vertical, no sentido de ajudar o anzol a cravar, a espetar a barbela na carne e osso do animal. Se o fizermos com as lulas, vamos rasgar muitas e, com sorte, traremos um pequeno tentáculo à tona de água.
A técnica correcta é mais simples que isso, consiste apenas em levantar um pouco a cana e garantir que a linha se irá manter em tensão durante todo o trajecto da lula até à superfície. Isso é muito importante.
Bem sei que a dada altura iremos estar divididos entre as lulas e qualquer outro tipo de predador que possa ter mordido o nosso jig. Ficamos com dúvidas, já que não podemos esquecer que tudo pode atacar o nossos jig.
Neste caso, não é possível ter o melhor de dois mundos: não podemos ter as lulas e ao mesmo tempo garantirmos a ferragem correcta e segura de um peixe de escama.
Se a ideia é sacar lulas do fundo, vamos ter de assumir que eventualmente os peixes que baterem no jig podem, pelo menos de início, não ficar verdadeiramente bem cravados.
Não quer dizer que se vão embora, apenas numa fase inicial estaremos a deixar um pouco mais nas mãos de Cristo uma tarefa que deveria ser nossa: espetar o anzol eficazmente.
Se ferrarmos energicamente, a maior parte das lulas irão escapar-nos, irremediavelmente.


Ao fim da manhã podemos já ter umas quantas. Convém separar os bichos do resto do peixe, porque acabam sempre por largar o ferrado negro, e isso irá sujar-nos o peixe mais nobre.


Estas amigas largam tinta! E por isso mesmo, a minha sugestão é que tenham um recipiente alternativo, onde as iremos depositar.
Não vale a pena contar que se as deixarmos na rede durante algum tempo irão largar a tinta. Acabam sempre por guardar alguma para os últimos estertores de vida e isso será o suficiente para nos cobrir de preto a caixa, o peixe, o barco, etc. Por isso, uma caixa estanque com tampa, em separado, é uma boa opção.


Mais uma! Fernando Santos no seu melhor. Desta vez utilizou um pequeno jig de 15 gramas, da Xesta, equipado apenas com uma fateixa.


O modelo é o que podem ver abaixo:

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As lulas são um bom motivo para nos levantarmos cedo, há vantagens em começar ao raiar do dia. Mesmo se os pescadores mais novos não gostam muito.


A deslocação das lulas na coluna de água fica muito bem marcada na sonda, e não é difícil encontrar zonas onde elas se encontram a caçar.
A seguir, é fazer uma deriva, com o sigilo que nos for possível, e aproveitar as que estão activas nesse momento.
Sabemos que durante a noite estarão particularmente motivadas para caçar, mas nem todos temos a possibilidade de chegar aos pesqueiros nessa altura.
Ainda assim, não é difícil obter picadas mesmo com o sol alto. Os primeiros raios de luz são um momento mágico para todas as espécies, são o sinal de que um novo dia se anuncia dentro de minutos, e nessa altura, todos aproveitam para comer. Se possível, já devemos estar preparados para pescar.
No caso das lulas, as possibilidades de captura aumentam à medida que aceitarmos levantar-nos mais cedo.


A receita é a mesma de sempre: um jig com triplo e a lula sobe… Não faço ideia de quantas já consegui com jigs, mas há algo que posso confirmar: sobem sempre presas pelos...cabelos.


A chegada à superfície é um momento crítico. Invariavelmente a lula irá debater-se, procurando voltar pelo caminho que a trouxe até nós.
Os esticões que irá dar podem ser o suficiente para que se perca o exemplar, se não soubermos o que fazer.
É de bom tom ter um xalavar à mão, e isso deve ser previsto antes da lula chegar acima, e não depois. Aí, todos os segundos contam, porque ao menor deslize, ela irá embora.
Afrouxar a linha neste momento, eventualmente para ir à procura da rede, costuma ser fatal. Tudo deve ser preparado antes e se possível, se tivermos companhia, o colega do lado ajuda a garantir a peça. Dentro da rede, é tempo para respirar fundo, e até deixar que a primeira golfada de tinta seja feita aí, com a lula ainda na água.
Sempre poupamos tempo de pesca a seguir, porque não é mesmo nada boa ideia deixar secar o ferrado negro e esfregar depois, no fim da pescaria.
A não ser que o interior do barco seja …preto!


Vítor Ganchinho



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