PROCURAR AS ZONAS DE ALIMENTAÇÃO DOS PREDADORES

Olhamos para o mar e aquilo que salta à vista é que toda aquela extensão de água é igual. Na verdade não é.
Bem sei que o argumento de quem não tem a menor ideia de onde ir pescar é: “onde há água há peixe”...
Antes fosse assim. Estamos de resto bem longe disso, há imensas zonas no mar que foram, são e serão sempre autênticos desertos. Porque não dispõem de condições para permitir a fixação de vida como nós a entendemos enquanto pescadores de linha.
No mar não há um milímetro quadrado sem vida, mas quem pesca não considera essa perspectiva microscópica, bacteriana, aquilo que nos interessa está muito acima disso, dessa escala nanométrica: nós queremos peixes grandes.
E eles não existem onde não podem encontrar alimento com regularidade. Aquilo que mais limita a presença de peixe é precisamente a impossibilidade de se alimentarem. Segue-se a questão fulcral da segurança. De nada vale haver alimento se esse peixe é capturado com facilidade. Esse factor é pois algo que é permanentemente colocado em questão, mesmo que de uma forma instintiva, por quem tem de zelar pela sua pele a cada instante. E os peixes não são suicidas, esses já morreram todos.
Não existe peixe “descuidado” sobre a sua segurança. E muito menos quando se trata de um predador nobre, o robalo, um ser que é muito cobiçado e procurado por quem pesca, e por isso tendencialmente raro.


Neste caso, a ausência da conta de água certa impede o robalo de permanecer sobre estas pedras, mas vão voltar! Vai haver um momento em que a maré lhes permite vir prospectar estes recantos, encontrando aqui pequenos peixes, caranguejos, minúsculos polvos, camarões, etc.


Há zonas de protecção, as quais conferem segurança acrescida por força da impossibilidade de o bicho homem conseguir lá chegar.
Os pilares das pontes, os destroços de naufrágios, as grutas nas paredes rochosas, são bons exemplos disso.
E há zonas de alimentação, onde, por força das suas caraterísticas especiais, acabam de uma ou outra forma por concentrar em si uma grande quantidade de recursos biológicos.
Pode perfeitamente acontecer que não sejam coincidentes, aliás raramente o são. Isso implica deslocação por parte do predador, e nesse trajecto tudo pode acontecer. Mas ele tem de fazer o caminho.
Os predadores fazem a sua vida girar à volta de três parâmetros essenciais: segurança, alimentação e reprodução.
Desde que garantam estes três factores, podem cumprir com as expectativas para que nasceram e cresceram. Tudo o resto são correntes, profundidades, estratégias de caça e protecção contra predadores.
E nós homens somos um inimigo de respeito, porque dotados de uma inteligência incomum. O nosso cérebro possibilita-nos a elaboração de estratégias de pesca que desmontam os cuidados naturais do peixe que perseguimos. Assim saibamos fazer.
Conseguir chegar à zona de caça dos peixes é quase tudo na pesca. Sabemos onde podem eventualmente estar, mas não chegamos lá, o equipamento não ajuda, logo dificilmente teremos sucesso.
Nós, dentro dos barcos, estamos constantemente a emitir ruídos. O impacto da água contra o casco já não ajuda muito, mas a nossa actividade dentro da embarcação idem. E se pescamos apeados, queiram saber que os peixes conseguem ouvir os nossos passos na areia e pedras. Por questões de densidade e condutividade, a propagação do som em líquidos e sobretudo nos sólidos é muito superior ao que se verifica no ar. É o princípio do telefone por fios.
Nós somos desajeitados no mar, e não valorizamos o que de ruim fazemos. Pensamos sempre que os peixes irão “desculpar” alguma falhazinha...
Um detalhe que escapa à maioria das pessoas é o seguinte: ao lançarmos as nossas amostras, a distância a que as conseguimos colocar pode ser a diferença entre conseguir, ou não, convencer o predador a morder.
Se a cana e a linha não são adequadas, ou seja, se a cana é um tubo de plástico barato que encontrámos num armazém de olhos em bico, e a linha é mais grossa que o necessário, é muito possível que a amostra
tenha um voo curto. Irá cair-nos perto dos pés, a não mais de 20/ 25 metros. Nesses casos, vamos sofrer algumas decepções. Vai acontecer-nos o seguinte: o robalo sente a queda da amostra, segue-a durante alguns metros e no momento em que é obrigado a decidir se morde ou não, vai, como se diz em linguagem de aeroporto, “borregar”, ou seja, o avião em vez de aterrar volta repentinamente a subir. Isto quer dizer que o avistamento da sombra do pescador, ou tão só da cana, serão o suficiente para o fazer desconfiar. Este peixe seria nosso se o lançamento tivesse sido feito a 50 metros. Mas para isso, o diâmetro da linha deveria ser mais fino.
Há uma distância de segurança. É possível que um robalo possa morder mesmo junto ao barco, ou a poucos metros da praia, se apeados, mas na maior parte dos casos irão abortar a sua tentativa de captura, se nos virem.
Uma má escolha do equipamento de pesca pode prejudicar-nos imenso os resultados do dia. O erro mais crasso é mesmo o diâmetro exagerado da linha. Pescamos robalos, não atuns.


Estes caneiros serão os caminhos de entrada dos peixes quando estiverem aqui em cima mais dois ou três metros de água.


Todos temos os nossos “cantinhos” secretos, locais onde sabemos que conseguimos enganar alguns robalos. Na maior parte dos casos isso quer dizer que encontrámos uma zona de alimentação.
Se há alturas do ano em que os robalos andam “amajoados”, em cardume, noutras alturas estarão isolados, mas por força das boas características alimentares da zona, acabam por se concentrar diversos peixes num só spot. O comportamento não é igual. Bom mesmo não é encontrar peixes em cardume, mas sim em acção de caça isolada. Os resultados neste segundo caso são bem melhores.
O tempo útil de pesca que temos quando deparamos com um cardume pode resumir-se muitas vezes a uma só captura. O resto dos peixes, avisados, sai da zona. Ou ainda pior, afasta-se um pouco e fecha a boca.
Bem podemos mudar de amostras...

Nestas reflexões que faço sobre o tema, procuro ir um pouco mais além do óbvio. Não se trata de ver que um pneu furado está vazio, mas só na parte de baixo, onde assenta no chão...
É preciso ir mais longe. Amanhã continuamos.



Vítor Ganchinho



Comentários

  1. Pedro Evangelista15 novembro, 2022

    Olá Vitor, também noto que o robalo é muito competitivo. Quando 2 robalos estão interessados na mesma amostra, baixam um pouco a guarda, e o instinto de competição sobrepõe-se ao da autopreservação. Já atacam mais em cima do barco mesmo a ver o pescador e fazem mais investidas à amostra caso não tenham conseguido acertar com ela nos ataques anteriores. A probabilidade de apanhar um dos dois é muito mais alta do que o caso de um robalo solitário. Pelo menos tem sido a minha experiência.

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  2. Pedro Evangelista15 novembro, 2022

    Ainda acrescento que é normalmente o mais pequeno dos dois a ganhar a batalha…quantas vezes..

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    1. Boa tarde Pedro Evangelista

      As nossas possibilidades sobem exponencialmente quando temos vários peixes interessados naquele "peixe" que nada na sua frente. Eles não mordem a amostra, mordem um peixinho que passa de forma descuidada, sem discrição.
      Sabe que eu tenho muitos casos de cardumes de robalos que se lançam, todos ao mesmo tempo, sobre a minha amostra. Aquilo que acontece é que um deles acaba por ferrar, engole totalmente a amostra, ou, no caso de haver uma parte de fora da boca, os outros tentam mordê-la. A última vez que me aconteceu, estava a pescar com um vinil, um Sandeel Slug da Savage verde, com cabeçote de chumbo. É uma visão incrível, ver uma massa de robalos assomar à superfície, sentir um deles a ferrar e os outros todos, dezenas, a morder freneticamente na ponta do vinil.
      Certamente já lhe aconteceu, ver aquele sulco das cabeças dos robalos a chegar à linha de água, um deles a antecipar-se, e a partir daí, é uma explosão de força!

      Não temos disso todos os dias, mas vale a pena saborear aqueles que temos.
      O normal é capturarmos robalos isolados, e aí, a distância de lançamento é fundamental.
      Porque eles são muito...cobiçados e pescados.

      Abraço!
      Vitor

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