SABER TOMAR AS DECISÕES CERTAS, NOS MOMENTOS CERTOS

Quando alguém começa a pescar, tem tudo para aprender. É um momento crítico porque todo o futuro se decide numa ou duas saídas de mar.
A distância até à autonomia completa é enorme, há uma longa estrada para caminhar, há muita gente que fica pelo caminho por incapacidade de entender por onde ir.
Nem tudo na pesca será demasiado intuitivo.
É ao mesmo tempo um momento muito feliz, em termos de descoberta. É o abrir de uma porta para um mundo onde tudo chega como sendo novo. Os locais mais estafados pelos pescadores, parecem “novos” a quem lá vai pela primeira vez.
Todavia a quantidade de informação necessária para obter resultados é imensa. Diria que “é muita matéria a estudar…” e quem ensina tem uma responsabilidade acrescida.
O que não falta por aí é quem tenha muitos anos de pesca. Isso não quer dizer forçosamente mais conhecimento, (há quem pesque há muitos anos e seja um perfeito indigente em termos técnicos...) mas ainda assim o tempo pode ajudar, conferindo a essa pessoa um eventual e pressuposto potencial de sabedoria.
Como em tudo na vida, haverá quem consiga apreender mais ou menos detalhes sobre o fenómeno da pesca.
Há em Portugal gente com conhecimentos profundos, gente que sabe muito bem o que está a fazer. Podem não os conseguir exprimir, podem ter dificuldade em traduzir por palavras aquilo que sabem, mas indiscutivelmente nós temos, de norte a sul de Portugal continental, e nas ilhas, gente a saber muito.
Atenção aos níveis de conhecimentos dos nossos velhotes, aqueles que hoje já estão com um pé na reforma por não terem condições físicas para tão exigente actividade.
Aprendam com eles tudo o que puderem e nunca assumam o tempo como perdido.
No meu caso pessoal, nunca dispenso a enorme sabedoria prática de quem tem duas coisas: cabelos brancos e vontade de conversar sobre pesca.
A nova vaga de pescadores, e refiro-me à geração que aí vem, os rapazes dos 15/ 18 anos de hoje, será porventura melhor que qualquer um de nós.
Porque têm muito melhores equipamentos, porque conseguem ter acesso a embarcações de recreio que os levam a todo o lado, e porque têm infinitamente mais e melhor informação. E isso faz mesmo muita diferença.




Da parte dos profissionais, podemos esperar mais experiência, mais responsabilidade. Os nossos pescadores comerciais sabem muito bem onde está o peixe, e também da parte dos operadores de embarcações MT podemos esperar qualidade.
Por definição, são elementos que saem a pescar com regularidade, são pessoas muito ligadas ao fenómeno da pesca. Seguramente saberão mais que aquilo que podem mostrar, caso não os pressionem para fazer preços baixos por saída, e com isso limitar o seu raio de acção. Um guia de pesca sabe de pesca, ou não o seria. A esse, podem fazer-se perguntas e ele tem a obrigação de as saber responder.
Bem sabemos que a natureza tem regras próprias e nem todas são tão evidentes quanto aquilo que parece. Mas ainda assim, para quem tem algumas dezenas de anos de pesca intensiva, existe um capital de experiência que resolve a quase totalidade das questões.
Também a nível da segurança, podemos esperar que um guia de pesca saiba entender os fenómenos atmosféricos, aplicar a sua experiência, e saiba entender quando se pode continuar a pescar, ou quando o momento é para regressar a porto seguro.




No meu caso, o sistema que utilizo é relativamente simples: saio ao mar com quem quer aprender, vou de espírito aberto para ouvir perguntas, e levo equipamentos para uma infinidade de situações.
Quando poderia parecer ser um bom dia para isto, afinal, por qualquer motivo, pode passar a ser um dia em que é necessário fazer aquilo.
Refiro-me a situações em que vamos a pensar pescar de uma determinada forma e ao chegar ao local verificamos que nesse preciso momento está uma traineira a largar redes sobre a pedra, e afinal já não vale a pena insistir na ideia inicial.
Quantas vezes temos de mudar de lugar, por constatarmos que por esta ou aquela razão, não devemos permanecer na zona.
Por isso levo sempre três a quatro possibilidades de pesca diferentes, e escolho aquela que me parece ser a mais adequada, naquele momento. Sem prejuízo de daí a umas horas poder estar a fazer algo diferente.
Mas há um plano inicial, sem dúvida, e eu procuro cumpri-lo.
À chegada à zona de pesca escolhida, (normalmente a opção é feita em função do estado do mar, da época do ano, do tipo de pessoas a bordo, dos seus interesses e objectivos…), e atendendo ao que possa existir no local, assim a técnica de pesca é uma ou outra. Não adianta fazer spinning de madrugada, num dia frio de Janeiro, com geada forte e temperaturas muito baixas, porque o peixe estará fundo.
Da mesma forma que dificilmente obteremos resultados a meio do dia em zonas baixas e com o sol a pique.
Tudo tem de ser considerado, e as variantes são imensas. Aos olhos de quem se inicia, tudo parece bem e controlado, mas quase nunca é assim. E não basta que exista peixe na sonda.
A partilha de informação deve ser constante, e o guia de pesca deve explicar as suas opções em função daquilo que os seus olhos estão a ver. Isso será de enorme utilidade a quem um dia se verá sozinho e vai ter de tomar as suas decisões.
Porque a pesca é isso mesmo: saber tomar as decisões certas, nos momentos certos.
Em função do quadro de pesca possível, o guia faz perguntas, provoca dúvidas e a seguir, esclarece-as.
É muito importante que quem começa a pescar tenha uma noção clara daquilo que é a realidade possível para esse dia. Cabe ao guia de pesca, sem subterfúgios, sem esconder as dificuldades, indicar caminhos e soluções.
Isso é aquilo que faço, e por isso tenho sempre acima de uma centena de pessoas inscritas nos meus cursos.
Não faço saídas de pesca correntes, para isso há centenas de pessoas por aí e a preços irrisórios. Faço cursos de pesca.




Os desafios são sucessivamente lançados ao iniciado e este tenta vencê-los. O guia alterna entre passar o seu saber através de palavras claras e precisas, e o necessário silêncio, para que a pessoa possa assimilar aquilo que tem a fazer. Sem pressas, sem pressão.
A dada altura, o guia passa a ser apenas uma voz que chega da consciência. O silêncio, nesse momento, também faz parte do processo de aprendizagem.
Muitas pessoas chegam à solução a ver fazer, e o guia exemplifica, outras preferem descobrir por si. Nesses casos, o guia deve adoptar uma presença discreta, deixando que o cliente se entregue ao seu raciocínio de forma intensa, considerando novas possibilidades e outras soluções que antes simplesmente não emergiam na sua mente. E após alguns ensaios, e caso a solução encontrada não seja a mais conveniente, o guia de pesca intervém. É aí que surge a palavra certa no momento certo, o “ …e se tentarmos desta forma?....
A experiência de pesca tem-se ou não, e não é algo que se estude nas escolas. Há um momento em que a pessoa deve deixar sair para fora tudo aquilo em que acredita. Trata-se de um esforço consciente, racional, e que nesse momento é tudo aquilo que alguém que começa a fazer algo consegue dar.
Cabe ao guia dar uma ou outra pista, sem prejudicar o fio de pensamento do pescador. Este, tem tudo para aprender e não é de todo conveniente que o faça de forma demasiado rápida. Há demasiados dados a serem processados ao mesmo tempo: equipamentos, técnica, movimentos, sons, cheiros, emoções, sensações, dificuldades, ondas, sangue, água salgada, tudo é um mundo novo. O guia dá tempo, dá pistas e os resultados começam aos poucos a aparecer.
É minha opinião que dar pistas de como fazer, e porquê, é muito mais importante que oferecer peixe a quem sai ao mar.




Nem todas as pessoas têm a mesma intuição, a mesma velocidade de raciocínio, e por isso uns precisam de mais tempo que outros. Mas no fim, o pescador experimenta executar de várias formas e compara os resultados.
Será ele a encontrar o seu balanço, o seu equilíbrio, a sua técnica pessoal. Quando volta a terra, invariavelmente terá a sensação de que poderia ter feito melhor, que lhe faltou algo. É normal que assim seja.
Voltará outro dia e aí irá transcender-se, superar-se na sua contínua aprendizagem e desenvolvimento, até um dia ter argumentos que lhe permitam ensinar a outra pessoa, outro iniciado.
O papel do guia de pesca é esse: fazer emergir de dentro de cada um as capacidades que essa pessoa possa ter dentro de si.
Os resultados não devem ser medidos a quilo, a quantidade de peixe interessa muito pouco, mas sim ao nível da experiência, do grau de satisfação.
E isso tem muito pouco a ver com quantidade, mas sim com qualidade. É da descoberta do seu interior, da sua intuição própria de pescador, que é feita a avaliação final, pelo próprio.
O guia de pesca serve apenas de catalisador, de veículo de passagem de algum conhecimento, para que o iniciado possa chegar aos seus próprios resultados.
Deve servir apenas de gatilho, de elemento que irá despoletar a insistente procura de mais e mais saber.
No fundo, lança a semente da pesca e deixa que ela cresça ao ritmo pessoal de cada um.



Vítor Ganchinho



Comentários

  1. António Lopes26 novembro, 2022

    Bom dia Vitor
    Apropriando-me das suas palavras "Quando alguém começa a pescar, tem tudo para aprender. É um momento crítico porque todo o futuro se decide numa ou duas saídas de mar." Tenho 53 anos e comecei a ganhar o bichinho do mar, da pesca, tenho tudo para aprender e sim... foi na minha primeira e verdadeira saida que tudo se decidiu, que tudo fez sentido.
    Já tinha saido algumas vezes de barco com amigo, mas o conhecimento, as pistas, os alertas fazem toda a diferença para quem começa e é importante começar com quem realmente sabe e pode partilhar o conhecimento. A satisfação e o grau de experiência é enorme, depois a semente da pesca vai germinar e crescer ao ritmo possivel.

    Muito obrigado pelas palavras, pelo blogue e por tudo o que faz pela pesca

    Abraço

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    1. Boa tarde António Lopes

      Foi um prazer para mim poder sair para a pesca e mostrar um pouco daquilo que é o mar em Setúbal. Cada região tem os seus encantos, há muito peixe para pescar no nosso país, e por isso as oportunidades são quase ilimitadas. Por vezes um guia de pesca ajuda a encurtar caminho, a chegar mais depressa. Foi isso que procurei fazer na nossa saída de mar.
      Acho que podemos fazer melhor! Os detalhes técnicos para os quais chamei a atenção não deixam de ter alguma importância, porquanto são eles que determinam o sucesso, ou não, do acto de pesca. Já teve a paciência de tomar nota de alguns, e certamente teremos a oportunidade de votar a sair e a poder analisar outros aspectos.
      Temos tempo, o mar está lá todos os dias.

      Abraço
      Vitor

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  2. António Lopes29 novembro, 2022

    Boa noite Vitor

    O prazer foi meu em poder usufruir de tanto conhecimento e da partilha do mesmo, aprendi imenso.
    Verifiquei também a importância do equipamento, equipamento adequado faz milagres nas mãos de pessoas como eu que não percebem nada de pesca.
    A pesca em si, o mar, o ambiente e tudo o que rodeia é terapêutico, tentar perceber o que se está a passar quando a jig desce e a linha desenrola, por vezes parece que tem pequenas paragens, o que se passou? O que fazer?... É simplesmente fantástico ter nestes momentos pequenos flashs de informação lida no blogue e tudo passa a fazer sentido
    Sentir o peixe picar a 50 m não tem explicação, é uma sensação indescritível, senti-me como em miúdo quando descobria algo fantástico. Mesmo que depois não se consiga ferrar por incompetência própria, mas isso são outras coisas que se vão aprendendo, como refere o Vitor são "detalhes técnicos".
    Com as minhas "vassouras" nem consigo sentir a 20 m, realmente o material associado ao saber é outra coisa!!!

    Abraço
    António

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    1. Olá TóZé!!


      Aquilo que fizemos na nossa saída de pesca foi apenas levantar o véu para a enorme quantidade de possibilidades que existem. Foi muito divertido para mim levar alguém que nunca tinha feito jigging, e ver os progressos surgirem tão rápidos. Para o fim da manhã muita coisa já fazia sentido.
      Por outro lado, aquilo foi feito em ambiente controlado, não houve grandes possibilidades de não trazermos peixe.
      De facto o equipamento ajuda. Não seria capaz de pescar aquilo que pesco sem material à altura, porque a cada instantes iria estar a esbarrar na impossibilidade de conseguir isto ou aquilo. Os carretos e as linhas são muito importantes, e a cana é o nosso ecrã, ela diz-nos tudo. Permite-nos ler aquilo que se está a passar.
      Aquilo que escrevo no blog tem a ver com aquilo que faço. Só pode escrever sobre pesca quem pesca. E não é difícil porque afinal de contas pesco há 53 anos, quase 54, ou seja, quase a minha vida toda. Comecei aos 6...


      Vai ver que da próxima vez que sairmos vou poder mostrar-lhe coisas completamente diferentes.

      Abraço!
      Vitor

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