A pesca, enquanto actividade elementar de recolha de peixe, tem de per si pouco interesse. Se for garantida, certa, perde o seu encanto.
Para mim, ela não existe se não houver uma percentagem, por ínfima que seja, de possibilidade de falha, de poder não acontecer. O pescador pode passar todo um dia sem pescar um bom peixe e isso faz parte.
A pesca tem tanto de ingrato e inesperado, de aleatório, que não pode nem deve ser nunca tomada como algo garantido.
Digamos que os pescadores a sério, os convictos, os que procuram os grandes troféus, vivem muito mais num mundo de hipotéticos resultados, de incerteza, num mundo de “talvez”, que num mundo de factos reais, garantidos.
Aquilo que é garantido são as marés.
Essas sobem e baixam ao seu ritmo e dispensam conclusões mirabolantes. Apenas sobem e baixam e nada têm a ver com a opinião de alguém. Não são um produto de opinião.
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Atribuímos a este calhau no espaço muitas das nossas falhas... |
Mas os peixes esses são seres com vontade própria e nem sempre essa vontade coincide com o nosso anzol. E se por acaso os conseguimos enganar, …muitas vezes vão embora por aselhice nossa, aquilo a que chamamos prosaicamente de…azar.
É verdade que cada vez que perdemos um peixe bom devíamos perder um ponto na carta de condução mas encontrar um culpado que não seja o equipamento, a lua, (sim a lua, essa malvada!), o dia de signo pouco favorável, não é fácil.
Conhece alguém que admita que perdeu um peixe grande por culpa exclusivamente sua?!
O azar e a lua levam com as culpas todas e assim sendo está tudo bem, os nossos falhanços ficam com pai e mãe atribuídos e não se fala mais nisso.
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É bom que a lua tenha “costas largas”. |
Parece-me pertinente tecer algumas considerações acerca do tema probabilidades de pesca versus probabilidade de falhanços.
Vou tentar dar-vos uma ideia de como isto funciona, utilizando um exemplo prático de uma actividade de alto risco, a aviação.
Poderia ser qualquer outra área, até mesmo a pesca por razões de proximidade, mas tomo os transportes aéreos por ser algo muito óbvio, muito evidente para vocês.
O conceito é o aumento ou diminuição das probabilidades de termos “azares” a partir da soma de diversos factores de risco.
Falo-vos da indução sucessiva de mais e mais comportamentos os quais, na sua totalidade, aumentam exponencialmente os riscos de falhas. Os pilotos de aviões chamam a isso a “soma de factores negativos”.
Para eles são coisas muito concretas, tais como a marca e qualidade intrínseca do avião, o modelo da aeronave, o número de pessoas a bordo, ou seja a carga total a mover entre pessoas e malas de cabine e porão, o facto de se estar no princípio do voo ou no fim deste, (com influência na quantidade de combustível nos tanques, logo do peso do aparelho), a temperatura do ar junto do aparelho, superior se o avião se encontra a voar mais baixo, etc, etc.
O que temos a registar é a soma de todos os factores negativos, considerando tudo aquilo que pode fazer perigar a missão de transportar pessoas de um ponto a outro.
À medida que vamos somando detalhes negativos que podem contribuir para uma situação de catástrofe, vamos ficando mais próximos dela. Percebem o conceito?
Em pesca, também podemos fazer o mesmo tipo de raciocínio: um carreto mal lubrificado, a prender a linha e a forçar o seu limite de resistência, uma cana com passadores rachados, linha velha já desgastada pelo uso, uma baixada de fluorocarbono demasiado usada, eventualmente linha de menor qualidade adquirida num armazém chinês, um nó que já suportou muito esforço e cede, uma discrepância entre a acção forte da cana e uma linha fina utilizada, etc.
Sempre que acontece uma rotura de linha, ela é decisiva em termos de perda do peixe. O assunto acaba ali.
A ponta do icebergue é a parte visível, aquilo que é óbvio, neste caso a fuga de um peixe que tanto queríamos. O que está submerso e não é evidente será sempre uma multiplicidade de detalhes que nós pescadores deixámos ao acaso.
O conceito é esse: a quantidade de detalhes que deixamos ao acaso e conduzem a um fim trágico.
Por vezes coisas tão simples quanto deixar as linhas de fluorocarbono em contacto com a luz solar. Sabemos que os UV’s as enfraquecem bastante e por isso há que as manter tapadas.
As boas marcas de linhas cuidam de as fornecer com coberturas de neopreno com velcro, de forma a que fiquem sempre no escuro.
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Há pessoas que vão ao mar com embarcações menos cuidadas. E se acontece uma avaria dizem que é …azar. |
Ou o exemplo clássico de não termos o drag do carreto devidamente lubrificado. Sabemos que no momento crítico em que o peixe faz contacto com a amostra/isca, a seguir à ferragem iremos ter uma saída intempestiva, muito brusca, e nem sempre temos a possibilidade de reagir a tempo. Se o drag/ embraiagem não estiver lubrificado, aquilo que vai acontecer é uma prisão de linha.
A bobine não gira, ou pelo menos não o faz à velocidade necessária para que o peixe nunca tenha um ponto de apoio onde aplicar o seu peso e força.
Se o drag estiver seco, com demasiado atrito, pode não chegar a mais de dois a três segundos o tempo que o peixe leva a vencer a elasticidade da cana, a dobrá-la até ao seu limite e a atacar a partir daí a resistência da linha.
Quando chega esse momento, e pese embora a qualidade dos multifilamentos hoje em dia, normalmente esta cede. Perder um bom peixe por incúria na lubrificação do carreto é …deprimente.
E que dizer dos anzóis? Um anzol fraco que abre é um flagelo para um pescador. Poucas coisas nos deixam tão frustrados quanto isso.
Mas não ficam por aqui os problemas que levam à perda de bons exemplares.
Vamos no próximo número desta saga continuar este texto.
Vítor Ganchinho
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