Quantas vezes já nos aconteceu ter a sensação de que nos aconteceu algo que está a acontecer precisamente naquele momento, por exemplo o facto de já termos pescado um determinado peixe?
Repetimos os gestos, sabemos como actuar perante esta ou aquela situação, por já a termos vivido.
E vamos mais longe: mesmo sem vermos o peixe, sabemos o que aí vem.
As reacções dos peixes são tão padronizadas, tão iguais entre si, tão repetidas, que podemos sem grande margem de erro conseguir adivinhar aquilo que mordeu o anzol.
Mesmo em pesqueiros bastante fundos, a forma como os peixes puxam, a intermitência dos seus esforços para se libertarem, permitem-nos entender o que aí vem para cima.
Pescadores batidos, experientes, fazem isso com uma margem de erro mínima.
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| Um robalo puxa sempre como...um robalo. |
Este entendimento é rápido, espontâneo, e muito mais preciso que a maior parte dos pescadores novatos pensa ser possível.
Os contrastes entre espécies são de tal forma evidentes que não há forma de se confundirem entre si. Uma lula puxa de forma intermitente, fruto da possibilidade única que tem de usar o seu sifão, de encher e vazar de água o seu corpo, e um pargo força para o fundo, de forma contínua, pois sabe que é ali que está a sua salvação.
E os exemplos são inúmeros, e algo repetitivos: as cavalas pegam nos jigs ou nas iscas e interrompem a sua marcha para o fundo, os atuns sarrajões impõem o seu físico de atletas e arrancam com o anzol para o azul infinito, os lírios, de corpo musculado, adoptam uma posição “do contra” e desenham círculos concêntricos ritmados, os carapaus fazem vibrar a cauda a intervalos regulares, as choupas puxam de forma irregular e descontrolada, etc, etc.
Com um pouco de experiência, todos nós podemos saber o que aí vem, sem ver.
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| E outro, ...e outro... |
Bem mais difícil é explicar como este fenómeno se produz...
Este “sei o que é, já vivi isto” é algo que poucos de vós saberão explicar de forma convincente.
Porém, pode ser resumido a um processo de experiência prévia, uma repetição de algo já passado.
É difícil de estudar cientificamente, por ser tão breve, durar tão poucos segundos. É como tentar estudar um raio que cai do céu: sabemos que existe, mas ele não cai quando, como ou onde queremos que caia.
Da mesma forma, um peixe morde quando calha, quando as condições estão favoráveis para isso, quando quer, e não por imposição nossa.
Acontece sem aviso, dura fracções de segundo e exige de nós uma reação rápida e decidida. E quando conseguimos contacto, um click produz-se na nossa mente e diz-nos o que que fazer a partir daí.
Entramos em modo automático, recorrendo a uma infinidade de gestos ultra-treinados por já repetidos vezes sem conta.
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| Ao fim do dia adicionamos peixes que repetem as atitudes de muitos outros e isso dá-nos um padrão, uma experiência que já vivemos. |
De seguida, o nosso cérebro recorre a dados armazenados e diz-nos como fazer, de que forma podemos obter melhores resultados.
A sensação de que já passámos pela situação advém de uma perturbação no normal funcionamento de dois processos cognitivos independentes (um de perceção e outro de memória) que, normalmente, atuam em simultâneo.
Esta descoordenação psíquica proporciona uma falsa sensação de familiaridade, perante um estímulo novo. O cérebro mistura o que está a ver com aquilo que já viu antes.
E dá-se o famoso....” eu já vi isto”, ainda que esteja a acontecer naquele momento à frente dos nossos olhos. O peixe puxa a linha, mas é apenas mais um peixe que puxa a linha daquela forma.
Sabemos o que vai acontecer a seguir....
Chamamos a isso apenas “experiência de pesca”, mas é mais que isso.
Já vos aconteceu?
Vítor Ganchinho
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