Falava há dias com um companheiro de ginásio sobre um tema que lhe diz muito: as douradas de Setúbal.
Para ele, trata-se de um peixe que nasce e morre no mar, sem ter qualquer contacto com as zonas estuarinas.
Mais que isso, na sua opinião, os alevins de douradas “desenrascam-se” por ali, pelos fundos de 70/ 80 metros e ali crescem. Como se isso fosse possível...
Nada de mais errado, o percurso de vida das douradas juvenis é outro e isso serve-nos de tema para o trabalho de hoje.
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| As douradas que temos são na verdade peixes juvenis aos quais se exige mais reprodução que aquilo que podem dar... |
Preferencialmente, a dourada faz as suas posturas dentro dos rios, no interior da zona estuarina, entre a largura e profundidade da foz e os estreitos e superficiais braços de mar, aí já nos limites fisiológicos de água doce admissível deste espárida.
Porém, as desovas podem, por força de uma multiplicidade de factores, ser feitas fora, em mar aberto. Isso acontece sobretudo por força de acção humana, (pressão de pesca com redes + poluentes químicos).
Há muita informação sobre a sequência deste processo aqui no blog pelo que me dispenso de repetir detalhes.
Quero apenas referir este detalhe: as baixas temperaturas nocturnas arrefecem as águas costeiras superficiais e a dada altura a dourada sente necessidade de afundar, de procurar as termoclinas de águas mais quentes, mais favoráveis, as quais existem algumas dezenas de metros abaixo.
São empurradas para longe e para baixo, contra a sua vontade!
Gostaria que considerassem o seguinte: se fizerem num mapa da foz do Sado um esboço das pedras que existem, vão reparar que as douradas se deslocam sempre no sentido do rio para fora, dos baixios para os fundões, das pedras mais baixas para as mais profundas.
Elas vão, por força das limitações naturais que sentem, colonizando as pedras uma a uma, por etapas, tentando desesperadamente ficar perto do rio. Porquê?
Instinto puro: elas sabem que os seus descendentes beneficiam da proximidade aos baixios do estuário. É ali que está a salvação.
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| Estes peixes ainda não têm o sentido do perigo, são frágeis, indefesos e uma presa fácil para um jovem predador. |
Repito: mesmo que as posturas sejam feitas longe, a fixação está toda no rio.
Assim que temos um ser, um pequeno ser pós-larva que pode decidir por si para onde vai, o caminho é só um: águas fluviais rasas.
O sentido do fluxo de nutrientes trazido pelas correntes, os perceptíveis sinais químicos e o instinto dos pequenos seres impele-os a demandar essas águas baixas onde, aí sim, terão alimentação e condições de crescimento.
O mundo da profundidade não, esse é absolutamente hostil, está cheio de perigos e não é local onde uma dourada juvenil possa crescer sem problemas.
Penso que poucas douradas poderiam ter sequer a possibilidade de sobreviver por muito tempo nessas condições, em mar aberto, a enfrentar predadores de mar alto, preparados e sequiosos por alimento fácil.
Acreditar que isso é possível, que uma dourada de menos de 1cm pode deambular pelos fundos a dezenas de metros sem que surja um pequeno predador a reivindicar a sua posse é o mesmo que acreditar que uma criança de 1 mês de idade pode sobreviver sozinha se deixada no meio do trânsito de uma auto-estrada...
Nascer a partir do óvulo fertilizado já é uma vitória, e não será possível a todos. A taxa de mortalidade pré-oclusão depende da qualidade das águas, da poluição existente, e esse é o primeiro factor a superar.
Muitos dos alevins nascem fracos, e esses ficam pelo caminho, não sobrevivem ao primeiro esforço.
Conseguindo passar essa fase, a pós-larva tem um longo e árduo caminho a percorrer, deixando-se levar pelas correntes, nadando no sentido certo, o da salvação: os esteiros.
Durante esse caminho, os predadores de superfície esperam-nos. O peixe-agulha faz a sua vida alimentando-se sobretudo destes ínfimos mártires.
Já viram as cavalas ou as tainhas à superfície a absorver água. Não estão a beber...estão a filtrar matéria orgânica, ...óvulos e larvas. Alguns são...douradas.
Os peixes juvenis necessitam dos baixios, da sua quantidade e qualidade de alimentação disponível, e sobretudo da sua segurança. Os esteiros dos rios são isso tudo e podem ser considerados as verdadeiras maternidades do peixe que pescamos na nossa costa. As bacias dos nossos rios são berçários para o peixe adulto que temos na costa, o peixe que tanto gostamos de pescar.
Continuamos no próximo número do blog.
Vítor Ganchinho
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Excelente texto. Muito interessante.
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