VAI HAVER CHOCOS? - CAP II

Há um sincronismo perfeito entre os diversos factores que levam à antecipação ou postecipação de uma postura de choco.
Não é apenas um determinado detalhe, são sim todos, no seu conjunto: as horas de luz diurna, a temperatura das águas, a rarefação de predadores, a chegada dos temporais mais fortes, a abundância de alimento, etc. Tudo isto afecta o tempo de reprodução dos chocos.
Parece não ser um exclusivo dos cefalópodes, de resto.
Todos aqueles que dependem da quantidade de alimento disponível, pequenos caranguejos, anelídeos -as ditas minhocas- outros chocos de menor tamanho, (sim, o canibalismo é comum nesta espécie), alevins de peixes e muitos outros, com os camarões à cabeça (daí a facilidade com que se pescam chocos apresentando-lhes imitações de ...camarão), estão muito atentos ao momento certo para adentrarem os estuários e aí procederem à sua desova anual.
Na lua certa, em noites de muito baixa luminosidade, ei-los que entram...

Os chocos grandes, que tanto nos alegram...

Onde andam os chocos ao longo da sua vida?
Pese serem pescados sobretudo em baixas profundidades, em zonas de areia ou vaza/lama, o seu ciclo de vida empurra-os para fundos que podem ir até aos 200 metros.
O outono e inverno são passados sobre a plataforma continental, em cotas que normalmente não excedem os 100 metros, seguindo-se a primaveril migração anual para dentro dos estuários.
Se quisermos fazer uma cronologia migratória, ela não será muito diferente disto: outono- saída para o largo, (mesmo os chocos juvenis saem do rio nesta altura), fim do inverno/primavera- entrada para efeitos de acasalamento e reprodução.
Tenho assistido a um aumento progressivo de barcos carregados de gente que vão aos fundões procurar estes cefalópodes. Vejo-os a pescar chocos a 70/ 80 mts de fundo.
Isso é um perigo para esta espécie de molusco.
Não estão a fazer mais que a matar a galinha dos ovos de ouro, para lhe tirarem todos os ovos de uma vez. A seguir essa prática, e no dia em que esgotem esses últimos recursos, não haverá chocos para entrar nos baixios...
E quando todos os grandes reprodutores forem pescados, o que fica são “juvenis”, pequenos chocos sem idade, sem tamanho e peso para procederem a posturas com viabilidade de nascimento e criação.
E acabam...acabam mesmo os chocos. 


A pesca do choco sempre se fez dentro do estuário, a chocos entrados para desovar.
Os grandes chocos, exemplares de 5 a 6 kgs, entram no mês de Fevereiro, ainda com as águas frias, e em luas pequenas. A seguir, nos meses de março, abril e maio, entra o séquito de milhares e milhares de chocos de palmo, um pouco abaixo dos 300 gramas, aqueles cujo calibre os regista como o tamanho comum, standard, aos dias de hoje.
As fêmeas, dependendo do seu tamanho, têm uma fecundidade anual relativa mínima de 3.700 ovos /grama e uma fecundidade anual relativa máxima: 8.000 ovos /grama.
Isto torna a espécie interessante do ponto de vista da aquacultura, e por isso pode até acontecer num futuro próximo que tenhamos chocos de...aviário.
Estão prontas a acasalar ao fim de um ano de vida, sendo a sua longevidade enquanto espécie de apenas dois anos.
Isso implica um prazo curto para a escolha de um par de acasalamento, pese o cortejo pré-nupcial seja dado a um ritual elaborado, com câmbios de cor e um certo protocolo de namoro.
Com pressa mas com preceitos...
Pode acontecer que para uma fêmea existam vários machos disponíveis e isso implica demoradas lutas pela supremacia de um deles. Esse, o vencedor, será o eleito para acasalar.


A sua relativa intolerância a águas salobras, água doce das chuvas, não lhes permite entrar bem acima nas águas do rio, conforme tanto gostam.
Nessas alturas ficam-se pelos limites externos do estuário, (pescam-se na barra, quase fora, onde a água salgada do mar prevalece), mas esperam ansiosamente por melhores condições.
Se não chover durante dias, isso interessa-lhes: sobem os esteiros e aproximam-se dos baixios, zonas superficiais calmas onde as suas crias poderão encontrar segurança e muita comida disponível.
É aí, preferencialmente, longe das toneiras dos pescadores, que irão proceder à desova a qual ocorre idealmente a temperaturas mínimas entre os 13º e 15ºC e máximas a tocar os 18ºC.
As posturas, cachos de ovos pretos de 8 a 10 mm de diâmetro, serão fixas a estruturas sólidas: pedras, ervas marinhas, conchas, detritos, e quaisquer outros substratos, incluindo construções humanas.
Não é raro que, por demasiada pressa em libertarem os ovos, o façam em...redes de pesca activas.
Daí a possibilidade de se comerem em Setúbal as apreciadas “ovas de choco”, algo que pouco mais é que um verdadeiro crime ambiental.


Por alguma razão a quantidade de chocos em Setúbal será muito maior que em qualquer outra zona do nosso país.
O estuário é largo, tem zonas com alguma profundidade, (no canal da Restinga chega aos 46/ 47 metros de fundo....) o que ajuda a manter uma temperatura média aceitável, mas tem de haver mais que isso.
É aí que entra a enorme quantidade de alimento disponível. Entre os factores que mais podem interferir no crescimento dos cefalópodes inclui-se esse, a quantidade e a qualidade do alimento. E no Sado não faltam presas de todos os tamanhos e feitios, quer em termos de inocentes alevins de peixes quer de zooplâncton disponível para as crias assim que acontece a eclosão.
A abundância de alimento provoca no choco juvenil um crescimento rápido, dando a entender que a espécie está bem e se recomenda. Mas na verdade isso não passa de uma ilusão de óptica, os chocos são cada vez menos, as capturas, quer da pesca desportiva quer da pesca profissional artesanal, referem-se a indivíduos ainda em fase de crescimento, e quantas vezes antes da sua reprodução.
O que limita mais e mais as possibilidades de a espécie conseguir um rácio de reprodução sustentada, uma relação criação (+ chocos) / versus capturas (- chocos) estável.
Beneficiamos ainda neste momento de uma onda de nascimentos/ criação de chocos anormal, proporcionada pelos anos em que o COVID impossibilitou a captura de reprodutores por interdição da pesca lúdica, mas isso irá esbater-se a cada ano, temendo eu que daqui a algum tempo não tenhamos fêmeas em quantidade e qualidade suficientes para garantir essa estabilidade.

As grandes fêmeas depositam mais alguns milhares de óvulos /ano que as pequenas… Mais que isso: sabem e podem guardá-las.

Enquanto pesca dirigida, a pesca do choco, por ser muito especifica em termos de equipamentos, não prejudica as outras espécies.
Ainda assim, vejo com muita apreensão o facto de se venderem no Mercado do Livramento os “choquinhos” de 6 cm de comprimento.
A quem serve isso, sem ser a quem recebe alguns euros por esse crime ecológico?
Que se pesquem chocos adultos, isso sim!

A GO Fishing recebeu uma coleção de toneiras de luxo: a marca SQUID MANIA é conhecida de quem pesca chocos de forma regular, ao longo de todo o ano.
Iremos publicar aqui proximamente algumas fotos dessas unidades, com as cores de 2026.
Permitam-me chamar a atenção para este detalhe: poucos pescadores por esse mundo fora serão tão conhecedores dos hábitos e técnicas de pesca ao choco como os que demandam ao estuário do Sado todos os dias do ano. 
Há gente com mais de sessenta anos deste tipo de pesca no corpo.

Em Setúbal sabe-se pescar ao choco!


Vítor Ganchinho


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