Os chocos estão na linha da frente daqueles a quem uma trovoada não interessa muito...
A queda de água doce sob a forma de chuva persistente, forte, continuada, influencia negativamente o grau de salinidade da água e isso desagrada-lhes.
Também não gostam de águas geladas e vento norte, frio. Nessas alturas, enterram-se e reduzem a sua actividade metabólica a um mínimo. Não comem.
Sabemos que os chocos são sensíveis a factores ambientais não controláveis, tais como a temperatura do ar, ( 17.5ºC é a sua temperatura favorita) a temperatura da água, (se puderem escolher preferem 17.5ºC a 18ºC), o grau de salinidade elevado, (o mais próximo do nível médio do mar aberto), águas limpas, sem demasiados sedimentos, e sol, muito sol, ou seja muita luz junto ao fundo onde permanecem.
Estas são as condições ideais para que este cefalópode se faça notar.
Quando isso não ocorre, a entrada de chocos no estuário do Sado não se verifica, ou sofre uma desaceleração significativa.
E as toneiras não encontram par...
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| As grandes “chocas” irão entrar nos estuários para depositar as suas ninhadas. |
Vamos ver nestes dois capítulos dedicados aos chocos alguns detalhes que podem ajudar a explicar o seu estranho comportamento, e algumas das razões pelas quais eles ficam à porta, em mar aberto, espalhados pelos areais da foz, sem entrar.
Baixos índices de chuva ajudam a garantir um mais elevado índice de salinidade e esse é um factor chave para os chocos.
É ele que, em conjunto com alguns outros não menos importantes, determinam se irá haver ou não chocos para pescar dentro do rio. A entrada verifica-se pela calada da noite, em absoluta discrição, e pode ser absolutamente massiva, dependendo da lua. Ou da falta dela, já que preferem deslocar-se em fases de luas pequenas, pouco brilhantes.
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| As noites escuras são aproveitadas pelos chocos para subirem o rio. |
Temperaturas amenas ajudam a que o choco suba os esteiros até zonas muito baixas, a cotas que podem ser inferiores a um metro de profundidade. Aí, nesses baixios pejados de alimentos para as suas ninhadas, estarão os reprodutores mais a salvo de predadores como os golfinhos e ...dos barcos de pescadores.
Mas em contrapartida ficam mais expostos aos elementos, nomeadamente aos ventos e ao arrefecimento nocturno, típicos dos meses frios. Ou, em caso de queda de chuva, a uma dessalinização da água que também os incomoda.
A vida do choco é curta, dois anos apenas, e é feita de uma luta permanente entre o temporal e turbulência que limpa, mas mata criações, e o arrefecimento das águas, que obriga os progenitores a uma debandada das zonas de posturas.
Uma tempestade em si não é um factor negativo. O timming em que ocorre é que pode ou não ser o ideal, dependendo de acontecer antes ou depois da postura.
Haver movimentação de águas pode ser bom, desde logo porque proporciona as condições ideiais para que os cachos de ovas possam ser fixos em estruturas limpas.
Os detritos que caem sobre os cachos dos embriões tapam-nos e prejudicam sobremaneira o seu normal desenvolvimento ao retirar-lhe a quantidade de luz necessária.
Mais que isso, reduzem substancialmente a sua eclosão em tempo útil, junto de todos os outros indivíduos da mesma postura. Atrasam a eclosão.
É certo e sabido que os predadores rondam e aspiram a capturar todos aqueles que saem mais fragilizados, e o facto de existir uma saída dos óvulos mais espaçada no tempo favorece-os.
Permite-lhes um grau de atenção superior, mais tempo de preparação, com o consequente aumento da eficácia na captura dos indefesos chocos juvenis. Acontece ...o massacre.
Depois porque ao mesmo tempo que a tempestade lava também desenterra uma enormidade de alimento que se encontrava a salvo, tapado de areia.
Falamos de micro e macro organismos que tentam a todo o custo esconder-se de quem os quer e pode comer.
A curta vida de um choco é uma luta constante entre aquilo que é bom, ideal, e aquilo que tem de ser...
Quando vos digo que a temporada dos chocos vai começar mais cedo, isso não se deve ao conhecimento prévio de nenhum factor de ordem natural que induza a isso, mas sim ao facto de haver cada vez mais gente a querer antecipar a sua pesca. Se há umas dezenas de anos a pesca do choco era restrita a gente do mar reformada, que tinha nas suas aiolas de madeira e nos remos um meio físico de conseguir melhorar o orçamento familiar, de esticar um pouco mais os minguados valores das reformas, hoje não é assim: centenas de pessoas pescam chocos por diversão, e algumas dezenas até para procederem à sua venda...
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| A pesca do choco em águas estuarinas já não é um exclusivo dos velhotes reformados das lides marítimas. |
Embora existam autores que defendem a não existência de uma época de reprodução bem vincada, afirmando que a reprodução ocorre todo o ano, a verdade é que todos aqueles que os pescam no Estuário do Sado sabem que o final do inverno e início da primavera é um período de excelência para que a reprodução aconteça.
Se os biólogos o dizem, pois seja, mas na Meca do choco em Portugal, Setúbal, os meses de fevereiro, março e abril serão, em termos de qualidade e quantidade, porventura aqueles que maior unanimidade recolhem junto dos especialistas na sua pesca.
Mais a norte, nomeadamente na Ria de Aveiro, o período de reprodução poderá chegar atrasado em alguns meses, apontando para os meses de Junho a Agosto.
Dizem também os biólogos que o choco alcança a sua maturação sexual quando o tamanho do manto se aproxima dos 9 cm (9,5 cm para os machos e 8,5 cm para as fêmeas). Aceitemos isso, cientes de que a um drástico aumento das capturas, conforme se tem vindo a verificar nos últimos anos, corresponderá uma antecipação “forçada” de entrada em cio de exemplares mais jovens, infelizmente menos produtivos em termos de quantidade de óvulos depositados.
Vamos ver no próximo número algo mais sobre os chocos.
Vítor Ganchinho
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