Quando estamos numa praia, numa falésia, ou em cima de um barco, somos observados por...peixes.
É um palpite meu que muito poucas pessoas tentam entender o que se passa do outro lado, de que forma somos vistos pelo peixe que queremos pescar.
E todavia, sobretudo para quem pesca em baixios, seria importante ter uma ideia geral de como somos vistos, que tipo de ameaça representamos para o predador, qual o espaço de “diálogo” que existe, (o espaço dialético que separa a indiferença de um peixe perante a nossa figura, a sua passividade, e o oposto, a reacção de fuga imediata...).
Qual a tolerância de que dispomos? Por outras palavras, de que forma podemos evitar que a nossa amostra seja rejeitada por erros de actuação nossos, por nos mostrarmos demais, por projectarmos sombras e movimentos para o meio líquido.
O que é que eles veem?....
Lançar uma amostra para a água, por melhor que seja, não garante qualquer captura.
É preciso que o peixe acredite que aquele objecto em plástico, um artificial, é um pequeno peixe em fuga, algo que pertence ao seu mundo natural, que é alimento.
Por mais realista que seja a nossa amostra, por melhor que tenha sido a sua construção técnica, falta fazer acreditar ao nosso oponente que aquilo é um peixe real, e para isso, a forma de actuação do pescador interessa. Os ruídos que produzimos, as sombras que projectamos para o fundo, a própria forma como trabalhamos a amostra, afectam o julgamento rápido que o peixe faz da situação.
A maior parte das pessoas faz ruídos perceptíveis pelo peixe. E mostra-se, não procura ser discreto.
Quando passamos a barreira do aceitável, ...o peixe não morde. Não acredita.
E a partir desse momento estamos em perda e já pouco podemos fazer para inverter a situação. Não será impossível porque em pesca não existem impossíveis, mas é muito mais difícil.
Já teremos de fazer muita coisa bem feita para conseguirmos a tão almejada picada. Por vezes acontece, pese a nossa gritante falta de jeito.
Sim, aquilo que lhes pedimos é por vezes um autêntico milagre....mas acontece.
O primeiro ponto a reter é este: nós estamos num meio físico que não é o mesmo do peixe. Deslocamo-nos num ambiente de ar, atmosfera gasosa, e eles vivem num meio líquido.
Entre estes dois meios, de densidade diferente, a luz sofre uma mudança de direcção. Podem ver um exemplo na figura abaixo.
Assim sendo, há a considerar um fenómeno chamado de “refração” da luz, ou mudança de direcção, o qual altera as formas. A nossa figura projectada na água não corresponde ao nosso exacto perfil de pescadores.
Os peixes não veem os objectos refractados da mesma forma que os seres humanos, antes fazem uma interpretação própria, a partir do seu sistema visual.
Quando olham para cima, a primeira dificuldade é a de olharem numa direcção da qual lhes chega a luz do sol. No caso de uma exposição directa à luz solar, dificilmente poderão conseguir captar mais que uma sombra escura, sem detalhes.
Isso, em termos práticos, pode querer dizer que, numa saída de spinning, o posicionamento do nosso barco, ou a abordagem ao pesqueiro, deve ser feita com o sol nas nossas costas...
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| Um exemplo de refracção de luz. Parece que o lápis está partido quando na verdade apenas está a passar do meio gasoso para o meio líquido. |
Os olhos esféricos de um peixe estão adaptados para focar objectos dentro de água, e aí a sua visão é boa. Mas fora de água, a lente do seu cristalino não permite o ajustamento necessário para compensar a refracção.
Isto acontece devido ao desvio dos raios de luz que atravessam a linha de água e que não lhe permitem obter mais que uma imagem distorcida.
Se parece ser evidente que conseguem uma visão perfeita de objectos submersos, no seu próprio meio, já quando tentam ver algo fora do seu espaço líquido isso não acontece, o seu campo de visão acima da linha de água sugere-lhes a necessidade de compensações, de uma correção de formas.
Eles veem um ser humano fora de água com a percepção de que está mais afastado do que aquilo que está na realidade. E com as suas formas distorcidas.
Detectam com muito maior facilidade objectos nas cores verdes e azuis, já que essas cores são as que mais facilmente penetram na água onde vivem. Por isso mesmo, ao pescarmos fundo com amostras ou jigs verdes ou azuis, é para nós uma garantia de maior visibilidade.
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| A luz é um fenómeno que, de uma ou de outra forma, impacta a vida de todos os seres vivos. |
Há peixes que aprenderam a corrigir esse desvio de formas e conseguem projectar pela boca um jacto de água com uma precisão impressionante, com probabilidade de falha inferior a um milímetro, caso do peixe-arqueiro, de forma a fazerem cair na água um insecto, por exemplo.
Por outras palavras, o cérebro do peixe interpreta os raios curvos que lhe chegam e transforma-os em linhas rectas.
Mas não fica por aqui aquilo que um peixe tem de saber fazer para poder interpretar a imagem de um ser humano: porque a nossa imagem sofre uma refracção, eles veem a nossa parte de cima, a mais afastada da linha de água, a cabeça e o tronco, maior e mais próxima, ficando a parte da cintura e pernas mais “achatada” ou comprimida, e mais longe.
Pode acontecer ainda um outro efeito, o da imagem espelhada, o qual acontece quando a incidência dos raios de luz toca o meio líquido e reflecte na totalidade, proporcionando uma visão invertida, o mesmo que nos acontece quando nos vemos ao espelho.
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| Para os peixes, esta é a imagem que podem captar de baixo para cima, se olharem na direcção da superfície: sombras. |
Também este fenómeno é válido para nós, humanos.
Quando observamos um peixe dentro de água, ele não está no ponto onde julgamos estar, mas sim ligeiramente ao lado.
Isso tem a ver com a diferença de densidade do meio e da consequente refracção de luz que ocorre. Podemos corrigir algo deste efeito óptico utilizando óculos com lentes polarizadoras.
Podem os leitores pensar que à noite, no escuro, nada disto faz sentido, ...mas faz. Os peixes não deixam de ver à noite, os seus olhos estão perfeitamente adaptados para ver com pouca luz.
Para aqueles que têm uma actividade essencialmente nocturna, a sua evolução natural levou-os a uma adaptação de aumentarem o diâmetro dos seus olhos, os quais albergam um maior conjunto de células sensíveis à luz.
Trata-se dos bastonetes, células especializadas em captar os mais ínfimos detalhes de brilho e lhes permitem ver em condições de deficiente luminosidade.
Os nossos peixinhos valem-se de muitos outros sistemas, nomeadamente da sua linha lateral, a qual lhes permite sentir vibrações e movimentos, a audição, o olfacto e outros que porventura ainda conhecemos mal, nomeadamente a sua capacidade de navegação no escuro, a sua percepção de pressão na água e a possibilidade de sentirem os campos magnéticos, um “radar” natural que quase lhes permite dispensar os olhos.
Num meio particularmente difícil como é o meio marinho, cada um destes factores ajuda à sobrevivência do indivíduo.
A visão é tão só e apenas mais um dos meios à sua disposição.
Vítor Ganchinho
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