Confesso que não estava à espera de, nesta altura do ano, vir a abordar este tema aqui no blog.
Há demasiados acontecimentos a reclamar atenção: as águas já arrefeceram, (neste momento temos 13 a 14 ºC na água junto à costa), as primeiras geadas chegaram e os frios intensos obrigam os peixes a afundar, à procura de níveis de águas menos agrestes, menos gélidas.
Todos os anos acontece. Se de verão o peixe procura águas mais frescas e oxigenadas, neste momento é o contrário, as águas mais quentes estão por baixo, bem longe da superfície, onde o arrefecimento nocturno as torna impraticáveis para a maioria das espécies.
Estamos numa fase de grandes transformações a qual terá o seu fim apenas no início da primavera, quando o processo for invertido por força da chegada dos dias de sol mais forte, e da passagem da corrente do Golfo. Nessa altura as águas irão aquecer para os 17/ 18ºC, e a seguir, lá para julho, a atingir os 19 a 20ºC.
Neste momento preciso, a água está fria para o nosso padrão, e o peixe, por força dos temporais e abaixamento da temperatura da água, já saiu dos seus postos de caça tradicionais de verão e foi para baixo, para os fundões. É difícil de momento conseguir bons peixes em cotas baixas.
Do ponto de vista técnico há muita coisa interessante a acontecer na zona onde pesco agora e as nossas atenções deveriam ir nesse sentido.
Todavia, a questão deste leitor foi colocada com carácter de urgência e se a pessoa a quer ver respondida, pois sim:
“De que forma pode justificar-se pescar tão ligeiro?! Então se um jig de 40 gr leva bastante mais tempo a chegar ao fundo que um de 100 gr, não pescamos menos tempo?
Não é evidente que os resultados serão sempre piores”?
Talvez não.... penso que não e é isso mesmo que vamos analisar hoje, aqui no blog.
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| Pesquei estes peixes a diferentes profundidades, com um jig de 30 gr, em diversos patamares de água. |
Nesta questão colocada pelo leitor há várias imprecisões que conduzem a uma conclusão precipitada.
O primeiro erro é o de pensar que com um jig leve pescamos menos tempo.
Vamos ver: quando lançamos um jig para o fundo, assim que ele sai da nossa vista, ele já está a pescar.
Os movimentos erráticos de uma peça de chumbo não começam apenas quando o jig toca o fundo, mas sim quando ele inicia a sua descida.
Desde que não coloquemos o dedo na linha para controlar o afundamento, (é possível manter a peça em posição vertical se o soubermos fazer...e dessa forma a descida é mais rápida pois anulamos o efeito de impulsão da água) o nosso jig pesca a fazer uma queda com deslocação lateral, a vibrar, a cair de novo, a vibrar, desde que o lançamos até que o recolhemos de volta ao barco. Isso acontece por força de estar sujeito a duas forças distintas, a gravidade, que o puxa para o fundo, e a força de impulsão da água, que o empurra para cima. Da resultante, e porque a gravidade aplicada sobre a sua massa densa prevalece, o jig afunda.
Porém, não deixa de sofrer atraso, e isso dá tempo ao peixe para fazer a sua intercepção.
Logo, não pescamos apenas quando ele chega lá abaixo!...
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| Aqueles que lançam redes e as deixam ficar estáticas, pescam apenas no fundo. Mas quem lança amostras pesca desde que o seu artificial toca a água... |
Pescamos em toda a coluna de água, nos dois sentidos, de cima abaixo e de baixo acima.
Agora vejamos: há peixes que vivem na linha de superfície, outros a meia água e outros que fazem a sua vida junto ao fundo.
Para quem se interessa por estas coisas, vale a pena pensar que os peixes estão distribuídos por faixas, por patamares, por níveis de aptidão física para caçar em determinadas circunstâncias.
Se quiserem um exemplo prático aí vai: é muito natural que um peixe como o rascasso, com uma estratégia de alimentação que passa por estar imóvel, estático, confiando na sua perfeita camuflagem, assuma que para ele apenas faz sentido estar assente sobre o fundo, no meio das algas, encostado a pedras. É aí que ele caça de emboscada, com ataques repentinos, curtos, não mais de alguns centímetros em distância percorrida.
É um mau nadador, mas tem uma boca grande e a sua cauda larga e redonda permite-lhe movimentos explosivos. Curtos e explosivos.
Pela mesma ordem de ideias, faz sentido que um atum sarrajão, um peixe do azul que caça as suas presas por perseguição, se encontre posicionado a meia água, no terço superior da coluna, onde pode fazer a diferença pela velocidade que a sua cauda bifurcada forte consegue imprimir aos seus movimentos. O seu corpo fusiforme e musculado está talhado para a velocidade e consegue mantê-la por muito tempo. Caça dessa forma, por perseguição continuada.
São processos de captura diferentes a exigir adaptações físicas diferentes.
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| Este robalo engoliu um jig de 72mm...a meia água. Tudo certo, cumpriu com aquilo que eu esperava dele. |
Repito: por isto que acima foi dito, é fácil entender que não pescamos apenas quando o jig atinge o fundo. Passamos o nosso artificial por muitas “fatias” de água que podem ter um peixe activo.
Mais que isso, mesmo os peixes de fundo por vezes sobem para patamares acima. Isso acontece muito quando temos mar calmo, parado, sem qualquer tipo de movimentação de areias no fundo.
Por falta de interesse em pesquisar aquilo que apenas os temporais podem descobrir quando movem as areias, comida enterrada, os peixes predadores assumem uma posição mais elevada, num patamar superior ao esperado, por vezes até algumas dezenas de metros acima do fundo.
Diz-se na gíria que estão “alvorados”, e na prática significa que estão à procura, (ou à espera), de comida de passagem, mais acima.
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| Isto é um amanhecer prometedor!... |
Um outro factor que pode fazer variar a profundidade a que se encontram os peixes é a hora do dia.
Podemos nestas alturas de mares mais calmos conseguir peixes supostamente de fundo, típicos de fundo, a poucos metros da superfície. Porque têm tempo para equalizar a pressão hidrostática da bexiga natatória, sobem a níveis insuspeitos.
Mesmo peixes que são nitidamente de habitats com pedra, de buraco, podem surpreender-nos a qualquer momento.
Recordo-me de estar a pescar atuns num local com 60 metros de profundidade e ferrar um safio a poucos metros da superfície, cerca de 20 metros, com uma cavala viva. Abaixo desta, havia mais de 40 metros de água!...
Como surgiu ali aquele safio?!....
Mas não fica por aqui. Os peixes demonstram um natural receio das embarcações e dos humanos que as dirigem. Todavia, quantas surpresas acontecem com o leader já à vista?
Diria mais, isso estará longe de ser um exclusivo da pesca jigging e os que pescam spinning, com amostras de superfície, podem confirmar o número de ataques que acontecem com a sua amostra já encostada ao barco, ou a terra. No derradeiro momento, quando se pensa que mais nada irá acontecer, um peixe vindo do nada irrompe a superfície e morde com vontade o nosso artificial.
Temos pois que, se alguma regra há é a de ...não haver uma regra rígida.
Por vezes acontecem coisas estranhas...
Vamos continuar este tema no próximo número e ver da presumível maior eficácia de um jig pesado.
Vítor Ganchinho
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