DE QUANTO TEMPO PRECISA UM PEIXE PARA DIGERIR A SUA PRESA? - CAP II

Com excepção da família dos atuns, os quais podem regular a sua temperatura interior por intermédio de uma actividade física constante, (o que os obriga a não parar de nadar e daí a dificuldade de os encontramos fixos num determinado ponto GPS....), os outros peixes são animais exotérmicos, o que significa que a temperatura do seu corpo é exactamente a mesma da água que os rodeia. Ao não poderem regular a sua temperatura interna, (como melhor conseguem uma diferença de temperatura de 0.5ºC...), à medida que a temperatura da água baixa eles diminuem o seu ritmo de vida, e alimentam-se menos vezes.
A sua capacidade de contração muscular, por via disso, diminui largamente e o peixe entra em letargia. Deixam de ser capazes de perseguir presas, deixam de estar activos.
Mau para nós pescadores, que os queremos sempre a procurar comida....e hiperactivos.
Nada podemos fazer contra isso, senão adaptar o nosso estilo de pesca a algo muito mais lento, a dar mais tempo para que a sua reacção aos iscos/ amostras aconteça.
Nestas fases, há que dar-lhes tempo.


Por outras palavras, aquilo que leva muita gente a dizer “ hoje não estão cá....” pode não ser assim.
Muitas vezes eles ainda lá estão, mas já passaram a modo de “hibernação”, logo estão, por força do arrefecimento das águas, impossibilitados de reagir a estímulos de alimentação tão imediatos conforme nós os apresentamos.
Queremos que eles sejam rápidos a decidir-se a comer, que a seguir a um peixe venha outro peixe, e eles estão...noutra onda.
O que se passa é que a sua limitada actividade os obriga a ser muito selectivos, a ser...oportunistas no seu comportamento alimentar. E eles podem esperar.
Não preciso de vos dizer o quanto isso defrauda as nossas expectativas de pescadores, sobretudo daqueles que acreditam que os peixes comem em regime non-stop, 24 sobre 24 horas.
Nunca foi assim...


A informação que vos passo a seguir fui encontrá-la numa publicação do Instituto Shirshov de Oceanologia, na Rússia, intitulado "Duração da digestão gástrica em peixes", de V.B. Tseitlin.
Este cientista/ biólogo analisou diversos dados de digestão relacionados com peixes de águas frias e quentes, e constatou que lhe era possível criar uma fórmula para prever o tempo de digestão.
Para isso, ele classificou os peixes de águas frias como aqueles que vivem entre temperaturas de 2 a 20º Celsius, e os de águas quentes a um nível de temperaturas entre os 15 e os 30ºC.
Os resultados do seu estudo apontam no sentido de, para os primeiros, os de água fria, e partindo do princípio que esta estará no seu melhor, a 20ºC, o tempo de digestão ser entre 20 a 63 horas.
Pode parecer-nos estranho.
Todavia, essa é a regra para os peixes predadores, dependendo apenas do seu tamanho, e da quantidade de alimento ingerido.
Vejam o Gráfico 1 abaixo.
A fórmula faz sentido, pois é de esperar que a maioria das espécies de peixes digira suas presas mais lentamente do que um predador veloz como o atum-bonito, e que leve menos tempo para digerir quantidades menores de alimento.
Também os peixes de maior tamanho poderão digerir mais rapidamente aqulo que comem. Vejam o gráfico:


Entretanto, se a temperatura da água caísse 5 graus (ou seja, para 15 °C), o tempo de digestão para peixes de água quente aumentaria de horas para dias.
A situação fica ainda mais interessante para os peixes de água quente se a temperatura cair 10 graus Celsius abaixo da faixa ideal (ou seja, de 20 °C para 10 °C), pois o tempo de digestão aumenta de horas para semanas.
Este é um tempo incrivelmente lento para digerir os alimentos, mas lembrem-se de que o peixe está fora da sua faixa ideal e certamente não estará muito ativo.
Aparentemente, o mesmo se aplica aos peixes de água fria, mas ao contrário. O aumento da temperatura diminui a velocidade da digestão, pois os peixes de água fria são fisiologicamente adaptados para digerir presas em temperaturas mais baixas, especialmente a 10 graus Celsius.
Na temperatura ideal (10 °C), os tempos de digestão foram idênticos, mas ao aumentar a temperatura para 20 graus Celsius, os tempos de digestão tornam-se muito longos, pois seus sistemas enzimáticos não são projetados para operar em temperaturas elevadas, o que dificulta a digestão das presas.
Não há dúvida de que o tempo de digestão influencia o comportamento alimentar do peixe.
A fórmula de Tseitlin, embora se trate de uma generalização, explica-nos por que muitos peixes parecem alimentar-se intensamente num único dia e depois ficam letárgicos por alguns dias.
Quando eles estão nesta fase, ...não comem. O que nos pode levar a dizer: “ hoje não estão aqui”....


Há um outro factor que pesa nesta classificação, e que não podemos subestimar: a espécie de peixe.
Há indivíduos que de série já trazem no seu ADN o facto de serem rápidos, nervosos, e outros nem tanto, são mais pachorrentos, mais prostrados.
Os peixes "rápidos" e ativos precisam se alimentar com mais frequência do que os peixes "lentos" e sedentários, e a frequência de alimentação será influenciada pela rapidez com que digerem o que comeram.
É importante saber algo sobre a temperatura da água nas áreas onde pescamos. Quanto mais não seja tendo alguma atenção ao trabalho do IPMA, pois é muito provável que isso afete as taxas de digestão e o comportamento alimentar.
Sabemos que temperaturas de água mais frias significam menos actividade de pesca. No verão é muito frequente termos 20/ 21ºC, mas no inverno não são de excluir temperaturas de 14ºC ou até menos.
Estas variações acontecem por períodos de tempo prolongados, não é algo que mude de hora a hora, pese eu vos diga que durante os meus quase 35 anos de mergulho livre em apneia, e de alguns milhares de mergulhos feitos em mar, tive oportunidade de experienciar mudanças de temperatura algo bruscas, chegadas de água à costa com contrastes de alguns graus centígrados. Sente-se na pele por debaixo do fato de mergulho e sim, os peixes nunca poderão ser insensíveis a isso.


O nevoeiro é algo que pode também baixar bruscamente a temperatura da água na superfície e afetar o comportamento alimentar dos peixes.
Se a temperatura da água cair rapidamente, mesmo que apenas um ou dois graus Celsius, isso diminuirá a taxa de digestão e a voracidade com que o peixe se lança às nossas amostras/ iscos.
Os peixes estão programados para aproveitar a disponibilidade de presas existentes num determinado local. Se houver um aumento significativo na disponibilidade de alimento, os peixes com as taxas metabólicas mais altas irão alimentar-se intensamente e continuarão a comer até que seus estômagos estejam completamente distendidos, plenos. Isso explica as “barbaridades alimentares” que já todos nós observámos em alguns peixes.
Mas a outra face da moeda é dura para quem pesca: Eles não voltarão a alimentar-se novamente até que as suas presas tenham sido digeridas.
Isso pode levar muito tempo se as temperaturas estiverem abaixo do ideal.
Não significa que eles não irão morder uma isca orgânica ou um artificial que passe a jeito, apenas que as chances de o fazerem agressivamente diminuem drasticamente.
Lamento desapontar-vos com isto, mas tenho de o dizer: nestes casos, o facto de hoje fazermos uma pescaria de arromba num determinado local não significa que amanhã, na mesma maré, sensivelmente à mesma hora, possamos repetir essa pesca de excelência.
Ou só pescamos “caliqueiras” sem interesse nenhum...porque os bons não estão activos.


Acontece ainda que muita gente conhece locais muito bons, zonas de pesca onde é regular fazerem-se pescas de boa categoria. Caso nada aconteça, isso pode querer dizer que os peixes se alimentaram profusamente nas 12 a 24 horas anteriores à chegada do pescador e estejam num momento de relaxe, ocupados a digerir aquilo que ingeriram anteriormente.
Já estão a ver o que isto pode provocar em termos de instabilidade de resultados...
Não basta que as condições de pesca estejam excelentes, há ainda que contar com a fase alimentar que o peixe está a viver nesse momento.
Muitas vezes acreditamos que os peixes não estão no local mas eles não se evaporam, não desaparecem do mar. Estão sim noutra...onda.
Mas nem tudo são más notícias!! Se houve num determinado ponto uma arribada de comida, uma chegada de caranguejo pilado, ou de sardinha petinga, o que seja, isso pode querer dizer que algumas milhas abaixo ou acima, noutra zona da costa, os peixes não tiveram acesso a esse alimento, e estarão proactivamente a procurar comida.
Nunca sabemos o que se está a passar num determinado local da costa. Isso acontece por diversas razões, e entre elas sublinho a dificuldade de entendermos a entrada de comedia, de isca fácil de capturar.
Mesmo que seja habitual visitarmos a zona, podemos perfeitamente passar ao lado destes acontecimentos, por serem invisíveis aos nossos olhos.
Mas não será essa dose de incerteza que nos deixa de nervos em franja, a querer ir ao mar uma vez e outra?....
Pescar é preciso.


Vítor Ganchinho


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