Pescamos os peixes porque eles tentam comer aquilo que lhes lançamos, quer se trate de iscos orgânicos quer de artificiais.
Não fora o facto de os tentarmos com comida, ou presumível comida, e não conseguiríamos um único.
Pese embora o acto de alimentação seja pois fulcral para que os consigamos enganar, a verdade é que sabemos muito pouco sobre a sua digestão.
Pouco ou nada sabemos sobre aquilo que afeta o seu comportamento alimentar, o processo de digestão das presas, de quanto tempo medeia entre o estado de estômago cheio para o de estômago vazio.
E afinal de contas, ...isso é a única coisa que os aproxima de nós, ...a fome.
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| Possibilidades de fuga remotas para este robalo.....engoliu o jig. |
Este é um tema muito pouco estudado, e se alguma informação de relevo existe ela está ligada a um contexto de aquacultura, de criação de peixe em viveiro. Aí sim, a informação é muita e precisa.
Admito que não seja fácil estudar um tema destes quando aplicado a um peixe selvagem.
Sabemos que alguns dos nossos predadores, e com os robalos à cabeça, comem até terem os estômagos tão distendidos que literalmente já não cabe mais nada dentro.
Há tempos trouxe-vos aqui um caso de um robalo que abri com 11 caranguejos pilados no seu interior e pesquei-o com ...um jig.
Para mim, o estômago dele estava num ponto em que, aos meus olhos, seria incapaz de se alimentar novamente até que digerisse suas presas.
E todavia,...
O que pode fazer com que um peixe decida parar de comer? Que limites têm?
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| Na nossa costa os peixes que mais atacam os nossos jigs são os pargos e robalos. |
Segundo os dados obtidos, aquilo que é comum é que a digestão se processe em cerca de 12 horas.
A Organização das Nações Unidas tem um departamento para a Alimentação e Agricultura que assinou um trabalho em que trata o tema.
Chama-se "Digestão em peixes teleósteos" e tem dados curiosos. Gostei de ler.
Separam os peixes em três grandes grupos, os herbívoros, os carnívoros e os omnívoros. Salta à vista que os peixes herbívoros têm um comprimento de intestino bastante maior que os outros, e isso deve-se ao facto de estes ingerirem muito material indigestível, nomeadamente lama, e precisam de um intestino mais longo, para poderem separar os diversos nutrientes. Também avulta dizer que uma refeição menos nutritiva necessita de mais quantidade de matéria ingerida.
Caso o intestino fosse pequeno, eles ficariam cheios e parariam de se alimentar antes de conseguirem obter suficientes nutrientes essenciais daquilo que comeram.
Já os carnívoros beneficiam do facto de o seu alimento ser de alto nível calórico e por isso podem ter um intestino bem mais curto. É por exemplo o caso dos pargos, ou dos robalos...
É possível ler nesse trabalho que o atum bonito tem um tempo de esvaziamento gástrico de 12 horas, a uma temperatura entre os 23 e os 26º Celsius.
Esse é o tempo que medeia entre um intestino que fica completamente cheio de alimento, e que vai manter-se assim durante cerca de 5 horas, até que os sucos gástricos comecem a actuar e a desfazer a massa ingerida.
O estado de esvaziamento total, dependendo do tipo de alimento, ocorre após 12 a 14 horas. Admitindo que um robalo, por ter um metabolismo menos elevado, possa ter um pouco mais de tempo, ainda assim isso permite-nos pensar que os alimentos de um dia estarão perfeitamente assimilados no dia seguinte.
Outra afirmação que encaixa naquilo que eu já suspeitava é que a taxa de digestão é influenciada pelo tamanho da refeição e pela temperatura. Isso eu já sabia e já vos falei aqui nisso, nomeadamente na variação de tamanho de presas que ocorre entre o verão e o inverno.
Com temperaturas baixas a prevalência é para a tentativa de obtenção de presas maiores, leia-se carapaus, cavalas, sardinha, e com águas quentes o objectivo passam a ser os peixinhos pequenos: cabozes, peixe-rei, galeotas, etc, e outros como o caranguejo pilado, o camarão, pequenas lulas, por aí.
Refeições grandes em número de capturas são geralmente digeridas mais rapidamente, por unidade de peso, do que refeições pequenas, de uma só presa.
Por outras palavras, com o metabolismo mais baixo, a necessitar de gorduras para fazer face à temperatura gélida da água, o robalo alimenta-se uma só vez por dia, por vezes não mais de 10 minutos, mas escolhe um peixe grande, gordo.
Nesta fase do ano, as nossas possibilidades de fazermos uma caixa composta de peixes é reduzida já que nos falta o tempo para isso.
No verão, com o metabolismo mais elevado, com a água mais quente, a opção recai em múltiplas presas de pequena dimensão, mais fáceis de digerir. Ou seja, estão activos muitas horas durante o dia, com tudo o que isso nos traz de conveniência a nós, pescadores.
A explicação é simples: isso ocorre porque a atividade das enzimas digestivas depende directamente da temperatura.
Vamos continuar a abordar este tema no próximo número do blog.
Vítor Ganchinho
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