Este artigo vem na sequência de uma questão que me foi colocada no número passado.
Para perfeito entendimento, devem ler o artigo anterior.
A questão que se levanta hoje é tentar perceber se pescar exclusivamente no fundo, concentrar todos os esforços de pesca apenas nos primeiros metros, pode ser mais vantajoso que explorar o pesqueiro a toda a sua extensão, a toda a sua altura.
Pretende-se aqui ajudar a entender as vantagens e desvantagens das duas variantes, sendo que as respostas não serão nunca verdades absolutas, até porque dependerão em grande parte das condições do local a pescar.
Embora existam procedimentos de pesca, técnicas de base que podemos considerar universais, cada habitat é único, irrepetível, e exige uma análise detalhada das suas condições, da forma como o peixe o utiliza.
Hoje, vamos pela diferença de pescar ou não mais que uma estreita faixa junto ao fundo.
Quais as razões que podem levar alguém a desmobilizar a sua atenção quando o seu jig está longe do fundo, por achar que já nada vai acontecer, e por contra, que razões podemos ter para não desistirmos, não prescindirmos do foco de pesca se o nosso artificial está bem acima, fora dessa zona dita mais “produtiva”?
Por outras palavras, afinal queremos pescar onde, como, e mais importante que isso, ...o quê?!
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| Este pargo surgiu-me a não mais de 3 metros do fundo, numa zona onde já consegui muitos outros. |
Do ponto de vista do pescador, a grande questão é esta: serão os primeiros metros junto ao fundo os únicos que têm real interesse em ser trabalhados?
É aí que temos mais possibilidades de ferrar um peixe?
Olhando pela perspectiva dos nossos peixes alvo, queremos saber se existem razões para um peixe estar activo longe do fundo, fora do contacto com as estruturas que lhe podem conferir alguma camuflagem, servirem de esconderijo, em suma, que o escondam das suas presas. Deve ler-se: algo que possa conferir ao predador alguma vantagem sobre as suas presas.
Podem os peixes prescindir do resguardo de uma rocha, de uma planta, uma gorgónia, prescindir da invisibilidade conferida pelo seu entorno e manterem-se ainda assim activos, interessados em comer?
Para respondermos a isso, teremos de saber o que procuramos, que tipo de peixe e onde. Por onde andam os peixes?
Será que estão “espartilhados” numa fatia de água e não saem dali por nada deste mundo? Não me parece...
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| Detalhe de um jig da Cultiva para correntes fortes, em 40 gr, à venda na GO Fishing Portugal, em Almada. |
Ao longo do dia, migrações verticais acontecem a muitas das espécies, mesmo as que consideramos como exclusivas de fundo.
Entendo as razões de quem acha que sim, que é ali e em mais lado nenhum que podem estar os peixes.
Com sol alto, sem o conforto do escuro da noite, é natural que um peixe queira estar mais resguardado, mais escondido, que procure o fundo. Há alguma lógica nisto.
Porém, sendo uma regra, não é impossível que possam acontecer surpresas, mesmo a nível dos grandes senhores do mar. Vejam o caso dos espadartes ou das tintureiras, que adoram vir apanhar sol na linha de superfície, para aquecerem o corpo e desparasitarem.
Seguramente já todos vós os viram a espraiar-se, a horas de sol alto, a pino, bem a meio do dia.
Isto contraria a crença natural de quem acredita que nunca acontece termos peixes grandes tão...altos.
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| Em dias de mar calmo, os “grandes” chegam-se à superfície, aquecem o corpo e ...deixam que os parasitas se incomodem com a luz do sol e soltem. |
Por contra, outros peixes colam-se a estruturas e adoptam uma postura de caça, imobilizados, na expectativa de uma refeição “distraída”. Vejam os peixes-aranhas, que se enterram na areia e atacam de rompante tudo aquilo que passa.
Também as lulas, teoricamente um bichinho que vive junto à superfície à noite e afunda durante o dia, são useiras e vezeiras em nos surpreender a meio do dia.
Quantas já morderam os meus jigs com o sol bem alto?!
Podem elas “distrair-se” com o serviço, ou têm mesmo de lançar os seus tentáculos sobre tudo aquilo que podem, elas que vivem tão pouco tempo que não lhes é permitido falhar uma única refeição?
De resto, este é um caso que merece um estudo aprofundado, a ser feito em separado, já que mordem artificiais quer junto ao fundo quer quando coladas à linha de superfície. A elas voltaremos...
Crescer rápido é a sua palavra de ordem e sendo elas nítidos pelágicos, poderiam aguardar por comida a meia água, mas não, elas também se resguardam no fundo e esperam. E não são apenas as lulas, os pargos idem, as bicas idem.
Quando menos esperamos temos o jig a bater na areia ou na pedra e no mesmo instante está dentro da boca de um predador. Ou porque cai perto, a jeito, ou porque o peixe vê o jig descer, segue-o, e assim que este bate no fundo desfere o ataque.
Que regra há pois que determine o ponto de ataque, a dita “zona de stryke” de um predador?
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| Quando vamos pescar, convém ter argumentos: uma caixa de jigs diferentes permite-nos responder às exigências das condições de mar desse dia. |
Na verdade não há.
A experiência demonstra-nos que podemos esperar peixes activos a toda a coluna de água, com prevalência pelo primeiro terço inferior desta.
Iremos encontrá-los mais ou menos altos dependendo do estado do mar, com um especial enfoque no valor de ondulação do dia.
Em dias de mar muito revolto estarão muito interessados em aproveitar o trabalho de passagem da aguagem, a qual levanta areia e descobre alimento enterrado.
Por contra, em dias de mar calmo, (para a maioria dos peixes um martírio...), estarão um pouco mais acima, à espera que algo passe. Mas como vos disse acima, os factores que influenciam esta altura de posicionamento são diversos, e se nós poderemos não saber interpretá-los a todos, ...eles sabem.
Em resumo: olhar a sonda, procurar entender o que nos aparece no ecrã, interpretar cada detalhe, é muito importante.
Porque na verdade não há um critério rígido.
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| Este é um outro pargo, feito no mesmo dia, com o mesmo jig. No próximo número do blog vou mostrar-vos a “foto de família” deles. |
Há sim, dependendo da espécie em causa, uma prevalência de ataques a uma determinada cota. E é aqui que está o busílis da questão: tudo depende das espécies em causa e das condições do dia.
Com raios solares a penetrarem mais profundo, é natural que os peixes procurem as sombras e não se exponham em demasia. Mas em dias mais nublados, a quantidade de luz que entra na profundidade é menor, e isso é um convite a que subam um pouco, na expectativa de encontrarem alguma comida de passagem.
Vejam o quanto é ingrato definir um padrão para este caso: dependemos da quantidade luz do sol, dependemos da altura da ondulação, dependemos da força da corrente, dependemos da temperatura da água, do local em si, o qual define o tipo de alimento disponível, etc, etc. Cada um destes factores altera de per si as condições que um predador pode ter para se fixar mais abaixo ou mais acima.
Grosso modo, um pargo ou um mero atacam nos primeiros metros, um robalo uma dezena de metros acima e um atum sarrajão, ou uma cavala ou sarda, a uma dezena de metros da superfície.
Repito, em média é assim. Tenho no currículo pargos a morder a poucos metros da superfície e tenho sardas a morder abaixo dos 100 metros....logo, tudo invertido.
Dependendo das épocas do ano, podemos ter os robalos a morder ao primeiro contacto da nossa amostra com a linha de água, ao “splash” desta, ou tê-los a morder um jig abaixo dos 100 metros de fundo.
Não há propriamente uma regra absoluta, rígida; há sim um padrão, uma tendência para....
Vamos seguir com este assunto na próxima publicação.
Vítor Ganchinho
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