ROBALOS - PRIMEIROS PASSOS

Muitos de nós guardam na memória a captura do seu primeiro robalo.
É, sem dúvida, um peixe nobre, emblemático, cuja captura nos marca para sempre.
Aparece do nada, sem sabermos explicar bem o que aconteceu.
Bruscamente, uma onda, um reboliço na espuma, uma pancada forte na nossa amostra e algo a dobrar-nos a ponta da nossa cana de spinning.
Na nossa mão, o carreto geme de dor a largar linha à desfilada.
Esse é o momento em que tudo faz sentido, o momento em que o nosso coração dispara e parece querer sair-nos do corpo.
Rezamos para que a linha aguente, que o peixe não desferre, que nada de errado aconteça.
Tudo por aquele torpedo prateado saído das ondas, imponente, bonito, o famoso robalo, peixe que apertamos nas mãos para nunca mais largar.


Se o primeiro dia marca, os que se seguem não nos são indiferentes.
Há muita gente que passa a adoptar o robalo como peixe único e exclusivo dos seus propósitos de pesca.
Ser pescador de spinning é em si uma actividade muito completa, imersiva, que nos ocupa em pleno.
Há quem entenda o spinning como um misto de esforço físico e entusiasmo pela pesca, duas actividades promotoras de saúde por excelência.
As horas passadas a subir e descer pedras, os quilómetros feitos a calcorrear as praias de areia, a lançar amostras, a recolher linha, deixam um rasto de esforço físico cada vez mais bem vindo a pessoas sedentárias, ávidas de ar puro.
Com mais ou menos peixes, com desferragens épicas, por vezes à beira dos pés, (peixes perdidos que nos apertam o coração), o spinning tem muito de cativante.


A primeira dificuldade que o debutante enfrenta é mesmo a de escolher o material.
Necessariamente não quererá gastar muito, até porque não sabe se “a coisa resulta”, e esse é o primeiro impasse a ultrapassar.
Se é certo e sabido que material mais barato reduz a exposição a um risco que existe, menos prejuízo, por outro lado também faz sentido pensar que ao adquirir “pechinchas” aquilo que está a fazer não é mais do que encarecer o equipamento que forçosamente irá comprar a seguir, quando perceber que aquele que tem apenas o limita e não ajuda em nada a conseguir os tais robalos grandes que tanto anseia. Vai perder muitos à conta desse material ruim. Chamo-lhes eu os “custos ocultos da aprendizagem”....
Por mim, aconselho que não se compre pelo primeiro preço, o mais baixo de todos, porque invariavelmente esse será para deitar fora na primeira oportunidade.
Mas também nunca comprar o mais caro de todos, porque o nível do pescador ainda não é o de um topo de gama.
Algo a meio termo, nem muito ruim nem demasiado bom, já que se trata de algo que vai ter de sofrer as agruras de quem não sabe o suficiente e vai cometer erros.
Material utilizável sim, que pesque, mas que ao mesmo tempo possa sobreviver ao sal, à areia e aos tombos nas e das rochas.
Os nossos pescadores mais velhos dizem “não navegar nem muito ao mar nem muito à terra”....
A seguir, já com a convicção de que é mesmo aquilo que quer fazer, então sim. Na verdade, uma cana de boa qualidade faz o pescador pescar mais, e poupar na carteira e...no desgaste nervoso.


O segundo passo é perceber de que forma enganar os robalos.
O tempo deixa perceber como as marés, as fases da lua e o clima/temperatura ambiente criam momentos ideais para a pesca.
Sem dúvida estar no momento certo da maré ajuda, e de que maneira, a conseguir resultados.
Também apresentar as amostras de uma forma mais atractiva, mais “pescante”, fazem muita diferença. Não convém esquecer que se trata de material artificial, pressupostamente a imitar um ser vivo, na circunstância um peixe debilitado, fraco, desorientado.
Esta é a fase mais interessante, a que mais motiva o pescador: perceber de que forma consegue interagir com o predador.



Uma outra fase, que ocorre em simultâneo com a pesca em si é a de ganhar noções de segurança.
Não convém olvidar que o meio ambiente marinho é agreste, duro, e que cobra as suas vítimas todos os anos.
As escolhas a fazer vão muito além da cana de pesca X, do carreto Y, da linha S e da amostra Z, devem apontar para atitudes de prevenção e limitação de acidentes.
Cometer erros na escolha do calçado são comuns. Saltar de pedra em pedra não é tarefa para sapatos inadequados....
Marcar um ponto a partir do qual o retorno a terra firme é obrigatório é avisado.
A maré muda a cada minuto, e a dada altura a pessoa começa a ver que o caminho que a levou até ali já não é praticável. Atenção!
Deixar uma margem de segurança suficiente faz-nos pescar mais anos....
Apostar na compra de um colete de segurança de cintura, autoinsuflável, é uma medida inteligente.



Chegamos a uma área só por si digna de capitulo: a escolha das amostras.
Quando não se sabe muito sobre o assunto, a primeira tentação vai no sentido de adquirir amostras demasiado grandes.
Mas afinal a amostra grande não é que nos poderá dar os peixes grandes que queremos?
Não necessariamente.
No inverno a actividade do peixe reduz, por força do abaixamento da temperatura das águas. E nessa altura, as presas procuradas são de facto as de tamanho maior, cavalas, carapaus, sardas, sardinha, se a houver.
Mas no verão, com águas muito mais quentes, e por razões metabólicas, (ler aqui no blog os diversos artigos dedicados ao tema), a opção dos peixes, mesmo dos grandes peixes (!), aponta para peixes forragem de pequeno tamanho.
E aí, as amostras que funcionam bem de inverno, falham redondamente no verão.
Outro detalhe: o robalo cresce a comer uma pequena variedade de isca viva presente na região onde vive. De nada serve oferecer-lhe algo que sai demasiado dessa sua realidade.
Bem sei que a pessoa trouxe das suas férias tropicais uma amostra a imitar um peixe-palhaço, um Nemo vermelho de riscas brancas, mas nós aqui não temos disso....
Aquilo que os nossos robalos comem é aquilo que existe à sua frente, na natureza, e esses pequenos peixes são infelizmente muito mais discretos na sua “vestimenta” exterior.
Tons neutros, a imitar a esquilha, o peixe-rei acastanhado, as pequenas bogas pardas, esses sim, esses que são pouco chamativos, pardacentos e cinzentões, esses resultam de certeza.


No fim de tudo, o pescador depende sempre do comportamento e actividade sazonal do robalo. E não é igual todo o ano, já se vê.
Em Portugal, temo-los receptivos a morder a partir da primavera, quando voltam das suas incursões pelos fundos de inverno, vamos tê-los disponíveis durante todo o verão, animados pelas temperaturas de água mais elevadas, e ainda activos durante todo o outono. A partir daí, é a desova e o inevitável afundamento, à chegada das águas frias invernais.
Durante o dia, irão ter picos de actividade na enchente, especialmente ao amanhecer e entardecer.
Locais com pedras onde a água rebenta e faz espuma branca, fundões abruptos em estuários, longas linhas de algas compactadas, cruzamento de correntes, tudo o que lhes possa servir de posto de caça, são locais de excelência para os procurarmos.
Melhor se tivermos uma manhã nublada, com maré a encher, uma leve brisa de sul, pressão atmosférica baixa,... e chegarmos ao local ao raiar do dia.
Podemos pescar robalos num pesqueiro com mais de 20 metros de fundo, mas também o podemos encontrar a pouco mais de 30 cm de profundidade....com a dorsal à vista.
Procurar sempre, e muito.


Como características mais marcantes no tipo de equipamento a utilizar, temos que:
  • Cana de pesca com 2,70 a 3 mts, com acção entre 10-25 e 15-30 gramas.
  • Carreto tamanho 3000 a 4000.
  • Linha multifilamento PE 1,2 a 1,5 de boa qualidade.
  • Leader invisível fluorocarbono: #4 0.33 mm de diâmetro.
  • Clip de abertura fácil, resistente.
  • Amostra c/ peso entre 12 e 28 gramas, a atender à questão do vento pelas costas ou frontal.

Acção de pesca: lançar em primeiro ao longo da praia ou formação rochosa, e só a seguir apostar em lançar longe.
Os primeiros peixes poderão estar encostados à rebentação.
Utilizar amostras “walk-the-dog”, passeantes, para tentar os peixes mais acima, junto à linha de superfície, e só depois ir mais abaixo, com amostras c/ pala.
Em manhãs calmas, sem vento, o peixe encosta acima, e em dias de vento, com muita turbulência, o peixe afunda.
Águas frias ou tapadas, sujas, exigem menor velocidade de recolhimento, águas quentes e claras dão ao robalo um claro impulso para atacar mais forte, mais rápido.
Recolher de forma intermitente, algumas maniveladas e uma paragem brusca, provocam ataques de robalos de bom porte.
Experimentar diferentes velocidades de recuperação pode ser interessante. Os robalos irão dizer-nos qual é a boa.
Vão pescar!
Nada como um peixe grande que ataca o nosso artificial de forma violenta.
Encontramo-nos por aí, quem sabe se podemos presenciar o vosso próximo recorde pessoal de robalo....


Vítor Ganchinho


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