Os acidentes no mar acontecem.
Trabalhamos num meio instável e manuseamos acessórios cortantes ou aguçados que não deixam de envolver algum risco para nós.
Se pensarem bem, temos nas mãos facas, tesouras, anzóis, e quando embarcados estamos expostos a balanços de mar, uma mistura explosiva.
Quando a essa falta de estabilidade e precisão juntamos lâminas e tudo aquilo que nos pode ferir, é natural que por vezes algo de errado aconteça.
Invariavelmente olhamos a estas coisas pela perspectiva do pescador, pensamos apenas e tão só em nós.
Mas ...e quem está do outro lado da linha? Será que algo de ruim pode acontecer aos peixes?
Refiro-me hoje concretamente a acidentes causados a terceiros pelos nossos anzóis.
Quando ferramos um peixe e quase instantaneamente ele solta, sabemos que o perdemos e a partir daí não mais nos questionamos sobre o que lhe terá acontecido.
Sabemos apenas que houve uma picada falhada mas, a partir daí, tudo serão conjecturas inúteis já que o intuito era a captura e isso não aconteceu.
Aquilo que é normal é que aconteça ao nosso oponente um lanho na boca, um rasgão, o qual, em princípio, com o tempo virá a cicatrizar.
Mas pode até acontecer que a farpa de um anzol toque um dos olhos.
Aí, se nós perdemos o peixe, e ficamos aborrecidos por isso mas seguimos para outro, já este perderá a sua visão e ficará diminuído. Para sempre.
Recordo-me de um mero que capturei ao mergulho no Algarve, concretamente na Pedra dos Ingleses, Carrapateira.
O mero estava numa posição estranha, pouco natural neles, mas na circunstância o tempo de apneia já não era muito e arpoei primeiro e deixei as conjecturas para depois.
À superfície reparei que um dos olhos tinha sofrido um acidente. Estava cravejado de espinhos de ouriço do mar, e completamente infectado. Aquele olho não voltaria a ver.
Porventura a cegueira terá sido causada por algum movimento brusco e inadvertido em acção de caça. Também os peixes, na sua ânsia de conseguirem comida, vão contra objectos e podem ferir-se por isso.
Os acidentes acontecem...
Quantas vezes já pescámos peixes com sinais evidentes de terem sido violentados por uma rede, uma anzol, até uma dentada de outro peixe?
É um mundo duro e impiedoso, o mundo do mar.
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| Este olho não mais voltaria a ver... |
A que futuro pode um peixe cego aspirar? Ser cego seguramente limita, mas é sinal de morte anunciada?
Nem tanto. Os peixes cegos sobrevivem desenvolvendo e aprimorando os sentidos inatos que lhes são úteis em situações correntes do seu dia a dia, em que a visibilidade é próxima de zero.
Custa-nos a entender, mas se a visibilidade numa noite de tempestade for nula, e isso acontece com alguma frequência, o peixe recorre ao seu sistema de linha lateral para detectar movimentos da água e mudanças de pressão.
Isso dá-lhe uma noção, ainda que não perfeita, do seu posicionamento na coluna de água.
Para além disso, o aumento da sensibilidade nas papilas gustativas e quimioreceptores também o ajudam a encontrar alimento na escuridão total.
Isso é feito aumentando progressivamente o número de células gustativas e receptores olfativos para a busca de alimento.
Não ficam por aqui as possibilidades de um peixe cego.
Uma das suas mais eficazes armas de percepção do mundo exterior, o sistema de linha lateral, uma rede de órgãos sensoriais (neuromastos) ao longo do corpo detecta vibrações e pressão, ajudando-os a mapear o ambiente e a evitar obstáculos.
Eles ....desenrascam-se.
Vítor Ganchinho
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