Hoje em dia não há quem vá ao mar sem dar uma espreitadela às previsões de tempo.
Se perdemos a capacidade de saber olhar os astros, de saber prever nos anéis da lua aquilo que será o dia seguinte, como tão bem faziam os nossos marinheiros do antigamente, ganhámos porém a precisão e certezas eletrónicas dos nossos portáteis.
Com um telemóvel na mão podemos saber sempre qual o tempo para o dia seguinte.
Mais que isso, temos toda a informação sobre as marés, suas horas e amplitudes, e isso dá-nos elementos de medida cruciais para a compreensão do comportamento dos peixes.
Assim saibamos estabelecer uma relação entre marés e a consequente actividade alimentar por estas provocada.
Sim, são as marés que determinam os tempos de alimentação dos peixes...
Sabemos que as marés são uma consequência da órbita da lua sobre o nosso planeta e também da nossa rotação em torno do sol. Por força do efeito gravitacional que ambos exercem sobre os oceanos, imensas massas de água deslocam-se para um lado ou para o outro, acompanhando um, outro, ou ambos, no caso do sol estar alinhado com a lua.
Podemos ver os continentes como barreiras físicas à deslocação dos fluidos, como que muros intransponíveis, paredes que funcionam como intermitências sólidas que travam a movimentação das águas.
Há uma cadência de marés, e os seus tempos seriam absolutamente perfeitos, sempre à mesma hora, caso a lua fosse estacionária em relação à rotação da Terra.
Cada ponto costeiro na superfície terrestre experimentaria dessa forma marés altas e baixas exatamente à mesma hora, duas vezes por dia, num ciclo preciso de vinte e quatro horas.
Custa-nos imaginar ter uma maré cheia, ou vazia, sempre à mesma hora, porque desde sempre nos habituámos ao seu efeito rotativo, inconstante. Como a Lua não está fixa em relação à Terra, as marés ocorrem com um atraso de cerca de quarenta minutos a cada dia. Isso faz com que, ao longo das semanas, a uma dada hora exista uma alternância sequencial de marés baixas e altas.
Já aqui no blog vos falei de marés mortas e marés vivas. As primeiras, marés mortas (ou de quadratura), são o resultado de um equilíbrio de forças, ou seja, quando a Terra está no meio e o sol e a lua se encontram em lados opostos.
As duas forças anulam-se. Isso acontece porque, pese a muito maior massa gravitacional do sol, e por isso maior força de atracção, este está situado mais longe, ao contrário da lua, mais pequena sim, mas muito mais perto de nós.
As marés vivas, altas, (também denominadas de sizígia...) surgem quando ambos os astros estão alinhados do mesmo lado e juntam as suas forças, conjuntamente, a atrair a água dos nossos oceanos.
A cada duas semanas, quando a atração gravitacional do sol reforça a da lua, a maré alta atinge níveis excepcionalmente altos e a maré baixa, níveis excepcionalmente baixos.
Estas marés ocorrem alguns dias após a lua cheia ou a lua nova, se quiserem, em dias de luas grandes.
A título de curiosidade, a maior maré do planeta Terra ocorre na Baía de Fundy, no Canadá, entre Nova Brunswick e Nova Escócia, onde a diferença entre maré alta e baixa pode ultrapassar 16 metros.
É difícil para um europeu pensar no que é uma maré com esta amplitude, .... e o que isso significa enquanto problema sério de navegar e até fundear um barco.
E qual a importância das marés para nós, pescadores?
Toda a importância. Sem elas, sem os efeitos indiretos dos ritmos das marés, seria muito difícil conseguirmos pescar os nossos peixes. Muitas das criaturas que servem de alimento para os peixes dependem das marés para o seu ciclo de vida diário.
Entre as marcas das marés, o ponto mais baixo da vazante e o ponto mais alto da enchente, (zona intertidal), as atividades de reprodução, alimentação e migração de muitos vermes, caranguejos, camarões etc, acontecem e moldam o ritmo de vida dos seus predadores.
Esses predadores que se alimentam desses pequenos seres deslocados pelas marés, são os peixes que nos interessam: os sargos, as douradas, os robalos, etc.
Está tudo ligado. Os predadores não podem ignorar as alternâncias de águas, já que são obrigados a movimentarem-se de forma a aproveitar os efeitos das marés, no fundo a respeitar os seus tempos.
E por consequência, comandando o ritmo de pesca a nós, pescadores.
Numa vazante, um pesqueiro pode ficar sem água, mas no fim da enchente esse mesmo local irá ter três metros de água, muito mais que o suficiente para podermos ferrar bons peixes.
Mais que isso, as correntes provocadas pelo efeito das marés acordam os peixes das suas letargias, espevitam-nos, colocam-nos em “modo de caça”.
Quantos de nós já deram por si a desatar a pescar peixes de enfiada numa mudança de maré,... peixes esses que pareciam estáticos e desinteressados alguns minutos antes?
As correntes são muito mais importantes do que parece.
O vento que sopra sobre a superfície do mar também cria correntes de água, mas estas são muito menos interessantes, por mais fracas, que as correntes de maré.
Em geral, um vento que sopra da costa para o mar empurra a primeira camada de água da superfície para longe da praia e o resultado é a criação de uma corrente subterrânea contrária, uma compensação de água que flui das profundidades para junto da costa.
Os ventos que sopram do mar para terra têm o efeito inverso, e são bem menos amigos para os pescadores no sentido de prejudicarem os lançamentos das iscas ou amostras, mas em contrapartida acumulam detritos e alimentos numa faixa costeira que atrai e lhes deixa os peixes a seus pés. Os predadores seguem sempre a comida.
Uma das formas que têm de se alimentarem com pouco esforço é precisamente aproveitando as oportunidades que as correntes lhes trazem. É a corrente que lhes apresenta a comida, por si arrastada.
Essas correntes, como vimos, são sobretudo provocadas pelas forças de gravidade do sol e da lua, na sua interminável marcha de rotação.
É um sistema muito dinâmico, a Terra gira à volta do sol e a lua faz o mesmo à volta da terra, originando assim as deslocações de água e ventos consequentes.
Para além disso, outro efeito do vento também importante para quem pesca é a criação de ondas.
A altura das ondas depende da distância que o vento percorreu sobre a superfície do mar. Grosso modo, um vento a soprar forte sobre a água necessita de seis quilómetros e meio para criar ondas de um metro de altura.
A profundidade activa das ondas, a profundidade a que elas conseguem efetivamente agitar o fundo do mar e fazer interessar os peixes pela procura de comida desenterrada é de aproximadamente metade da distância entre ondas sucessivas.
Já aqui falámos do período da onda, lembram-se? O tempo em segundos que separa a passagem de duas ondas sobre um mesmo ponto. Quanto menor o período da onda mais frisado está o mar, e menos força de fundo tem.
Na verdade verificamos que somente junto à linha da costa, ou em águas relativamente rasas, as ondas têm força suficiente para agitar o fundo do mar de forma significativa.
Mesmo em tempestades violentas, pode dar-se o caso de os fundos não se moverem em demasia, isso depende sempre da orientação da onda, onde esta terá sido criada, do seu período, e até da coincidência da onda e da vaga no mesmo sentido.
Pode acontecer e acontece muitas vezes termos a vaga a sair na direção oposta à da onda. No caso do nosso país, com uma predominância de ondas de noroeste, dá-se muitas vezes o caso de termos ventos de terra que sopram de sudeste, e assim acabam por “acalmar” a altura e força das ondas.
Necessitamos de ondas, de vento e de marés. Não vale a pena ver factores negativos onde eles não existem. Se é verdade que a maior parte das pessoas prefere dias de mar calmo, chão, é preciso dizer que esses raramente são bons dias de pesca.
O peixe necessita de agitação marítima, de turbulência, já que é essa agitação que arranca grandes quantidades de algas marinhas e desaloja animais que se agarram, se escondem ou vivem enterrados no fundo do mar.
Nessas circunstâncias, os peixes costumam alimentar-se avidamente de criaturas mortas ou feridas, perdidas numa faixa de costa onde os peixes podem chegar.
O tempo que se segue a uma maré baixa, após as grandes tempestades, é tempo de procurar peixes nas pedras algo afastadas da costa, e o tempo de maré cheia será sempre aquele que nos dará boas pescarias em águas mais costeiras, mais rasas, pois o peixe sobe à procura de seres diminuídos. Tentem entender qual o efeito de uma ressaca de ondas que leva areia e pedras contra as rochas, e imaginem o que isso irá provocar nas mexilhoeiras, nos tapetes de perceves, camarões, bivalves, etc.
Ondas altas, água turva e montes de algas partidas e recém-depositadas ao longo da linha da costa são normalmente indicativos de boas condições de pesca.
Peixes normalmente desconfiados e apenas capturados em situações de águas mais turvas, ou à noite, podem ser encontrados nestes períodos a alimentarem-se activamente durante o dia.
Perdem a “vergonha” porque não podem recusar o alimento fácil que a tempestade lhes deixou à frente dos olhos.
Só temos de lá estar, no momento certo.
Vítor Ganchinho
😀 A sua opinião conta! Clique abaixo se gostou (ou não) deste artigo e deixe o seu comentário.





