A TERRÍVEL EFICÁCIA DAS KOHGAS JAPONESAS - CAP II

No capítulo anterior abordámos ao de leve algumas das características específicas das canas para pesca com Kohgas e Bin-Bins.
Vamos hoje tentar ir um pouco mais longe, mais ao osso da questão, e no fim, no terceiro artigo, vamos ver o resultado de uma pesca feita pelo meu amigo José Rodrigues, um dos poucos portugueses que conheço com a paciência e coragem de assumir uma técnica diferente e ser capaz de a estudar, trabalhar no terreno e insistir até poder obter resultados com ela.
Vamos no fim desta série de três artigos ver um pargo de 9.1 kgs, feito por ele, com um Bin-Bin de 45 gr...

Pretende-se uma cana com sensibilidade máxima, e para isso a estrutura da vara tem de ser construída de forma a ser capaz de nos transmitir o mais pequeno sinal de vida.

Há pescas brutas, pescas em que o peixe bate literalmente contra um anzol e fica preso.
Vejam o caso do corrico, em que a pancada de contacto é suficiente para que o predador fique irremediavelmente ferrado.
O jigging não será de todo muito diferente, o peixe faz grande parte do trabalho de ferragem e nós podemos ajudar, bloqueando o braço, oferendo uma resistência acrescida ao movimento.
O dito “pica-pica”, técnica em que o acto de cravar o anzol pertence quase em exclusivo ao pescador.

E há pescas ligeiras, subtis, em que a sua eficácia se mede pela capacidade que possamos ter, ou não, de enganar o peixe dando-lhe tempo, levando-o a acreditar estar de facto a atacar uma presa viva.
É o nosso caso de hoje, a pesca com artificiais com saias.
Os japoneses dão-lhe ainda o nome de “Tai Rubber” ou mais simplesmente de “Tai Raba”.
Trata-se de um inglesismo, foneticamente podemos entender as razões, e resume-se a Tai/ Tie= gravata e Rubber= borracha. As fitas de silicone são isso tudo.
Porque se trata de um tipo de amostra muito específico, estranho seria que não houvesse no Japão uma cana dedicada a esta função. Há mesmo.

As varas para este tipo de pesca são invariavelmente flexíveis, leves, super elásticas, sem deixarem de ter a necessária potência de levantamento.
Os fabricantes japoneses quiseram aprimorar o desempenho destas canas ao máximo e para isso começaram por definir os elementos base, aquilo que as canas teriam mesmo de ter.

Nesta cana, utilizaram-se passadores Fuji- SiC-S, para uma sensibilidade máxima.

Passadores de baixo relevo, para melhor condução da linha em dias de vento, e de grande capacidade de transmissão de dados, de informação ao blank da cana e daí para a mão e antebraço do pescador.
Entendam que a sensibilidade da cana é máxima quando ela consegue receber um máximo das vibrações transmitidas pelo peixe à amostra/ isca, propagadas ao longo da linha.
Há materiais que o fazem e outros que não o fazem. Quando se adquire uma cana por meia dúzia de euros é natural que essa não tenha sido a prioridade do construtor...

Dou-vos um conselho antes de adquirirem uma cana: façam o cálculo do preço ao contrário!
Pensem que ao custo dos materiais deve ser adicionado o valor da mão de obra dos operários, o custo da embalagem, do transporte da fábrica para o aeroporto, o voo, o manuseamento de carga, os impostos que incidem sobre o produto, (os direitos aduaneiros mais o valor de Iva a 23%, ou seja perto de 28%....), o transporte do aeroporto até ao revendedor, a margem de comercialização necessária, etc.
Já pensaram que há toda uma cadeia de valor acrescentado que está em cima do preço de uma cana?! Cada um fica com a sua parte.
No fim, irão perceber que uma cana que custe 100 euros em loja não pode ter mais de 20 euros de material aplicado....
E por esse valor, 20 euros, ninguém consegue fazer mais que fabricar um tubo de plástico com passadores.

A sensibilidade extrema é um requisito indispensável de uma boa cana para este tipo de amostras.

Aquilo que as empresas construtoras de canas mais preconizam para estes tipos de pesca é uma cana entre 1.90 mts e 2.20 mts.
A sua construção é muito curiosa.
Estas canas são muitas vezes construídas de forma a aproveitar ao máximo a flexibilidade acrescida dos corpos de carbono sólido, aos quais se vai adicionar uma capa de carbono feita com uma folha fina e moldável à estrutura anterior, que lhe irá dar um comportamento mais reactivo, mais rápido.
Passamos a ter o melhor de dois mundos: ao mesmo tempo que se aproveita a flexibilidade peculiar aos blanks sólidos, temos também o elemento contraditório que lhe aumenta ligeiramente a rigidez.
Podemos escolher com muita precisão as características da vara, actuando sobre a espessura da folha de carbono e assim determinando o grau de rigidez que iremos ter.
Em canas caras, trabalhos muito especializados que são feitos durante muitos dias ou até semanas, é mesmo possível conferir à cana diversos tipos de dureza intercalares, da ponteira ao talão.
Isso permite que cada seção do blank desempenhe a sua função da melhor maneira e crie assim um todo com a ação ideal.
Se me perguntarem o que é que isto tem a ver com um preço baixo, eu não sei responder.
Trata-se de trabalho de alta qualidade, e que o fim em vista é o melhor desempenho, a melhor cana possível, e nunca o preço mais baixo. Se me faço entender...

Em momentos de turbulência, como correntes fortes ou vento, ter a ponteira da cana marcada com cores permite visualizar melhor os toques.

Estes resultados não surgem à primeira, são sim o produto acabado de uma infinidade de desenhos e projectos, de testes em laboratório, e a seguir de muitas idas ao terreno, leia-se trabalho de mar, em acção real de pesca.
Os ajustamentos necessários são feitos de acordo com a opinião de especialistas, nos quais conto com alguns amigos, porventura o mais mediático o vosso conhecido Satoh sensei, o inventor do slow-jigging.
Conseguir o máximo de estabilidade, de fiabilidade, não é fácil e obriga a estudo.
No caso deste tipo de artificiais, basicamente um peso, uma saia de silicone e uma armação de anzóis, aquilo que se procura é conseguir que o sistema não cause desconfiança ao peixe, que o deixe trabalhar a amostra sem sentir que está a lutar contra algo que vai mais além do que está à sua vista. 
Não deixar o predador sentir a linha e por fim a resistência da cana é fundamental.

Quando um peixe morde a amostra, a ponta flexível da vara acompanha o movimento sem lhe causar desconforto. 
Esse é o grande objectivo da construção deste tipo de canas, as quais ainda assim podem ser usadas para combater peixes grandes, inesperados, sem qualquer problema. Basicamente tratam-se de "elásticos" dos quais é francamente difícil que um peixe consiga escapar....

Vamos terminar no próximo número.


Vítor Ganchinho


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