PESCADORES - PORQUE CONSEGUEM UNS FAZER MAIS E MELHOR QUE OUTROS?...

Aprender a pescar tem muito de intuitivo.
A maior parte das pessoas consegue fazê-lo a fim de poucas horas de prática.
Se a isso juntarmos um pouco de informação externa, chegamos muito rapidamente a um nível aceitável... e já trazemos peixe para casa.
A nossa querida esposa não vai reclamar tanto sobre aquele dinheiro mal gasto em equipamento de pesca, e que para ela é um absurdo, absolutamente incompreensível.
Peixe na geleira ajuda muito.
Mas há pessoas que aproveitam muito mal as oportunidades que têm. A maior parte dos peixes são...perdidos.
“Estão a comer mal”, dizem eles...


Na maior parte dos casos é apenas ansiedade a mais. O peixe vai embora porque foi mal trabalhado, o coração bateu demais, as mãos não executaram bem.
Ou até algo muito simples: a ferragem foi mal feita.
O acto de ferragem de um peixe é um processo cerebral muito natural, que começa no subconsciente.
Nós não pensamos no que estamos a fazer, apenas reagimos a um contacto brusco.
Fazemo-lo de forma rápida, sem demasiada precisão, apenas repetindo gestos já aprendidos. Mas para isso é necessário que algo corra bem ao início...e que algo tenha sido aprendido.
É verdade que todos começamos por ser “maus” pescadores. Nada sai bem a princípio.
Mas a seguir, com trabalho e perseverança, a sorte muda.


As mãos passam a saber fazer.
Vou tentar dar-vos uma imagem para que entendam o processo: imaginem que uma pessoa faz malabarismo com duas bolas.
Trata-se de uma tarefa simples, acessível a quase toda a gente, de quase todas as idades.
O tempo de contacto das mãos com as bolas é demorado o suficiente para permitir um controle absoluto.
Se duplicarmos o número de bolas, passamos a ter menos tempo, e embora o efeito de gravidade seja idêntico, a nossa tentação é a de lançar as quatro bolas um pouco mais alto.
Se por absurdo introduzirmos mais bolas no exercício, por exemplo oito, a dada altura o tempo de contacto com cada uma já não nos permite mais que uma reação fugaz, mecânica, e apenas podemos confiar que cada gesto seja exactamente igual ao anterior.
É isso que nos garante que o seu efeito será razoavelmente preciso. Fazer igual.


Quando pescamos repetimos à exaustão os mesmos gestos, com poucas variantes, ganhamos uma grande destreza de mãos, e sobretudo capacidade psíquica para resistir às derrotas.
Por vezes os peixes ganham. Por vezes o peixe está apenas preso por uma pele da boca e rasga.
Os grandes “técnicos”, aqueles que reputamos de grandes pescadores, os que enchem as geleiras de peixe muito bom, conseguem até prever quando é que estarão no limite entre a ferragem firme e bem sucedida ou apenas….mais ou menos, com probabilidades altas de desferragem.
Mas para eles, se o peixe vai embora, outro irá aparecer.
No fundo, eles sabem fazer, sabem lançar oito bolas sem as deixar cair ao chão e sabem que na próxima oportunidade irão executar bem e conseguir um bom peixe.
O pescador menos capaz não consegue fazer isso, esgota a paciência, e na maior parte das vezes acaba por desistir.


Por vezes, a diferença entre continuar a pescar e progredir e o “já não quero saber da pesca para nada!”...é tão fina quanto uma folha de papel.
O início é um momento absolutamente crítico.
Talvez possa dar-vos um exemplo de como as coisas funcionam: O pescador 1 lança uma amostra e consegue um toque. Excitação máxima!
Fez quase tudo bem, digamos que 80% dos gestos saíram na perfeição e com isso conseguiu um bom robalo.
Os seus olhos brilham de felicidade e a partir daí o sinal é claramente verde: pescar sim!

Agora o oposto: o pescador 2 quis lançar a amostra mas tinha a linha enrolada na ponteira. Bateu com a cana no casco do barco, a vara partiu-se em duas, o carreto ficou esfolado.
O coração bate mais forte, as faces ficam vermelhas de irritação, e a tensão arterial sobe a níveis impensáveis.
Para ele a pesca acabou ali.
Indiscutivelmente o sinal que esse pescador recebe é vermelho, e ele não voltará a querer ir pescar. Nunca mais.


O que temos nas situações acima são dois pontos extremos de como a pesca pode ser positiva ou negativa.
Para o que pescou um robalo, a vida passa a ser a pesca e mais o resto.
Para o desalentado pescador a quem nada saiu bem, a pesca tem o funeral marcado.
Na verdade é uma pena que o pescador 2 desista porque ele já aprendeu a como não fazer. Daí para a frente só poderia melhorar….
Mas é tudo contra, as variantes são tantas que ele não consegue abarcar toda a panóplia de informação necessária para ter sucesso.
Marés, ventos, materiais de pesca, técnicas de lançamento, sítios de pesca, electrónica de GPS e Sonda, licenças, levantar cedo, ....por amor de Deus!
É natural a desorientação e ansiedade.
É mesmo muito natural que exista alguma saturação por parte de quem começa a pescar e não consegue uma explicação lógica para nada.
Nem sequer para a inexistência de peixe onde ele a julgava obrigatória.


Os anos de experiência dão-nos outra visão, outra capacidade de percebermos algum sentido no que é aparentemente negativo.
Por vezes o peixe não está mesmo lá.
Mas para um pescador iniciado, tudo isto é absurdamente complicado. E porventura, sem o enquadramento certo, sem a ajuda de alguém conhecedor, é mesmo.
Podemos sempre falar em dois tipos de erros: os de conceito e os de execução.
Os de execução são fáceis de resolver, basta treinar, repetir.
Os de conceito têm a ver com falta de conhecimento e esses implicam muito mais tempo, muita paciência e sobretudo muito trabalho de informação.
Um amigo que dê uma mão, pode ser útil. A loja de pesca mais próxima pode ajudar.
Até um blog pode ajudar…


Vítor Ganchinho


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