CHOCOS - O PAREDÃO DE SETÚBAL - CAP V

Cheguei cedo demais a Setúbal. 

Para fazer tempo para a minha aula de spinning das 18.15h, resolvi ir até ao paredão do rio.
A vista é magnífica, o estuário do Sado tem muita coisa bonita para ver, há pessoas a passear, miúdas giras de saias curtas.
Um minuto depois chegou um indivíduo de meia idade, soturno, sem gracinha nenhuma.
Olhou para a água, ...olhou para mim.
Durante alguns instantes ficou estático, tenso, a medir-me com os olhos.

Após segundos que me pareceram uma eternidade, vi-o retirar do bolso um saco de plástico, um embrulhinho pequeno.
Olhou outra vez para mim, desconfiado.
Percebi que a minha presença o incomodava mas a minha curiosidade era muita e eu não queria mesmo sair dali. Fiquei.

Aos poucos, lentamente, desembrulhou algo estranho, bem protegido com película aderente.
Esperava a qualquer instante ver sair uma barra de haxixe, algo assim.
Mas não: era um rolinho de linha de nylon, bem enrolado sobre uma toneira de pesca ao choco.
A questão eram então os chocos....


Voltou a olhar para mim, desta vez já com um ar algo ameaçador.
Nitidamente eu estava demasiado perto do seu pesqueiro favorito, e estava a ver a sua toneira castanha, a secreta, ...a da sorte.
Temi sofrer uma tentativa de homicídio com desmembramento, mas eu estava ali para captar informação, para vos escrever sobre aquilo e por isso resolvi sacrificar-me, oferecer o corpo ao manifesto, em prole da ciência e do bom jornalismo.
Esticou a linha, olhou para água e discretamente...lançou.
Daí a pouco vejo a pessoa a sacudir, a dar toques na toneira, a um ritmo estranho.
Eram jeitinhos de mãos e tiques rápidos só possíveis a um bom jogador de flippers. Fiquei estupefacto.
Visto de lado, as suas mãos frenéticas tinham a habilidade de um cabeleireiro de homens.
Quanto a resultados, ...zero chocos.


Continuou aquela exibição de malabarismo e presumo que, pela sua expressão facial, acreditava muito naquilo que estava a fazer.
Às tantas deu-me a ideia de ele ter visto um choco encostado ao paredão. Lançou a toneira!
Normalmente os bichos acreditam, mordem logo, não são difíceis, mas aquele choco parecia não estar para facilidades.
Um choco grande que anda pelo pesqueiro mas não pica é igual a uma fulana curvilínea, bonita de cara, que se passeia pela praia mas vestida de alto a baixo com uma burca preta.
Aproximei-me e atrevi-me a dizer-lhe: ...“talvez se lançar mais perto dele”....


Rosnou-me qualquer coisa, enquanto se concentrava no alvo.
Deu-me ideia de estar a lançar para o sítio errado, o choco estava dois metros ao lado,...
Olhei fixamente para os seus olhos e não reagi ao facto daquele pescador ter os olhos meio desalinhados.
Sensibilizado pelo seu elevado grau de estrabismo, não valorizei em demasia os resultados. Era apenas uma questão de tempo até ele achar outro choco ao lado e acertar com a toneira nele.
Lança a um e apanha outro que por acaso não está a ver. Penso que a estratégia era essa.

O choco soprava lume com a quantidade de tentativas de o espetarem com as agulhas da toneira.
De repente, embrutecido, veio de lá e mordeu!
Percebi a excitação máxima do sortudo pescador e tentei animá-lo: “força aí, você não deixe fugir este bicho!”
Não me respondeu, apenas enrolava linha numa garrafa de plástico vazia. Sim, o choco era bom, é natural que o artista entre em paragem cardíaca com uma picada daquelas!


Estávamos já preparados para o melhor, para o sucesso, a apoteose, as purpurinas e as palmas.
Estava tudo feito, faltava concretizar o que antecede a triste formalidade do óbito do choco, quando nisto algo de errado aconteceu: enquanto a linha subia, gerou-se uma tensão e um silêncio de cortar à faca.
Talvez por isso e por haver lâminas e facas a mais nesta história, a linha rompeu!
Tudo vai de se pescar com linhas em avançado estado de decomposição, bem podres. Ora bolas!
Tenho 63 anos de idade e há mais de 70 que venho a dizer aos meus amigos que não devem pescar com material velho e ressequido.
O choco, com a toneira presa, desapareceu nas águas turvas.


Esta questão da desferragem dos chocos aflige-me.
Considero mesmo que as pessoas a quem isso acontece com frequência deveriam recorrer a uma sessão de espiritismo.
De resto não é preciso fazer um grande estudo sobre ocultismo para saber que um pescador de chocos que só tem uma oportunidade e a linha rompe, só pode estar com mau-olhado.
A pessoa estava inconsolável, em desespero, murcho, de cara no chão. Era um choco grande...
Proponho para ele uma beatificação acelerada, é sofrimento a mais, tornem aquele homem santo, o quanto antes.
Até nem sei se não haverá quem queira patrocinar o indivíduo....dava jeito haver uma loja de pesca interessada.


Ao lado, um presumido pescador de sarguinhos e “mais o que venha” tentava bater o recorde do mundo de descascar navalhas, em pista descoberta.
Lançava e as sarguetas de 6 cm ratavam-lhe a isca.
Iscava, lançava e iscava outra vez, enquanto espumava pela boca. Os pequenos peixinhos agradeciam, arrotavam, e pediam mais.
Às tantas um dos anzóis ferrou uma delas pela barriga.
Acontece muito quando os anzóis estão limpos, puxar a pesca e espetar o anzol numa penitente sargueta descuidada.
Mesmo sendo um peixe miserável, uma miniatura, uma coisa daquelas que recebemos na popa do barco com má vontade e uma saraivada de tiros de revólver, para ele aquilo era tudo!
Era um princípio.
Se tinha conseguido aquela de 15 gramas, a seguir seria apenas uma questão de paciência, de insistir, e em breve teria já mais umas dez, quase 200 gramas de peixe, um almoço.


Os peixes que se fazem da muralha são algo de inacreditável, é um milagre que se consiga pescar peixe tão pequeno.
Acabei por me ir embora, agastado com o tamanho micro dos anzóis que utilizam.

Tinha a aula de spinning dali a minutos e a seguir queria ir para casa.
Sou daquele tipo de pessoas que tem sempre fome, dos que comem o jantar ainda antes de ele estar feito...
E para além disso, estava a morrer de saudades da minha gatinha Carlota, ...tinha mesmo de voltar.
Mas posso garantir-vos que ao longo da muralha, a qualquer hora do dia ou da noite, terão lá alguém que podem ir ver pescar aos chocos, e ...a tudo.


Vítor Ganchinho


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