2026 - OS CHOCOS DO NOSSO DESAPONTAMENTO

Um destes dias fui às compras com a minha filha mais nova.
A dada altura ela passou-me uma camisola para eu ir pagar à caixa.
Fiquei surpreendido por não ter um cuidado que eu e todos os da minha geração sempre tivemos: experimentar a peça.
_Mas pai, isto nesta loja é tudo tamanho …único!…
Fiquei a pensar.
Para mim, um tamanho único é algo absurdo, porque em rigor não serve a quase ninguém.
Com sorte talvez a meia dúzia de pessoas, mas não à maioria.
Porque todos somos únicos, porque cada um tem as suas características físicas, mais tronco, mais braços…mais alto ou mais baixo, mais magro…logo é conveniente experimentar antes de pagar e levar para casa. Para a minha geração, experimentar ajuda-nos a escolher melhor.
Na pesca é igual.


Não pescamos todos da mesma forma e não faltam modalidades à escolha para quem quer pescar.
Há quem prefira pescar à boia, apostar na chumbadinha, lançar uma chumbada de surfcasting, ou fazer um spinning ao robalo.
Outros dá-lhes para o jigging, ou para os carretos eléctricos e os seus abismos, onde tudo pode acontecer.
E há quem não prescinda de pescar aos sargos na ressaca, com boia de pião, etc, etc.
Na minha opinião a palavra de toque é mesmo “experimentar” e escolher.
Depois disso, se alguém quer ir pelos chocos, exclusivamente chocos, tem obviamente todo o direito de o fazer.


Tudo estaria bem, assim houvesse ...chocos.
O ano de 2026 está a ser francamente difícil para quem gosta de pescar aos chocos.
A época desse molusco chega normalmente no princípio de Fevereiro, e prolonga-se até Maio, por vezes Junho.
No fundo corresponde ao período primaveril, à entrada de chocos que adentram os estuários para desovar e deixar por ali as suas esperanças.
Nos últimos anos, e por força de um incremento da actividade promovido por embarcações Marítimo Turísticas que a isso se dedicam, a pesca do choco passou a ser feita todo o ano. Em Setúbal, e por força das boas condições do Sado, pesca-se todo o ano.
Assim sendo, peça a peça, foram reunidas as condições para uma tempestade perfeita: muito mais gente e com isso mais pressão de pesca, mais capturas, melhores equipamentos de pesca, barcos mais potentes, e ...menos reprodutores disponíveis.
Tudo aponta para um futuro com menos e não com mais chocos.
Se os anos de covid 19 e as limitações de saídas de pesca ajudaram sobremaneira a aumentar a disponibilidade de stock de chocos, os anos seguintes vieram corrigir em baixa essa abundância. Sabemos que foram feitas pescas de chocos a roçar os 40 kgs, por pessoa.
Nós latinos temos destas coisas, ...nunca nos chega.

Gente boa! Os homens das aiolas de madeira são gente muito boa!

É verdade que a lei existe, mas também é verdade que a lei dos homens só por si não limita a ganância desmedida de quem pesca chocos para si, e para fazer dinheiro com o que sobra.
Ponto prévio: nada me move contra os pescadores de chocos. Respeito-os, tal como eles respeitam a minha opção por não os pescar.
Algumas das pessoas que se dedicam ao choco, muitos deles meus amigos, fazem-no por força de uma verdadeira paixão.
Eu vejo-os a pescar quando saio ao mar. Eles estão absolutamente convictos de que é aquilo que querem e mais nada!
É gente boa, séria, com quem todos nós poderíamos partilhar uma grande amizade, não diria partilhar uma escova de dentes mas ainda assim gente que nos inspira e merece confiança.
Deu-lhes para aquilo.
É incrível ver como se divertem tanto com tão pouco…mas convém ter em consideração que a maior parte dos pescadores nacionais não vai pescar quando quer. Vai quando pode.
De alguma forma, muitos dos que se lançam ao Sado, a Meca do choco, são pássaros de gaiola, vivem a pesca de uma forma restrita no tempo porque a sua ocupação profissional os mantém enjaulados.
Quando saem, a opção é a de ir por algo que garanta resultados, sem demasiado esforço. Os chocos são muito isso.


Este ano, à conta das enormes chuvadas que alagaram os campos e mataram pessoas no nosso país, a água doce entrou em excesso nos rios e zonas costeiras.
As cotas de segurança das albufeiras foram atingidas e estas não tiveram outra solução que não a de lançar ao mar verdadeiros rios de água doce.
Os chocos são muito sensíveis a diminuições de salinidade e ...recuaram. Não entrando nos estuários, deixam de estar onde se pescam com mais facilidade.
Os resultados da pesca baixaram drasticamente.
Tudo o resto que se diga é especulação. Nada tem a ver com a cor das toneiras, com a espessura das linhas, ou com o agitar do engano.
Não há chocos, ... não se pescam.
Virá gente mais imaginativa e dirá que tem uma técnica fora de série, ou uma toneira que funciona sempre. Pois sim.
Podemos pegar numa descrição mirabolante de uma pescaria de chocos, retiramos tudo aquilo que é fantástico e irrealista, e o que nos sobra?
Sim, a verdade...a única que se pode ver no fundo dos baldes.


Quando pensamos naquilo que era a pesca dos ditos e aquilo que é hoje, quase não encontramos semelhanças.
Há muitos anos atrás, a pesca era praticada pelos varinos mais velhos, gente aposentada, já sem forças nos braços para enfrentar as duras tarefas das redes e do mar.
Gente que olhava para a lata dos chocos com a esperança de ver no meio do ferrado negro algum acrescento ao magro valor da sua reforma.
A realidade já não é essa.
Hoje temos centenas de pessoas que vão aos chocos por pura diversão, até por acharem graça ao facto de dessa forma perpetuarem uma actividade conotada com gente rija, dura, capaz de se levantar cedo, lançar a sua aiola de madeira à água e dar aos remos com ânimo.
Os homens rijos de hoje já não são os mesmos que fabricavam as suas próprias toneiras, com chumbo, linha e alfinetes revirados. Já não remam.
Pergunto-me até se ainda fará sentido falar de homens do mar, rijos, duros, dos que nunca vergam perante as adversidades.
O conforto das embarcações é outro, os materiais de pesca outros, e a predisposição para sofrer as agruras do mar há muito se desvaneceu.
Hoje, o mais próximo que temos é gente que em pleno inverno se gaba de tomar banho de água fria de manhã, mas que protesta alto se acabar o gás do esquentador.


Porquê os chocos?
E porque não, pergunto eu?
Pescar chocos poderá ter para os seus amantes a sua dose de emoção, imprevisto, suspense.
Para outras pessoas, no fim de tudo não passa de subir um animal amorfo, que não se debate, não luta.
Mas será a luta de um robalo mais digna que a de um choco? Em quê?
Serão muito, serão pouco? São o suficiente.
A cada um aquilo que lhe encaixa melhor.
Se o ano que está em curso não permitiu a entrada de chocos, isso pode querer dizer que a época vindoira será mais promissora.
Esperamos que sim.


Vítor Ganchinho


😀 A sua opinião conta! Clique abaixo se gostou (ou não) deste artigo e deixe o seu comentário.

Artigo Anterior Próximo Artigo

PUB

PUB

نموذج الاتصال