ESPERANDO POR UM... ATUM

A dinâmica que imprimimos à nossa pesca, à cadência de capturas, tem muito a ver com o peixe alvo e a sua abundância.
Se o pescador quiser estar em efervescente actividade, a não ter um segundo de descanso, então vai pelos carapaus, pelas cavalas.
Porque são aos milhões, porque estão em todo o lado, e são fáceis.
Com peixes assim, tão fáceis, vorazes e muito disseminados na costa há uma garantia absoluta de contactos, por ruim que seja o pesqueiro, por ruim que seja o pescador.
Mas se a ideia é conseguir um atum gigante, então a espera pode ser longa. 
E o resultado, na maior parte das vezes, pode ser nulo, o que não deixa de ser verdadeiramente decepcionante mas faz parte.
É um facto que também a recompensa, em caso de êxito, será muito maior....

O isco era uma cavala de bom porte, mas ...morta. Algo estava a morder a nossa cavala.....e a levar linha.

Recebemos na GO Fishing a visita de uma figura ilustre do nosso país irmão, o Brasil.
O Dr Gustavo Vaitsman, médico cirurgião de renome, veio do Rio de Janeiro com o objectivo firme de medir forças com os nossos lusos peixes.
Quase o conseguia....infelizmente as condições não eram boas e não foi possível fazer muito. 
Águas geladas e uma sequência de dias de inclemente nortada fria vieram reduzir as possibilidades de vermos peixes bons a saltar no deck do barco.
Temperaturas de água a rondar os 12ºC à superfície, não auguravam nada de bom para o período de permanência. Ainda assim, e porque as férias de um médico não são elásticas, havia que tentar.
E, aproveitando dois dias de abertura de mar mais calmo, sem vento, fomos ao mar, mesmo sabendo que os peixes não iriam estar ao seu nível habitual.

O Dr Gustavo, com um digno representante da fileira dos besugos, (Pagellus acarne), um peixe que vai bem na grelha, com escamas.

Depois de um primeiro dia de experiências, de descoberta de novas espécies, era tempo de algo um pouco mais encorpado e por isso fomos tentar um atum.
E porque não? Que melhor experiência poderia ter o Dr Gustavo que uma luta de galos com um bom atum?
Um ataque de um peixe desse calibre a uma linha de pesca deixa qualquer um à porta dos cuidados intensivos, …mas sim, sobrevive.
Mais ainda se for um médico cirurgião, habituado a emergências.

Da minha parte eu estava preparado para ser o diligente ajudante que prepara o campo de batalha e tudo fiz para que ele aparece-se.
Para que tenham uma ideia da magnitude das forças que enfrentamos posso dizer-vos que dificilmente poderemos antecipar as dificuldades que um atum nos coloca.
Sabemos que vai ser duro, muito difícil, mas nunca sabemos o quanto será “muito difícil”.
A partir de um determinado peso todos os peixes são mais fortes que nós…


Com todo o sistema montado, carreto de desmultiplicação, linha leader de 170 libras, procedimentos a bordo bem definidos a cada um de nós, nada mais havia a fazer que não esperar.
E a espera foi longa.
Até que um ligeiro ruído no carreto veio despertar os mais profundos instintos pescadores do Dr Gustavo: havia algo a mordiscar a cavala.
Nestes casos, a primeira reacção é a de tentar ferrar o peixe. 
Não se deve fazer, deve-se sim ter o sangue frio de saber esperar.

Um peixe que cruza os oceanos, que faz milhares de milhas náuticas sem ver vivalma, sem ser picado por um anzol, tem grandes probabilidades de ser “crente”.
Por isso, e jogando na “presunção de inocência” de quem estava a provar a isca, resolvemos aguardar.
E fizemos bem porque daí a pouco havia contacto firme e decidido: o peixe puxava linha.


Pelo ímpeto, ou a sua falta, pela forma como a sequência de esticões se sucedia, entrecortada, pouco convicta, percebi que não era o nosso ambicionado atum, mas sim apenas uma aproximação: uma tintureira azul.
Confesso o meu enfado quando me surge uma “alminha” destas.
Nestes casos, pouco há a fazer que não seja a de dar luta ao animal, fazê-lo encostar ao barco e tentar libertar a dita.
Caso isso se revele impossível, e às vezes acontece, há mesmo que convidar a desafortunada a entrar a bordo, onde podemos trabalhar em melhores condições.

Tentar retirar o anzol a bordo não será nunca tarefa fácil já que qualquer descuido pode custar um dedo ou até uma mão ao incauto que o faça.
Para isso é conveniente ter procedimentos bem treinados, saber por onde segurar o bicho, saber de que forma fica mais calmo, e avançar com um alicate de pontas compridas.
E assim, com o peixe em posição ventral, “amansado”, é possível retirar o anzol que o segura.


Duas ou três fotos e está feito, é tempo para devolver ao seu meio a tintureira que tanto se debateu.
Mas é sempre um peixe que sabe a pouco.
A ideia eram mesmo os atuns, esses sim grandes lutadores, explosivos, fortes, com uma capacidade de resistência muito acima dos demais.
Tenho para mim que um tubarão mako vale muito mais que meia dúzia de tintureiras, mas também é verdade que a sua raridade torna-os um encontro mais fortuito. Aparecem por vezes bem junto à costa, e tenho registos de dias em que os makos são aos molhos, um aqui e outro ali, a vaguear pela superfície.
Quando por azar dos Távoras nos calha que mordam a nossa isca, temos uma “missa cantada” que pode durar algum tempo.
O mako, armado de dentes afiados e um mau feitio congénito, pode colocar-nos dificuldades que as tintureiras nunca colocarão.


Para que tenham uma ideia, os tubarões makos (Isurus oxyrinchus), também conhecidos como anequins, atingem dentro de água velocidades de ponta na ordem dos 70 a 90 km/h.
São de longe o tubarão mais rápido do mundo e nós temo-lo aqui, nas nossas lusas águas.
Donos de uma hidrodinâmica privilegiada, eles conseguem atacar os atuns e arrancar-lhes pedaços de carne.
Já me apareceram diversas vezes e se algo retenho na memória são os seus impressionantes saltos fora de água.
Vejam a foto de um que desferrei com cuidado para libertar em boas condições:


Os atuns, esses, à data em que escrevo este artigo, já estarão entre nós há semanas.
O ano tem vindo agreste, com águas frias muito para lá daquilo que é habitual e isso atrasou a chegada das cavalas, o grande alimento de toda esta gente....
Os cardumes já chegaram, deixam-se até ver à superfície, imensos, ruidosos, e ....atractivos para quem gosta de “sushi de cavala”.

Vamos beneficiar da sua presença. 
São elas, as sardinhas, os carapaus e o biqueirão os grandes responsáveis por termos peixe nobre nos pesqueiros.
Os peixes que tanto gostamos de pescar.


Vítor Ganchinho


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