ANO ATÍPICO PARA OS NOSSOS PEIXES

Tem sido um ano difícil.
O inverno começou ruim, com muita chuva, muito vento, com inundações que tantos estragos fizeram na zona centro do nosso país. Morreram pessoas. 
A juntar a isso, sofremos a impossibilidade de podermos sair ao mar, para pescar.
É certo que os nossos peixes necessitam de repouso, de algum sossego, de tempo para reproduzir, de crescer. De ganharem corpo e força para as grandes batalhas que travam no seu dia a dia e até connosco.

A primavera de 2026, em termos de pesca à linha, não será tampouco recordada pelos melhores motivos. As águas estiveram frias demais, diria geladas.
Alguns dos peixes que costumam passar o período primaveril entre nós, desta vez ficaram longe. 

Todavia, mesmo nas piores circunstâncias, a pesca é possível e um ou outro peixe acaba por se mostrar.
Por isso mesmo, por termos águas mais frias, acabámos por reter os pargos capatões e as bicas, em quantidades menos usuais, por mais tempo. 
Assim sendo, com maior ou menor dificuldade, caros amigos, é lançar linhas, ....sempre.



Quando baixamos as nossas expectativas, quando aceitamos com um sorriso as agruras que sofremos por cada peixe pescado, estamos mais próximos de regressar da pesca menos desiludidos.
O segredo é esse: não criar a ideia de que só vale a pena pescar quando se enche facilmente a caixa. 

No meu caso pessoal, e porque tenho a responsabilidade de testar amostras, linhas, carretos e canas importadas pela GO Fishing Portugal, vou ao mar com objectivos claros e bem definidos.
As razões que me levam a sair de casa passam muito para lá da simples pesca e dos peixes que possa trazer para terra. Vou...porque sim.
Os fabricantes japoneses gostam de receber relatórios sobre a eficácia dos seus produtos nas nossas águas, e eu faço isso com muito gosto. 

Estes triplos da Gamakatsu, extremamente afiados, são os responsáveis por uma alta taxa de eficácia ao primeiro contacto. O resto é feito pelos anzóis assistes da cabeça, muito mais fortes e que normalmente acabam por prender também.


Aquilo que me pedem é que transmita certezas, factos concretos, preto no branco, e não que atire para o ar dúvidas e imprecisões. 
Para isso há que experimentar em diversas condições de mar, testar exaustivamente os produtos, de forma a  poder falar sobre eles com propriedade. 
Sobre esta ou aquela amostra, por exemplo.
Emitir opinião técnica sobre algo é uma grande responsabilidade, e no meu caso isso implica conhecer por dentro e por fora os equipamentos. Sob perda total de credibilidade.

Por isso pesco com eles em situações limite: linhas demasiado finas, jigs demasiado leves, anzóis demasiado finos, desafiando muitas vezes a lógica de pesca que aconselharia algo mais robusto.

Mas se querem saber, por mim está bem. 
Vejo a pesca para além do resultado material, ou não fosse eu uma pessoa que oferece aos amigos mais de 90% do peixe capturado. 
É-me indiferente trazer muito ou pouco porque a quantidade de peixe que chega a casa não excede um ou dois peixes para o dia.

Mesmo com pouco peixe nos pesqueiros, se aproveitarmos bem as oportunidades de toques recebidos, acabamos por conseguir fazer algo.

Selectivo sim, sempre, e por isso mesmo pesco com artificiais.
Deixar de lado as miudezas, os protótipos de “futuros” peixes, esperanças, é algo que me dá paz de espírito, que me deixa bem comigo próprio.
Nada me pode aborrecer mais que deixar ferido um pequeno peixe que engoliu um anzol e por isso ficará estropiado para todo o resto da sua vida.
É responsabilidade de quem pesca ir mais além dos deprimentes “peixinhos para fritar” que se pescam todos os dias e mais não são que a desoladora confirmação de que há pessoas sem o mínimo direito de pegarem numa cana.
Podemos fazer isso selecionando técnicas menos dadas às ditas ...miudezas.
Ver para além daquilo que é a pesca habitual “porque sim”, é uma obrigação daqueles que se preocupam com aquilo que vamos deixar aos nossos filhos.

Ver para além do que é imediato. Pensar a pesca.


Os sacrifícios feitos pela arte da pesca valem sempre a pena.
As noites mal dormidas, o corpo exausto dos trabalhos de mar, tudo vale a pena quando se faz aquilo que se gosta.
Para se ser pescador, há que aceitar as dificuldades. 
As noites são mais curtas, as madrugadas frias não nos podem meter medo, e o vento que nos gela a pele e os ossos mais não é que um amigo que nos abraça.
Ver nascer o sol é e será sempre uma benção dos deuses, um privilégio de quem é pescador de alma inteira.


Deixo-vos um curto vídeo, com um detalhe sobre uma colher da Little Jack que me tem dado resultados satisfatórios nas minhas pescas aos robalos e pargos.

Espero que seja útil:
Clique na imagem para visualizar e na rodinha das definições para melhorar a qualidade.


Vamos e voltamos.
Por isso, quando o corpo já nos pede descanso, quando o vento norte nos diz ter chegado a hora, é tempo de voltarmos para terra, felizes.
Com ou sem peixes, isso interessa pouco, mas com os olhos cheios de mar, de felicidade pura.

Há um momento de dizer chega, de dizermos sim ao barco, de o deixarmos dar aquele beijo apertado contra o cais.


Vítor Ganchinho


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1 Comentários

  1. Comprei esse jig ontem. Vou experimentá-lo no Tejo. Depois dou feedback. Um abraço. Miguel Guia

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